A Maldição das Cinco Caipirinhas – Capítulo 2 – A Recusa

A Maldição das Cinco Caipirinhas é a primeira obra de ficção colaborativa do Cinema de Buteco. São 10 capítulos de 10 autores diferentes, publicados toda quinta-feira, que contam a história de Orson, um cinéfilo bêbado que conhece uma garota no Tinder e se envolve numa trama obscura e bizarra. Leia o capítulo 1, “Ursinha Macia”, de Tullio Dias.

Além de continuar a história, cada autor deverá encaixar uma citação cinematográfica no meio do texto. Neste capítulo 2, Carvalho de Mendonça precisou inserir a clássica:

“Fique com o troco, seu animal!”
(Esqueceram de Mim)

Divirta-se:

Capítulo 2 – A Recusa

por Carvalho de Mendonça

PRECISO CONFESSAR. A CADA PASSO que Claudia dava em minha direção, menos parecida com a Salma Hayek ela ficava. Ainda assim, minha mente continuava fantasiando um apocalipse zumbi, com ela tirando a roupa e uma cobra da bolsa para dançar no meu colo. Quando retornei à realidade, ela já estava na mesa. E vestida. Levantei-me e, sem jeito e sem palavras, apenas sorri. Claudia, sem graça e sem cobra, surpreendeu-me com a doçura de sua voz:

– Desculpa chegar tão atrasada. Está chovendo sapos lá fora.

A primeira frase daquele encontro desencadeou em mim uma série de constatações e delírios. Jamais uma ex-namorada havia pedido desculpas por seus atrasos, muito menos por um de 16 minutos. A sutileza juvenil daquele falar contrastava com a figura poderosa, levemente libertária, da mulher à minha frente. Porém, o que mais me encabulou foi a dúvida em relação à chuva de sapos. Seria alguma expressão popular que desconheço, tipo “chover canivetes”, ou uma referência a Paul Thomas Anderson? Queria convidar Claudia para se sentar, mas eu sabia que iríamos nos constranger ao lembrar da Xuxa.

– Que isso. Não precisa de desculpas. Também acabei de chegar – menti. – Ainda tô na primeira caipirinha. Você me acompanha?

– Acho que vou aceitar uma cerveja. Tomei duas tequilas antes de sair de casa, acho que não vai fazer muito bem se misturar com caipirinha – ela sorriu e completou: – Sabe como é, primeiro encontro, sem álcool eu não iria conseguir.

A insegurança de Claudia foi um alívio para mim. Estávamos no mesmo barco e aquilo me acalentava. Durante os últimos meses ao lado de Daniela, aquela sensação de compartilhamento de sentimentos era rara. A sintonia não era a mesma e remávamos sempre em sentidos opostos. Na verdade, eu não me sentia tão solitário assim. Eu me sentia dependente. Dependente e egoísta. Sempre tive medo de estar sozinho quando alguma mazela, estilo Mar Adentro e Vermelho Como o Céu, acontecesse comigo. Dani não me passava mais segurança e a honestidade de Claudia me deixou confortável. E além de tudo, ela bebia tequila.

– Tudo bem, sem problemas. Você poderia ser uma viciada em heroína, em sangue de carneiro ou em Harry Potter. Digamos que duas tequilinhas antes de um encontro são aceitáveis – brinquei, correndo um sério risco de ela ser algum cosplay da Hermione, montar na sua vassoura e me deixar falando sozinho.

– Quem disse pra você que eu não sou viciada em sangue de carneiro? – ela tinha senso de humor. – Orson. Gostei do seu nome. Pelo visto, seus pais também eram cinéfilos.

– Minha mãe, na verdade. Meu pai gosta de Vovó… Zona 2, As Branquelas e acha que o Nicolas Cage é o melhor ator vivo depois do Stênio Garcia – respondi feliz por ela conhecer Orson Welles. – E a sua família, curte cinema?

– Sim, sim. Papai trabalhou na área. Quer dizer, ele fez figuração em Os Sete Gatinhos, A Dama do Lotação e Rio Babilônia. Mas não herdei o mesmo fascínio que ele tem pelo cinema brasileiro. Algo me incomoda quando vejo filmes com o nosso idioma. Talvez por estar acostumada a ver os atores nas novelas, não consigo comprar as tramas, entende? Acho que a língua portuguesa tem uma certa dificuldade de se encaixar em determinados gêneros. Pensa comigo. Nos filmes do Almodóvar, alguém diz “Juan, no hable así con tu madre”. Por mais banal que seja, a frase soa dramática. Diferentemente de “João, não fale assim com a tua mãe”. Resumindo, acho que muito do charme do cinema espanhol, italiano, francês, está no encaixe do idioma com determinado gênero. O cinema brasileiro ainda não encontrou o seu. Mas vai encontrar.

Eu estava embasbacado. Havia encontrado no Tinder uma pessoa que, além de gostar de cinema, teorizava sobre o assunto. Discordava dela em alguns pontos, mas não iria me atrever a criar um conflito naquele momento. Afinal, ela era filha de um ator de pornochanchada. Pedi mais uma caipirinha e elogiei o tratamento dispensado pelo garçom com a cara do Paul Giamatti, mas Claudia rebateu:

– Odeio esse cara. Fiquei sabendo que ele espanca a namorada. Desculpa, mas não consigo separar o pessoal do profissional. Pode preparar o melhor Bloody Mary do planeta, cuspir fogo, fazer malabarismo com os limões nas costas, ainda assim, não consigo fazer um elogio sequer.

– Woody Allen, Polanski, Michael Jackson…? – provoquei.

– Cada caso é um caso. Temos muita coisa não explicada, muito boato. Mas se algo está comprovado, é o fim pra mim.

– Acho que eu sou capaz de chegar na cara de um deles e dizer: “admiro você, mas discordo do que você faz” – afirmei, já acenando para outro atendente trazer um chope escuro para ela.

A noite foi sensacional. Não tivemos tempo de falar de política, desemprego, Donald Trump ou a guerra da Síria. Era como se tivéssemos um universo só nosso, onde uma barreira invisível nos sugava de volta todas as vezes que o assunto tomava atitudes por si mesmo. Ela me contou sobre a sua paixão por Watchmen e Estrada Para a Perdição. Confessei a ela meu fascínio por Cisne Negro e Cinema Paradiso, além da minha quedinha, quase sexual, pelo Mickey Rourke. Falamos também sobre literatura e as adaptações da Marvel. Pode parecer exagero de um romântico desesperado (que eu realmente sou), mas, naquele momento, eu estava me sentindo infinito e queria dizer a ela como a vida era maravilhosa agora que ela estava em meu mundo. Mas o despertador do celular dela tocou. Achei estranho, eram três e pouco da madrugada. Ela se levantou rapidamente, apanhou suas coisas, disse que precisava ir e desapareceu, antes que eu pudesse ter qualquer reação.

A minha Cinderela não deixou sapatinho de cristal, mas esqueceu a carteira sobre a mesa. Corri até a porta, mas já era tarde. Chovia muito forte. E chovia água mesmo. Não fazia ideia de qual rumo ela tinha tomado, nem mesmo se virara uma abóbora ou um lycan. Voltei ao interior do bar e pedi a conta para o espancador de namoradas, que retrucou:

– Ora, ora. Não tão rápido. O cliente que bebe cinco de nossas especiais caipirinhas ganha a sexta por conta da casa.

– Desculpa, agradeço, mas vou recusar. Preciso mesmo ir embora agora. A conta, por favor – trepliquei, já sem paciência.

– Ora, ora. O que eu fiz para merecer tanto desrespeito? O senhor vem ao meu estabelecimento pela primeira vez, eu lhe faço um agrado e recebo uma recusa? Vamos lá, se eu fosse você, beberia a sexta caipirinha – insistiu Giamatti, com os olhos esbugalhados.

A petulância do cara, somada à situação, me tirou do sério. Atirei o dinheiro no balcão e gritei:

– Fique com o troco, seu animal!

Virei as costas e fui saindo, quando ele me chamou:

– Orson! – como ele sabia meu nome? – Eu admiro você, mas discordo do que você faz – disse ele, virando a tal caipirinha numa golada só.

***

Abri os olhos e tateei o lençol, como de costume, procurando o celular. Estava descarregado. Com o controle remoto, liguei a televisão para ver as horas. Passava o jornal da manhã, eu ainda tinha tempo. Levantei-me e fui em direção ao banheiro, mas, frente ao espelho, tive uma estranha surpresa. Minha barba havia crescido drasticamente em uma noite. Olhei novamente para a TV, me aproximei. Não era possível. Eu havia dormido por cinco dias seguidos. Coloquei um jeans com minha camiseta de Kill Bill e corri para o trabalho.

Ao entrar na agência, o mundo parecia ter parado para me admirar (ou julgar). Sentia-me o Clint Eastwood e podia ouvir os assovios de Ennio Morricone. Meu chefe, do outro lado do duelo, tinha um olhar assustado e reprovador. Alice, pelo braço, me carregou até a recepção.

– O que tá acontecendo aqui? – perguntei. – Quem é a ruiva sentada na minha mesa?

– Como assim sua mesa, Orson? Você não trabalha mais aqui.

– Que brincadeira é essa, Alice?

– Orson, você veio aqui na agência no início da semana e deu um ataque de overacting na frente de todo mundo. Derrubou o armário do Peixoto e arrancou a cabeça do boneco do Jaspion com a boca. Entrou na sala do chefe e, depois de dez minutos, saiu gritando qualquer coisa com a voz do Chewbacca. Você se demitiu, Orson. Que maluquice é essa?

Não fazia sentido. Decidi explicar para Alice o que estava acontecendo. Apesar de nosso relacionamento razoavelmente próximo, nem mesmo ela parecia compreender.

– Alice. Eu dormi e acordei cinco dias depois. Isso, por si só, já é sinistro. Agora, descubro que eu não estava propriamente dormindo. O que mais eu posso ter feito durante esse tempo todo? – eu estava com medo.

– Orson, faz o seguinte. Vai pra casa. Toma um banho gelado e descansa. Assiste um filme dos irmãos Coen e tenta inventar alguma coisa menos bizarra pra explicar pro Peixoto. Eu vou tentar convencer ele a te receber amanhã. Só não deixe as pessoas pensarem que você enlouqueceu – ela me orientou, como se fosse possível.

– Tem mais alguma coisa sobre aquele dia que você pode me contar? – questionei.

– Tem sim. Você estava só de cueca. Cueca do Aquaman.

***

Voltei ao meu apartamento, atento a tudo. Poderia ter feito inimigos naqueles dias. Pensei que conseguir uma arma seria de grande valia. Trocar a fechadura também. Sentei na beirada da cama e visualizei a carteira de Claudia sobre o criado-mudo. Decidi abrir e meu mundo virou mais dois mortais para trás. Não havia documentos, nem dinheiro, nem fotografias. Apenas papéis, recibos, promissórias e cartões de banco. Todos eles no nome de Daniela Amarante, minha ex.

***

Esta história continua na próxima quinta-feira, aqui neste mesmo Buteco. O capítulo 3 ficará a cargo de Leonardo Carnelos, que deverá encaixar a citação: 

“Se passares pelo céu, manda lembranças aos anjos.
Mas se teu fim for o inferno, dê meu endereço ao diabo.”
(Zé do Caixão em À Meia-Noite Levarei Sua Alma)

Organização e edição: Lucas Paio
Arte: Renato Trindade

Carvalho de Mendonça

Poeta e funcionário público. Atleticano e cinéfilo. Zagueiro clássico e especialista em Direito Desportivo. Viciado em futebol, literatura, café e cerveja artesanal. Carrega em sua memória a escalação de milhares de escretes e infinitas informações sobre a dramaturgia brasileira. Autor da obra poética “Leve-me água do mar” e da coluna semanal “A Palo Seco” em um jornal municipal, prepara seu primeiro romance para 2018.