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A Maldição das Cinco Caipirinhas – Capítulo 3 – Uma Mente Sem Lembranças

A Maldição das Cinco Caipirinhas é a primeira obra de ficção colaborativa do Cinema de Buteco. São 10 capítulos de 10 autores diferentes, publicados toda quinta-feira, que contam a história de Orson, um cinéfilo bêbado que conhece uma garota no Tinder e se envolve numa trama enigmática e imprevisível. Leia o primeiro capítulo (por Tullio Dias) e o segundo (por Carvalho de Mendonça).

Além de continuar a história, cada autor deverá encaixar uma citação cinematográfica no meio do texto. Neste capítulo 3, Leonardo Carnelos foi incumbido de inserir:

“Se passares pelo céu, manda lembranças aos anjos.
Mas se teu fim for o inferno, dê meu endereço ao diabo.”
(Zé do Caixão em À Meia-Noite Levarei Sua Alma)

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Capítulo 3 – Uma Mente Sem Lembranças

por Leonardo Carnelos

A NOITE ESTÁ ÚMIDA E DECIDO PERMANECER em casa para organizar as ideias. Não posso me desesperar. Como diria Spock, tenho certeza de que tudo isso tem uma explicação extremamente lógica. A última coisa que me lembro foi de voltar pra casa após o encontro com a Claudia. Preciso racionalizar, mas conectar os fatos que se apresentam está mais difícil que interpretar um filme de Luis Buñuel.

O que eu sei até agora? Quer dizer então que me demiti e xinguei meu chefe, e agora preciso pedir meu emprego de volta como se nada tivesse acontecido? Por acaso estou num episódio de Seinfeld? Desde quando o Larry David passou a escrever o roteiro da minha vida? Problemas pessoais, eu estava sob o efeito de remédios, um irmão gêmeo maligno, talvez? Não sou capaz de inventar uma história convincente. Talvez tenha que começar a procurar outro emprego.

Por que será que não me lembro de nada dos últimos cinco dias? Será que apagaram minhas memórias como em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças? Esta seria uma explicação mais lógica do que aqueles feitiços que acontecem nos filmes de segunda chance. Eu adoro filmes de segunda chance: são uma espécie de guilty pleasures pra mim. Filmes onde o protagonista experimenta uma realidade alternativa que o convence a mudar suas atitudes no presente. Como Feitiço do Tempo com Bill Murray, De Repente 30 com a Jennifer Garner, Um Homem de Família com o Nicolas Cage, Click com Adam Sandler ou ainda o próprio O Mentiroso com o mesmo Jim Carrey de Brilho Eterno. Eu adoraria uma segunda chance com a Daniela. Mas por que raios estou com a carteira dela? E por que diabos a Claudia esqueceu a carteira da Dani no bar do Paul Giamatti?

Tento um contato telefônico com a Dani mas ninguém atende. Desconfio que ela me bloqueou no celular. Quem mandou ligar tantas vezes pra ela bêbado, quase sempre de madrugada, pedindo pra ela voltar? Tento ainda mandar uma mensagem para a Claudia pelo Tinder, mas descubro que seu perfil sumiu. Meu estômago embrulha e fico cada vez mais intrigado e sem saber o que fazer.

Decido revistar meus pertences pessoais em busca de mais pistas. Meu apartamento é pequeno e moro sozinho, então não demoro muito pra revirar tudo. Meu celular também parece ter sofrido um apagão. Ou eu não o usei nos últimos dias ou os históricos foram devidamente apagados: mensagens de texto, redes sociais, e-mails. Nada a acrescentar. Minha carteira está vazia de dinheiro, mas encontro 5 entradas de cinema. As datas deflagram que assisti a um filme para cada dia de apagão. Eu os guardo junto à minha coleção de ingressos de cinema e penso: pelo menos fiz algo de que gosto muito nesses dias. Esta é apenas uma das minhas inconvencionais coleções. Elas são o meu Rosebud. Observo por alguns segundos a coleção completa dos brinquedos do Andy da trilogia Toy Story, mas é melhor eu não perder muito tempo com isso. Preciso de foco pra descobrir o que aconteceu.

Como vivi estes dias? Quem estava no comando da minha mente? Será que minhas neuroses e psicoses evoluíram para depressão, bipolaridade ou múltiplas personalidades? Aí lembro imediatamente de Identidade, com John Cusack. Espero que eu ainda seja a personalidade dominante, e que entre as demais não exista um psicopata. Penso em ligar para o meu analista e marcar uma consulta de emergência, mas não tenho coragem de enfrentar isso no momento.

O que mais sei sobre estes cinco dias? Ah… verdade. A cueca do Aquaman. Eu tinha uma quando criança. Isso pode ser um indício que em algum momento eu tenha passado na casa da minha mãe. Mas, caramba. Eu também não estou preparado para ligar pra minha mãe. Não quero ouvir novamente aquele discurso de que não realizei nenhuma grande obra equiparável a dirigir um Cidadão Kane antes dos 30 anos. Preciso conversar com alguém que acredite em mim e que me ajude.

Decido então ligar para meu melhor amigo. Será que fiquei uma semana sem falar com ele? Ele certamente vai me ajudar a entender o que aconteceu. Barretto é um dos poucos que sabe do meu problema com bebida mas não tenta me mudar. Ele é um viciado em filmes de ficção científica, e por mais que eu não aceite que ele não goste do Kurosawa, respeito muito sua opinião. Ele atende prontamente à minha ligação:

Está tudo bem? Que raios aconteceu com você? Quando a Alice me contou que você tinha pedido demissão eu tentei falar contigo, mas não tive sucesso.

– Pois é, este é o problema. Eu não me lembro de nada dos últimos cinco dias e estou te ligando para que você me ajude a descobrir o que aconteceu – respondo, em tom de desespero.

– Nós não conversamos nos últimos dias. A última vez foi quando você me ligou pra contar que tinha um encontro às escuras, na semana passada. Te liguei algumas vezes no celular estes dias, mas depois de um tempo parei de tentar. Aquela mensagem que você deixou na sua caixa postal estava me assustando.

O quê? Quer dizer que eu mudei a minha mensagem da caixa postal do celular? O que ela diz? – pergunto preocupado.

Você não sabe? Melhor escutar você mesmo. Vamos marcar um almoço no fim de semana, agora eu preciso voltar ao trabalho. Se cuida, cara. Você não parece nada bem.

Mal desligo o telefone e já acesso minha caixa postal para ouvir minha mensagem, que dizia:

Se passares pelo céu, manda lembranças aos anjos. Mas se teu fim for o inferno, dê meu endereço ao diabo.

Aparentemente essa mensagem afastou todo mundo que me procurou nesta semana e ninguém teve coragem de deixar um recado. E como exercício eu repasso mentalmente todas as pistas conhecidas referentes aos dias que passei em branco. Aos poucos elas vão se encaixando e começo a sentir uma epifania desalentadora. Será que eu fui drogado como em Se Beber, Não Case?

– Nããããããooo!!!

***

Depois de quase perder os sentidos, retomo a razão e tomo uma atitude mais drástica. Vou direto ao cinema que frequentei. Lá eu certamente encontrarei mais pistas do meu paradeiro durante o apagão, e eventualmente arrumo a arma pra me defender.

***

Esta história continua na próxima quinta-feira, aqui neste mesmo Buteco. O capítulo 4 ficará a cargo de Rodrigo Fernandes, que deverá encaixar a frase: 

“Tá de pomba-girice comigo?”
(Coronel Fábio em Tropa de Elite 2)

LEIA O CAPÍTULO 4

Organização e edição: Lucas Paio
Arte: Renato Trindade

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