A Maldição das Cinco Caipirinhas – Capítulo 10 – O Fabuloso Destino de Orson Wellington

E a primeira obra de ficção colaborativa do Cinema de Buteco chega ao final! Durante as últimas 9 semanas você acompanhou a saga de Orson, um cinéfilo bêbado que conhece uma garota no Tinder e se envolve numa trama tresloucada e improvável. Se você ainda não leu ou quer relembrar, leia os capítulos anteriores aqui.

Além de continuar a história, cada autor teve que encaixar uma citação cinematográfica no meio do texto. Neste capítulo 10, Lucas Paio precisou colocar:

Você também pode sentir alegria e felicidade no ódio.
(Asa Vajda em A Maldição do Demônio)

Confira agora o último capítulo de A Maldição das Cinco Caipirinhas!

Capítulo 10 – O Fabuloso Destino de Orson Wellington

por Lucas Paio

Hoje pus os pés fora de casa pela primeira vez em quatro semanas. Fui ver o doutor Monteiro. Estou tão relapso com minha aparência, e com a barba tão malcuidada, que ele me viu e já foi gritando: “Wiiiiiilsoooooon!”. Nunca vi um psiquiatra tão jocoso. Não é à toa que está como “Patch Adams” no meu celular.

Voltei da consulta trazendo não um Diazepanzinho como gostaria, mas um CD. Estou prestes a colocá-lo no laptop e descobrir o que tem dentro, se é ressonância do meu cérebro ou vídeo-aula de yoga, assim que encontrar espaço pra me locomover nesta zona de guerra que chamo de casa. Pois é: meu quarto virou um ninho de caixas de pizza, yakissoba e suco natural espalhadas pra todo canto. Depois de ingressos de filmes, cartazes poloneses de clássicos do cinema, miniaturas de carros do 007, camisetas do Chewbacca e bonecos de Toy Story – com tantas variações do Sr. Cabeça de Batata que daria pra fazer um purê –, agora tenho a honra de poder incluir “lixo” na minha coleção de coleções.

Não sei se você reparou, mas não mencionei sequer a porra de uma latinha de Glacial no parágrafo anterior. É que faz um mês que estou a seco, terminantemente proibido de ingerir uma gotinha de álcool que seja, desde que voltei das minhas férias forçadas no hospital. Ando mais sorumbático do que de costume, sem falar com ninguém nas últimas semanas a não ser os caras do delivery. Mas não me entreguei à depressão: ocupo meu tempo maratonando a filmografia de Michael Haneke, Lars Von Trier, Jia Zhangke, Irmãos Dardenne… sabe, tudo pra manter o bom astral.

Enquanto me sento no meio do caos com o laptop no colo, repasso mentalmente minha conversa com o doutor Monteiro.

“Orson, você me disse hoje que sonhou bastante enquanto estava em coma. Como eram esses sonhos, você se lembra?”

“Ah, doutor. Uma maluquice só. Eu perdia a memória e tentava juntar as peças de um quebra-cabeça nonsense… Meus amigos estavam no meio, o Barretto, a Alice, a Daniela, minha ex… e até a Claudia, a garota que conheci no Tinder. Tinha também um garçom psicopata que me atirava caipiroskas como se fossem molotov, e depois se revelou uma mistura de mafioso russo com cientista louco. Aí eu virava super-herói, salvava o dia, mas aí chegava a Alice vestida de Mulher-Gato ameaçando matar a Dani… Enfim, uma grande viagem psicodélica de quem passou a vida vendo filmes demais. Mas o engraçado é que é tudo tão claro, tão nítido na minha cabeça… Acho que eu conseguiria repetir até diálogos inteiros.”

“Daria um filme, você não acha?”

“Um filme? Só se fosse daqueles sem pé nem cabeça do Buñuel ou do David Lynch.”

“Ou do Orson?”

“Como assim?”

“Ué, Orson. Você adora cinema. E já me falou diversas vezes que seu emprego na agência te sugava tempo e energia, não te permitia pensar em nada criativo… Agora que não está mais trabalhando, talvez seja uma boa ideia usar esse tempo pra colocar algumas ideias no papel, se expressar, ver se você descobre um novo caminho.”

Esse psiquiatra deve ter chulé no encéfalo. O único filme que fiz na vida foi uma gravação das minhas primas dançando Chiquititas num aniversário de família, e só porque fui coagido pela minha tia sob pena de ficar sem brigadeiro. Não foi exatamente uma estreia promissora como um Gosto de Sangue ou um Cães de Aluguel.

“A propósito, Orson, tenho um dever de casa pra você.”

Foi aí que ele me entregou o CD.

“Hoje, quando você chegar em casa, quero que abra isso no computador e veja tudo do início ao fim.”

“O que é?”

“Promete, Orson?”

“Ué, doutor, depende do que é. Ainda tenho que terminar minha maratona do Bergman, se for aquelas coisas de meditação guiada ou algo do tipo, não vou ter tempo hoje.”

“É importante, Orson. Promete que vai abrir?”

“Tá bom, tá bom”, cedi. O Bergman podia esperar uns minutinhos, e não é como se eu tivesse que levantar cedo no dia seguinte para trabalhar.

Já estava de saída quando o doutor Monteiro me fez uma pergunta inesperada.

“Orson, eu sei que o seu negócio é cinema, mas por acaso você acompanhava Lost?”

Lost? Até vi um pouco, mas não era muito fã. Eles perderam o rumo depois de um tempo, parecia que não tinha planejamento, que cada episódio era escrito por uma pessoa diferente…”

“Bom, talvez você se lembre de uma das frases de efeito que os personagens repetiam bastante.”

Live together, die alone?

“Não, uma outra. Whatever happened, happened.

Voltei pra casa com aquilo na cabeça. O que aconteceu, aconteceu. Talvez seja hora mesmo de tirar a mente de algum lugar do passado e ser um homem do futuro. Esquecer a Dani, conhecer gente nova, fazer algo diferente. Afinal, sempre curti filmes de segunda chance. Talvez esteja diante de uma.

Aí coloco o CD no laptop e não é nada daquilo que eu imaginava. Há apenas um arquivo de vídeo. Clico duas vezes. Em vez de um guru transcendental com timbre zen fazendo TED Talk de consciência corporal, me aparece, encarando a tela… o Barretto.

Orson, seu fidumaégua. Você vai ficar trancafiado nesse seu ninho de rato até quando? Não atende o telefone, não responde o WhatsApp, não atende a porra da campainha, virou um ermitão que nem aquele mané de Na Natureza Selvagem. Então sobrou o quê? Gravar essa merda aqui e entregar pro seu psiquiatra com a esperança de que você assista tudo, processe essas informações todas e depois, tomara, faça contato. Ou sei lá. Talvez você não queira falar com a gente nunca mais depois do que vai ouvir, mas temos que tentar.”

Ele olha pro lado.

Silene, você quer começar?

Silene? Quem diabos é Silene?

O Barretto sai do quadro e dá lugar a uma garota que conheço por outro nome. Sinto a minha cabeça explodir, e a sensação não é agradável.

Oi, Orson. Pois é… Meu nome não é Claudia. Mas olha, eu não agi de má fé, viu? A intenção era das melhores. E não foi ideia minha, que fique bem claro. No início, tudo o que eu fiz foi concordar em usarem minha foto no Tinder. Pra ser sincera, eu nem sabia o que era Tinder. Achei que era tipo o novo Tamagotchi. Foi o Victor que me explicou. No início ele achou meio estranho alguém usar a foto da noiva dele num perfil falso com outro nome, mas ele é super de boa e entendeu a razão.

Pensei que ia parar por aí, mas tipo um mês depois, ela me ligou com um pedido inesperado. Eu relutei, achando que ia dar merda, mas ela foi insistente e acabei topando. Sabe, eu faço teatro há quase quatro anos e ainda me sinto insegura no palco. Pensei assim: no mínimo, vai ser uma boa oportunidade de praticar a arte do improviso e interpretar um papel na vida real. Foi por isso que aceitei virar ‘Claudia’ por uma noite.

A minha nervosia ao chegar no bar não era atuação. Tirando isso, segui o script direitinho. E foi bom que eu tenha sido bem treinada pro papel, porque Orson, meu filho, você não sabe falar de outra coisa a não ser de filmes, hein? E eu não entendo nada de cinema, meu negócio sempre foram as artes cênicas. Com o Victor, só vejo filme de ação, que ele adora. Conheço de cor todos os Duro de Matar, Missão Impossível e Transformers da vida. Mas memorizei aquelas informações todas sobre cinema brasileiro, filmes noir, adaptações de quadrinhos, e a conversa foi fluindo. Aí lá pelas três da madrugada você já estava pra lá de Bagdá com aquelas caipirinhas todas, e decidi ir embora antes que você viesse me dar um beijo. Pus aquela carteira na mesa como combinado e deixei o Victor tomando conta pra você não exagerar na bebida. Mas sabe como é, ele é gente boaça mas vive de fazer os outros beberem, acho que não foi uma boa ideia.

Me vejo forçado a pausar o vídeo. Não para coletar os restos da minha massa cinzenta que explodiu pelas paredes, mas pra tentar usar o que sobrou para raciocinar. Então a Claudia, que na verdade era Silene, estava noiva de um certo Victor, que trabalhava no bar, e era… era… o Giamatti?

Quando dou play de novo, o Barreto retorna.

Peraí, deixa eu contar a minha parte aqui pra história não ficar mais confusa do que já deve estar na cabeça do Orson. É o seguinte, bicho. Você precisa dar uma diminuída nessas bebedeiras. Quando eu cheguei no bar naquela madrugada, umas quatro e cacetada, você já tava desmaiado de tonto, dormindo no chão, em tempo de levar uns carinhos do gordo peludo que frequenta aquela birosca. Perguntei pro garçom o que é que você tinha tomado. ‘Seis caipirinhas’, ele falou, ‘e esse tanto de absinto aqui’. Contou que você que ficou um tempão falando sozinho, depois chegou perto dele, mais louco que o Batman do Joel Schumacher, e disse: ‘Estou aqui de papo com a Morte e quero um absinto. Manda bala’. Ele só não te chutou pra fora do bar porque tinha prometido à Silene que ia vigiar você, e porque você ainda estava devendo a conta.

O absinto que o Victor/Giamatti me deu foi a minha última memória antes do hospital, desconsiderando as alucinações que tive durante o coma alcoólico. Então foi o Barretto que chamou a ambulância depois de me ver naquele estado deplorável?

Não é bem isso que ele diz. E finalmente entendo o que o doutor Monteiro queria dizer: o que aconteceu… aconteceu.

No final, eu paguei a conta com aquele resto de grana que você tinha na carteira, carreguei você pra casa e te deixei babando no sofá. Você estava até semiconsciente a essa hora, mas nem se tocou que eu mudei a data do seu celular e da TV pra cinco dias depois, ou coloquei na sua carteira aqueles ingressos que ela me pediu pra imprimir. A única coisa que você falava era: ‘Nó, véi, e se a Dani me ligar e eu estiver dormindo? Eu não tenho mensagem na secretária eletrônica! Preciso gravar uma mensagem, véi!’. Aí você gravou aquela frase do Mojica lá. Essa parte foi exclusivamente ideia sua. Ou do absinto, provavelmente.

Não. O Barretto só pode estar mentindo. Provavelmente falei dormindo no hospital durante o coma, ele me visitando na hora e ouviu, e agora tá aqui zoando com a minha cara. É a única explicação.

Decido tirar a prova e acesso a caixa postal do meu celular. Ouço minha voz, claramente embriagada, imitando o Zé do Caixão: “Se passares pelo céu, manda lembranças aos anjos. Mas se teu fim for o inferno, dê meu endereço ao diabo” – e, depois de alguns segundos de silêncio: “I’m the king of the woooooorld! Woohoohooooo!!

Dou play de novo. Alice é a próxima.

Orson, querido. Eu sempre te achei um cara talentoso, criativo pra burro. Mas vamos combinar, você nunca esteve muito à vontade lá na agência, né? Por mais que fosse um ambiente descontraído e tal, acho que essa coisa de trabalhar em escritório nunca te fez muito bem. E ainda mais depois que você entrou naquela deprê pós-Dani, parecia que estava procurando desesperadamente uma forma de mudar sua vida, em todos os sentidos, mas não tinha coragem. Sei lá. É a minha percepção. Deve ser por isso que eu topei participar dessa parada louca quando acordei aquele dia com a mensagem de áudio do Barretto. Nunca achei que ia dar certo, na verdade. Mas só você mesmo, pra acordar ainda alcoolizado, acreditar que dormiu por cinco dias e achar que essa sua barbicha cresceu mais do que devia, provavelmente porque você ainda tinha a vista embaçada ao olhar no espelho. Você estava tão fora do ar quando chegou na agência que nem precisei atuar muito bem pra você cair na minha historinha. Inclusive, quase comecei a rir na hora da cueca do Aquaman, imaginando você com uma Zorbinha estampada com a cara do Jason Momoa, mas você nem tchum.

Barretto de novo:

Foi só quando a Alice me disse que você tinha acreditado é que vi que aquele plano absolutamente insano tinha chance de funcionar. Ou, no mínimo, garantir umas boas risadas numa mesa de bar. Aí continuei te seguindo no dia seguinte. Vi você entrando no Roxy atrás das pistas, conversando com aqueles caras que trabalham lá e parecem sósias de ex-bons atores, acreditando nas lorotas deles… Depois, claro, veio a parte hilária com o noivo da Silene te jogando aqueles copos de caipiroska e se divertindo adoidado. Honestamente, naquele ponto eu achei que você já teria sacado. Porra, Orson. Coração Satânico, caipiroska, cuequinha do Aquaman… Não sei se você reprimiu essas memórias nos últimos três anos ou o quê, mas põe aí na sua lista de assuntos pra discutir com o seu psiquiatra.

Coração Satânico. Caipiroska. A maldita cueca do Rei dos Mares. Cacilda: agora que o Barretto colocou tudo junto dessa forma, flashes de uma noite de outrora começam jasonbournicamente a aparecer na minha mente.

Mas enfim”, continua Barretto, “continuei cumprindo a minha parte. Arrumei um pedaço de pau, que você achou que era um taco de críquete… porra, quem é que joga críquete no Brasil, Orson? Quando chegamos no bar e você ficou esperando na porta, eu entrei e convenci o gordão peludo, frequentador assíduo daquela merda, a fingir que ia arrombar o carro. Tive que pagar um drinque pra ele, mas foi um preço justo – ele queria outra coisa, tive sorte de conseguir me esquivar. E você nem reparou que eu enfiei o braço pela outra janela e botei um pano com clorofórmio na sua fuça, enquanto você se distraía com o gordão. Apagou na hora. Aí veio a parte mais divertida, lá no teatro.

A Silene de novo:

Eu deixei escapar que estava ensaiando uma peça meio sinistra, que se passava num açougue, e ela achou um barato e pediu pra usar o cenário como parte do plano. Perguntei pro pessoal do teatro se rolava. Eles não só deixaram como também quiseram participar, encarando tudo como uma experiência teatral interativa. Sabe como é ator. Mas o mais empolgado foi o Victor, que nunca fez teatro mas estava adorando participar daquela zoeira.

Barretto:

Haha, pois é. Foi divertido passar sangue falso na cara, participar de uma cena de gore ali ao vivo… Deu até dó ver o seu desespero, até passando mal de pânico, mas porra! Você acreditou até no canastrão do Victor fingindo injetar Geleinha com seringa de plástico e fazendo um sotaque russo pior do que o Sean Connery em Caçada ao Outubro Vermelho! Sem falar em você achando que tinha superforça só porque quebrou o encosto de uma cadeira cenográfica. Nunca viu o Didi Mocó levando cadeirada na cabeça, bicho? Essas porra são quase de isopor!

Ele pausa por um instante e continua em outro tom:

Enfim, meu velho. Sinto muito que a situação saiu do nosso controle e terminou como terminou. Espero que esteja bem. Dá um toque aí quando sair da sua toca.

Ele olha para o outro lado, conversando com alguém fora de quadro: “Você prefere falar sozinha, né?

Parece que sua interlocutora concorda, pois o Barretto sai de frente da câmera e é seguido por Alice e Silene. Por um instante, a câmera enquadra o nada. Logo em seguida, uma pessoa se senta em frente à tela e olha diretamente pra mim.

Claro. Só estava faltando ela.

Ah, Dani.

Orson. Você lembra do dia que a gente se conheceu? Quando passamos a noite inteira conversando depois daquela convenção nerd em que eu fui vestida de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo e você de Hannibal Lecter? Eu lembro. Como se fosse ontem. Lembro da gente comendo um coraçãozinho de galinha que era pura pimenta e reclamando do sacrilégio que era servirem a caipi com Smirnoff porque tinha acabado a cachaça. Lembro de você rir da minha obsessão quase doentia com astrologia. De se assustar quando descobriu que eu ainda sabia não só o meu nick do ICQ, como o UIN também. E de você me assustar também, contando que sua mãe ainda guardava todas as suas roupas de criança, inclusive a sunguinha dos Supergêmeos e a cuequinha do Aquaman. Falamos de sexo, de relacionamentos, da vida… e de cinema, muito cinema. Combinamos até que, se tudo o mais desse errado, partiríamos para Los Angeles e tentaríamos a vida como figurantes de Hollywood.

Eu me apaixonei por você naquela noite, Orson. E depois você se apaixonou por mim. E tivemos um namoro incrível que um dia, infelizmente, precisou de um respiro, um interlúdio, um mid-season. Mas três anos foi tempo demais. E eu continuo solteira até hoje. Isso talvez queira dizer alguma coisa, né?

Mas você só me ligava de madrugada. Sempre bêbado que nem um porco atrapalhado, sem coragem pra encarar um papo sóbrio. Eu te odiava por isso. Mas me odiava junto, porque eu queria que a gente retomasse o diálogo de antes. Queria que os nossos contatos fossem imediatos como antigamente. E eu mesma não tinha coragem de tomar a iniciativa.

Sabe o que me incitou a finalmente fazer alguma coisa? Uma reprise do meu filme favorito que passava na tevê. É. Aquele que você detesta com todas as forças. Porque eu achava que o nosso retorno tinha que ter um quê de cinematográfico, sabe? E até você que é hater tem que reconhecer que a Amélie Poulain era ótima em ter umas ideias esdrúxulas que acabavam dando certo no final. Resolvi ser Amélie e ver no que aquilo ia dar.

Foi o Barretto que me contou que você estava se aventurando no Tinder. Criei um perfil usando a foto de uma amiga, a Silene, que lembrava vagamente a Salma Hayek. Ia escolher o nome ‘Amélia’, mas não achei lá muito sexy. Então troquei pra ‘Claudia’, propositalmente sem acento, em homenagem à Claudia Cardinale. Afinal, foi você que me ensinou a amar Era Uma Vez no Oeste.

Foi ótimo voltar a conversar com você. Mesmo que fosse apenas virtualmente. Mesmo que você achasse que eu era outra pessoa. Quando finalmente marcamos um encontro ao vivo, pensei em desistir do plano e ir eu mesma… Mas desisti de desistir: e se você não quisesse me ver nunca mais ao descobrir o que eu tinha feito? Segui o plano e mandei a Silene, depois de treiná-la pra ser uma Claudia convincente. Pedi pra ela deixar aquela carteira com documentos meus e te mandei até uma mensagem aquela noite, fingindo que ia me mudar pro Iêmen, pra ver se você pensava em mim novamente. Era pra você tomar um fora da Silene e resolver me ligar, sabe? Só isso. Mas o pior é que você realmente me ligou, no dia seguinte – e eu não atendi. Meu espírito Amélie Poulain falou mais alto. Eu queria estender o plano até o limite…

Envolvi todo mundo. A Alice, a Silene, o noivo da Silene, o Barretto… Aliás, isso me lembra que tenho que devolver o DVD dele do Kingsman. Falaram tão mal desse filme, mas eu adorei. Deve ser minha ascendência em aquário com a lua em peixes. Mas enfim, tive ajuda até daqueles sujeitos que trabalham no Roxy, o primeiro cinema onde eu e você fomos juntos, lembra? Ou não lembra? Porque, aparentemente, sou só eu que me importo com essas coisas…

Poxa, Orson. Eram tantas pistas que eu achei que você ia captar tudo muito mais cedo. Todo mundo achou. Mas você não entendeu foi nada. Não sacou que Coração Satânico era referência ao coraçãozinho de galinha apimentado, ou que Los Angeles Cidade Proibida, Zodíaco e mãe! eram alusões aos assuntos que a gente conversou no nosso primeiro encontro… Não lembrou sequer que ‘Lady Jane’ era o meu nick do ICQ, que eu criei porque adorava a música dos Stones, e porque, na pronúncia em português, ‘Jane’ rima com ‘Dani’…

E aí, lá no teatro, parecia que o feitiço tinha virado contra a feiticeira. Morri de ciúmes quando você ‘salvou’ a gente e ficou muito mais interessado em abraçar a Silene e aqueles peitos perfeitos do que em perguntar como eu estava. Me senti uma idiota. Porque era pra ter terminado ali, Orson. Com um beijo cinematográfico, uma salva de palmas, um The End feliz.

Mas eu ainda tinha um plano B. Enquanto o Barretto fazia um teatrinho e se desmilinguia todo na sua frente, eu mandei mensagem pra Alice pedindo pra ela ir correndo à casa dele e dar uma de vilã. Acho que ela se empolgou e levou ao pé da letra, porque apareceu vestida de Mulher-Gato. Ela me ameaçando e todo mundo olhando pra você, pensando: agora vai, agora vai! Mas você não foi. Em vez de continuar no modo super-herói e salvar a mocinha, você ficou paralisado, com os olhos esbugalhados, e de repente desabou no chão naquele piripaque horrível, como se tivesse assistido ao episódio proibido de Pokémon. Os médicos explicaram depois que foi uma convulsão provocada por todas as emoções daquele dia, acelerada pelo seu consumo excessivo de álcool e cujo estopim foi você me ver em perigo de morte. Confesso que depois achei até um pouquinho romântico. Mas na ambulância, a caminho do hospital, eu só chorava. Chorava pelo final feliz que não tivemos. Pelo sofrimento que essas minhas… “boas intenções”… te causaram. E esse sentimento de culpa até hoje não me abandonou. Que bela Amélie Poulain eu me saí, hein?

Acho que você nunca vai me perdoar depois de ouvir isso tudo, mas precisava colocar pra fora. Fica bem, Orson.

Ela coloca a mão sobre a câmera e o vídeo termina.

Fico com o olhar perdido por quase um minuto, mirando o vazio. São um milhões de informações para processar. Um bilhão de sinapses por segundo, tentando juntar todas as peças. E de repente, à la Divertida Mente, sou invadido por um misto de emoções. Tristeza. Medo. Nojo. Raiva, muita raiva.

Mas no meio disso tudo, eu abro um leve sorriso. Pois é como dizem por aí. Você também pode sentir alegria e felicidade no ódio.

Tateio a bagunça de caixas de comida na minha cama e encontro o celular. Desço a tela de contatos até a letra D. Com a ansiedade nas alturas, meu dedo toca o nome dela.

Desta vez, ela atende.

***

DEZ ANOS DEPOIS

Faz calor em Tiradentes, mas minhas mãos estão geladas.

Não é a primeira vez que compareço à famosa mostra de cinema da cidade. Em outros tempos, eu enchia a cara de cachaça por suas ruas de pedra e assistia a uns filmes bizarríssimos que nunca encontrariam espaço no circuito comercial. Mas era sempre espectador. Agora, quem diria, venho como convidado.

Estou na primeira fila, em frente ao telão armado na praça. Ao meu lado esquerdo, Silene compartilha do mesmo frio na barriga que o meu. À direita, minha esposa segura a minha mão suada e sussurra em meu ouvido:

“Relaxa, amor. Vai dar tudo certo. Eles vão adorar.”

Estamos em janeiro de 2027. Pra mim, é o fim de um ano intenso. Enquanto, no mundo, tanta coisa acontecia – a China vencendo a Copa do Marrocos, o presidente Dr. Rey se reelegendo, Namor vs Aquaman levando Cannes e o Michael Bay ganhando o Oscar de Direção –, eu fiquei completamente enfurnado no estúdio, ocupado em terminar o meu mais recente projeto. Agora posso apresentar ao mundo, começando por Tiradentes, o meu terceiro filme.

A moça sobe ao palco, agradece a presença do público e diz que a sessão conta com dois convidados especiais: a atriz principal – e a Silene se levanta e vai pra frente, toda desinibida e adorando os holofotes – e “o aclamado diretor e roteirista, Orson Wellington!”. Quando vejo já estou segurando o microfone e encarando a multidão. Consigo ver o Barretto lá no meio da galera, se divertindo em ver o melhor amigo nervoso pra caralho na frente de centenas de pessoas. Quarenta e três anos nas costas e até hoje fico ansioso ao ser o centro das atenções.

Mas até que me dou bem quando respondo às perguntas da apresentadora. Conto que o filme é 100% autobiográfico e verdadeiro – “embora os diretores de Fargo e Bruxa de Blair também tenham alegado o mesmo”. Falo da sorte de poder contar com um elenco incrível, incluindo Sasha Meneghel, Dado Dolabella, Gabriel Totoro e, claro, Silene Silva, interpretando a si mesma. Revelo que levei dez anos e três longas-metragens para finalmente levar essa história aos cinemas, e que só o fiz por insistência da minha melhor amiga, parceira habitual de tênis, mãe dos meus filhos Vanessa e Danilo e, por acaso, esposa. Olho pra ela, sentada na frente, e vejo em seu rosto um sorrisão cheio de orgulho.

Whatever happened, happened. Dez anos atrás, passei pela experiência mais insana e traumática da minha vida, causada por uma ex-namorada que tinha uma paixão doentia por Amélie Poulain. Perdoar não foi fácil. Esquecer, impossível: tanto é que transformei a história em filme pra todo mundo ver. E devo confessar que Amélie, que já vi e revi tantas vezes nesta última década que aprendi até a gostar, foi uma influência direta.

O público aplaude, a moça me agradece e eu volto a me sentar na primeira fileira. As luzes da praça se apagam e o título do meu filme aparece na telona, em letras garrafais:

LADY JANE

Ou: A Maldição das Cinco Caipirinhas

Gabriel Totoro surge em close-up na tela, sem camisa, gritando para os espectadores:

– Eu sou uma ursinha macia!

O público solta uma gargalhada genuína e a Dani cochicha no meu ouvido: “Não falei, amor?”

Porra, Orson. Precisa mais do quê?

Organização e edição: Lucas Paio
Arte: Renato Trindade

Lucas Paio

Lucas Paio é mineiro de Belo Horizonte, passou quatro anos na China e desde 2013 vive em Berlim, onde passa o tempo livre no cinema (os poucos que exibem filmes sem dublagem em alemão) e conhecendo a cerveja, digo, a cultura local.