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A Maldição das Cinco Caipirinhas – Capítulo 5 – Drinks Voadores do Inferno

A Maldição das Cinco Caipirinhas é a primeira obra de ficção colaborativa do Cinema de Buteco. São 10 capítulos de 10 autores diferentes, publicados toda quinta-feira, que contam a história de Orson, um cinéfilo bêbado que conhece uma garota no Tinder e se envolve numa trama tresloucada e improvável. Leia os capítulos anteriores aqui.

Além de continuar a história, cada autor deverá encaixar uma citação cinematográfica no meio do texto. Neste capítulo 5, Guilherme Huyer foi encarregado de inserir:

“Você é um… cocô!”
(Stallone Cobra)

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Capítulo 5 – Drinks Voadores do Inferno

por Guilherme Huyer

– EU SEI! – RESPONDO NA HORA E, ao confrontar o olhar reprovador do amigo, complemento: – Essa é a única que eu sei ultimamente, dá um desconto, cara. Tô mais perdido que cego em tiroteio. Que porra tá acontecendo?

– Você tá muito devagar, hein. Você já foi melhor, cara. Tô meio decepcionado, pra falar a verdade.

Do que caralhos Barretto está falando eu só vou entender bem depois. Naquele momento, continuo com cara de retardado, parecendo o Jeff Daniels em Debi e Lóide. Ou o carinha de Punho de Ferro. Já vou perguntar de novo o que estava acontecendo, quando Barretto me empurra a tempo de me fazer desviar da terceira caipirinha voadora que me tinha como alvo.

– Valeu, cara.

Olho para o telhado do cinema, e lá está o Paul Giamatti versão BR com um estilingue gigante em uma mão e uma quarta caipirinha na outra, o olhar mudando de frustração pelo erro para antecipação pela próxima tentativa.

– Olha só, que desperdício – eu comento, contemplando os restos mortais do destilado esparramado no chão.

– Que desperdício porra nenhuma – retruca Barretto, ajoelhado, passando o dedo indicador no líquido e o levando ao nariz.

– Heresia, Barretto. Não se faz isso com caipirinha. Não se faz. Jogar fora assim…

– Caipirinha minha bunda. Essa bosta não é caipirinha.

– Como assim, velho, claro que é…

– Esse troço tem vodka. Vodka barata lixo ainda por cima.

– Ah, então é uma caipi… – arregalando os olhos, me vejo incapacitado de completar a palavra.

–…roska – Barretto finaliza. – Sim, isso mesmo. Agora você percebe a gravidade da situação?

Subitamente, fico tonto e enjoado e tenho que me apoiar em um dos carros estacionados ali. Taquicardia batendo afu. Ânsia de vômito pegando pesado. Respiro fundo e murmuro baixinho o sábio mantra de relaxamento ensinado por Jack Nicholson em Tratamento de Choque.

Goosfraba… goosfraba… goosfraba”. E graças aos céus não preciso chegar a ponto de cantar I feel pretty.

– Esse cara tá querendo me acertar com uma… uma… caipiroska! – cuspo a última palavra como se fosse um caroço apodrecido entalado na garganta.

– Sim…

Tomado pela raiva, eu me viro compenetrado em direção ao garçom cretino e berro com todas as minhas forças:

– Você é um… cocô!

– Ok, ele é, sim. Agora vamo embora daqui antes que o Caipiroskista no Telhado lá consiga finalmente te acertar e tu solte completamente a franga – Barretto intercede. Concordo sem titubear e damos no pé.

***

Quanto tempo corremos, eu não saberia dizer. Grande novidade. Bosta. Como se eu soubesse dizer qualquer coisa recentemente. Mas isso estava para mudar. A presença de Barretto me dava novas esperanças de resolver esse mistério. Afinal, ele dissera que eu já deveria ter entendido o que estava acontecendo. Eu deveria ser plenamente capaz, de acordo com a reação do meu amigo. Enquanto corremos, tento reavaliar a situação. Enumerar todas as informações e quem sabe encontrar alguma coerência naquilo tudo.

Encontrei pessoalmente uma mina chamada Claudia que eu conhecera no Tinder.

Ela foi embora sem dar maiores explicações e esqueceu a carteira.

No dia seguinte, acordei apenas para descobrir que cinco dias haviam se passado. Perdi meu emprego após fazer uma cena ridícula. Mudei a mensagem da minha caixa postal… e acho que esse foi o detalhe que mais me chocou. Não pela mensagem creepy, mas porque, porra, quem é que usa aquela merda hoje em dia? Quem é que deixa mensagem de voz, pelamor. Por que eu me preocuparia em mudar a mensagem… Mas divago. A carteira da Claudia na real estava cheia de documentos da Dani.

Fui cinco vezes ao cinema. Um dos filmes que vi foi Coração Satânico. Mickey Rourke ainda gato. Antes de virar uma espécie de filhote de Stallone com Schwarzenegger. Divago de novo.

Encontrei com Dani em uma das sessões, nos pegamos no banheiro. Mas ela era um cara?

Ameacei os funcionários do cinema com uma arma para conseguir essa informação. Um deles fugiu e chamou a polícia. Agora eu é que preciso fugir. Paul Giamatti no teclado jogando caipi… roskas pra todo lado. Arremessando a versão rmvb pirateada com som fora de sync da saudosa caipirinha. Que absurdo. Imagina se um troço desses me acerta.

Barretto apareceu do absoluto nada e me salvou da morte certa. Barretto é quase meu particular Ikki de Cavaleiros do Zodíaco nesse momento, meu próprio deus ex machina. E ao contrário do guerreiro de Fênix com irmão perebento, parece que ele tem respostas.

Respostas que eu pretendo descobrir assim que pararmos de correr. Não sei por que continuamos correndo, já que nos livramos de qualquer perseguidor faz tempo. Daqui a pouco isso aqui vira Maratona da Morte. Não, essa foi uma referência ruim. Apesar do título, não tem muita correria no filme. Já Carruagens de Fogo… Em todo caso, a adrenalina parece que faz meus neurônios entrarem no ritmo certo de produção de sinapses e percebo um detalhe que havia me escapado. Paro de correr.

Barretto segue alguns metros, mas então percebe que fiquei para trás e também para. Ele pergunta o que foi, mas ignoro completamente suas palavras. Estou perplexo.

Pego os ingressos de cinema desses últimos cinco dias e os analiso atentamente: Coração Satânico, Los Angeles: Cidade Proibida, Zodíaco, mãe!, e… até aqui tudo se encaixa. Quatro thrillers de anos diferentes. Uma mostra de cinema temática? É possível. Quatro filmes que tratam de algum mistério, com uma investigação formal ou informal em curso, e revelações nem sempre agradáveis ao final. Estranho o ingresso de mãe!, pois o filme ainda não estreou. Vai que teve alguma sessão inesperada de pré-lançamento por aqui. Alguma ação de marketing surpresa vinculada à tal mostra de thrillers? Por mais improvável, ainda poderia ser possível. Isso não importa. É o quinto ingresso que me assusta de verdade.

Lady Jane.

Que filme é esse, eu não sei. Nem teria como saber. Mas o título do filme desconhecido me espanta menos do que a data impressa no ingresso. Antes, em casa, eu havia apenas olhado os dias das sessões. Mas agora, olhando os anos…

Coração Satânico é de 1987. Los Angeles, de 1997. Zodíaco é de 2007, e mãe! é lançamento deste ano, 2017. Cada filme tem um intervalo de 10 anos entre si.

E Lady Jane é um filme de… 2027.

***

Esta história continua na próxima quinta-feira, aqui mesmo no Cinema de Buteco. O capítulo 6 ficará a cargo de Joubert Maia, que deverá encaixar a frase: 

“Às quartas-feiras, nós usamos rosa.”
(Meninas Malvadas)

LEIA O CAPÍTULO 6

Organização e edição: Lucas Paio
Arte: Renato Trindade

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