Cinema por quem entende mais de mesa de bar

A Maldição das Cinco Caipirinhas – Capítulo 7 – O Grande Açougue Russo

A Maldição das Cinco Caipirinhas é a primeira obra de ficção colaborativa do Cinema de Buteco. São 10 capítulos de 10 autores diferentes, publicados toda quinta-feira, que contam a história de Orson, um cinéfilo bêbado que conhece uma garota no Tinder e se envolve numa trama tresloucada e improvável. Leia os capítulos anteriores aqui.

Além de continuar a história, cada autor deverá encaixar uma citação cinematográfica no meio do texto. Neste capítulo 7, Juliana Uemoto precisou colocar:

“Uau. Eu nunca mais vou tomar banho na vida, e terei você como desculpa.”
(Convenção das Bruxas)

- Advertisement -

Capítulo 7 – O Grande Açougue Russo

por Juliana Uemoto

Semiacordado, fui voltando à consciência e vi que o Barretto continuava desabado à minha frente. Enquanto recobrava minhas forças, tentava recordar como tínhamos ido parar nessa enroscada. Vários flashes começaram a inundar minha mente: uns sujeitos truculentos nos imobilizando naquele lugar escuro e úmido, totalmente hostil, que lembrava um galpão de fábrica abandonado… Pra completar, esses camaradas se chamavam por nomes que soavam como russo, ou seria croata? Porra! Sei lá… só sabia que não era nada acolhedor… Ao contrário, me dava calafrios – como esquecer do mafioso russo vivido por Viggo Mortensen, cheio de tatuagens, na trama do sinistro e sanguinário Senhores do Crime? “Que merda, cacete! Tenho de sair daqui!”, pensei alto, me lembrando por último do líquido verde sendo injetado primeiro no Barretto, depois na minha veia por um dos “russos” – o sósia do Paul Giamatti – e da sensação de desfalecimento que acompanhou esse ato no mínimo aterrorizante.

Olhando em volta, vi que estávamos aprisionados em uma espécie de bunker, com dois colchões imundos jogados no chão e uma cadeira, mas desamarrados. E agora… essa porra verde era mortal? Eu e o Barretto íamos morrer? Essa cena bizarra da seringa com um líquido radioativo me fez recordar de quando eu era moleque e adorava ver filmes de terror B com os amigos da escola. Numa dessas sessões a molecada assistia a Re-animator, um filme idiota que ficou famoso pela cena de sexo oral feita por uma cabeça “ressuscitada” (com uma substância criada em laboratório) numa moça amarrada em uma maca. Não só lembrei da bizarrice como também fiquei excitado ao relembrar a tal cena. Cheguei a divagar por um momento até que voltei à realidade do horror real que estava vivendo. “Como você é idiota, Orson!”, disse pra mim mesmo. “Pensando em sexo numa hora dessas!”

De repente me lembrei da Dani e da Claudia penduradas por ganchos como num grande açougue humano. Como poderia ter me esquecido desse cenário bizarro e do sofrimento das moçoilas? Será que só estavam desmaiadas, ou teriam tido o mesmo destino das carcaças de bois? Comecei a entrar em pânico e sacudi o Barretto na esperança de acordá-lo para sairmos de lá rapidamente, mas… nada!

– Acorda, Barretto! Porra, acorda, véio! Precisamos sair daqui e salvar as meninas, tirá-las daqueles ganchos! Vai, cara!!

Nenhum sinal de vida. Comecei a pensar que meu amigo estava morto. Aproximei o rosto pra sentir sua respiração e… ufa, que alívio! O cara estava respirando. Se bobear, o filho da mãe aproveitava para descansar profundamente depois da loucura dos últimos dias.

Tentei pensar em alguma solução pra sair daquele maldito lugar, mas comecei de repente a sentir um formigamento animal pelo corpo. O sangue parecia jorrar em minhas veias e o coração começou a acelerar demasiadamente. Com certeza era efeito dessa substância misteriosa. Meu corpo parecia uma máquina prestes a entrar em colapso, tudo parecia rápido e turbulento. Será que eu estava tendo um infarto? Era o fim dos meus dias no planeta Terra? Sentei-me por não aguentar as ondas vibratórias que me chacoalhava num ritmo desenfreado. Por fim… desmaiei sentado na cadeira.

Ao acordar, o mundo parecia que tinha cores mais vibrantes e os objetos saltavam aos meus olhos como se tudo estivesse em quinta dimensão. Levantei, apoiando-me na cadeira, e então percebi que ganhara uma força descomunal, pois a madeira do encosto simplesmente se partira em minha mão. What the hell?! Meu corpo ficara tão forte quanto o da gostosa da Scarlett Johansson em Lucy! Comecei a achar o máximo e vi que o feitiço tinha virado contra os feiticeiros.

– Esses merdas vão ver! Agora sou forte pra caralho e vou acabar com eles com um soco! Vou salvar as meninas que nem os Vingadores e elas vão disputar para ver quem vai ficar comigo!

Eu era o próprio Schwarzenegger em Exterminador do Futuro ou o Rambo matando os inimigos em uma missão solitária. Só que em vez de armas eu iria usar as mãos – ou seja, muito mais foda! Nem Chuck Norris me impediria com aquele poder sobre-humano.

Aliás, fazia muito tempo que eu não me sentia poderoso. Essa sensação reativada me fez recordar de quando treinava boxe em uma pequena academia do bairro. Aquilo me fazia bem. Treinava todos os dias durante horas pois achava que teria uma carreira de sucesso e seria como Rocky, vivido tão bravamente por Sylvester Stallone – tinha pôsteres e incontáveis revistas do meu ídolo –, que com esforço e muita determinação daria um nocaute na vidinha simplória que vivia. Ainda era difícil deglutir o gosto amargo de abandonar a carreira após uma luta que quase me deixara cego aos 18 anos, mas finalmente chegara o momento de ser o Orson, o lutador! (Sobe trilha “Gonna Fly Now” neste momento!)

De repente, meus pensamentos gloriosos foram interrompidos por grunhidos do Barretto despertando do pesadelo, ainda aturdido e com expressão assustada pelo cenário.

– Orson, onde estamos, véio? O que tá acontecendo? Por que me sinto desorientado? Caralho, que mal-estar!

Caminhei até o Barretto e dei-lhe um abraço forte, aliviado por ver que meu amigo estava bem, e olhei pra ele como um sinal de que ia dar tudo certo.

– Relaxa, cara! Vou tirar a gente daqui! Depois explico tudo, mas agora precisamos sair rápido, antes que aqueles trogloditas russos voltem pra cá.

– Tá bem, cara! Confio em você! Qual seu plano?

– Você já vai ver… só fique atrás de mim que eu cuido do resto, ok?

– Então… tô atrás de você! Vamos lá!

Assim partimos para a ação. A porta foi abaixo com apenas alguns socos e pontapés que dei sob o olhar atônito do Barretto, que simplesmente seguia o mestre aqui. No meio da fuga, os inimigos eram abatidos um a um pelo Incrível Orson – um troglodita aqui, dois trogloditas ali, só faltou o Giamatti que não estava em lugar algum – e fomos avançando até encontrarmos Dani e Claudia penduradas juntamente com outras pessoas. Vi que seus olhos começavam lentamente a se abrir com a nossa aproximação: estavam vivas!

Procuramos o mecanismo para destravar o sistema dos ganchos.

– Achei, Orson! Tá aqui a trava do sistema! Fica aí perto das meninas que eu destravo essa porra!

Com as duas mãos, Barretto desceu a alavanca e um forte barulho ecoou pelo galpão.

– Pronto, Orson! Tira as meninas que eu já tô indo te ajudar com os outros.

Soltei primeiro a Claudia e ela me deu um abraço tão intenso que me segurei pra não falar pra ela: “Uau! Eu nunca mais vou tomar banho na vida, e terei você como desculpa”.

Uma a uma, fomos retirando as pessoas dos ganchos com o máximo de cautela e levando todas para um canto da sala. As meninas pareciam estar bem, com exceção de uns machucados externos e do medo instalado em seus rostinhos lindos. Depois que retiramos todos, soltei:

– Fiquem tranquilos. Somos pessoas do bem e a gente vai ajudar vocês a sair daqui, está bem? 

As pessoas consentiram com a cabeça, ainda um pouco assustadas, mas com uma expressão de alívio em seus rostos.  

– Pessoal, pode seguir a gente que em um minuto estaremos livres!

Fomos caminhando pelo grande salão acompanhados da Dani, da Claudia e de todos os outros, até chegarmos a uma porta gigante de ferro. Eu e Barretto nos entreolhamos. Comecei a golpear a fechadura da porta até conseguir abri-la. Todos ficaram boquiabertos, mas não ousaram questionar. Um a um, atravessavam a porta e se deparavam com ele: o Sol, com todo seu resplendor!

Quando eu já estava celebrando o fim daquele pesadelo, ouvi a voz do Barretto atrás de mim:

– Orson…

Ao me virar e olhar para o seu rosto percebi que aquele líquido verde, que por algum motivo me dera aquela força descomunal, começava a dar um efeito bem diferente em meu amigo…

Saí correndo para ampará-lo antes que seu corpo desabasse no chão. Não entendia o que estava acontecendo com ele. Estava tão debilitado que mal tinha forças para falar, e quase balbuciando soltou:

– Tô tão fraco. Aquele líquido tá fazendo efeito. Tô com medo. Acho que vou mor–

– Cala a boca, véio! Você vai ficar bem! Aguenta firme aí que eu vou procurar aquele filho da mãe do Giamatti. Ele deve ter um antídoto.

Dei um grito para as meninas ficarem com o Barretto enquanto eu ia atrás do garçom maldito. Minha cabeça estava a mil tentando entender o paradoxo: como eu fiquei forte como o Rocky e o Barretto estava desfalecendo se tomamos a mesma substância? Que bagulho louco era esse, mano?, eu me indagava.

Enquanto isso meus olhos procuravam loucamente pelo causador de tudo isso e de repente vi uma silhueta a uns 200 metros de mim. Olhei mais fixamente com minha recém-descoberta visão de raio-X e rá…  era ele: o filho da mãe do Giamatti! Segui em frente enlouquecido para socá-lo para fornecer logo o líquido salvador para o Barretto. Rapidamente ele se rendeu à minha força descomunal e implorando por sua vida tirou o frasco do bolso que continha o antídoto.

Corri em disparada para administrar o antídoto o quanto antes ao Barretto. Ele estava bem mal, ainda mais fraco e com um olhar vazio para o nada. Apoiei sua cabeça em meus braços e devagarinho ele foi ingerindo o líquido.

– Barretto, vai, véio! Reage, cara!

A expectativa era grande. A atenção de todos se voltava a ele, esperando que reagisse ao efeito do antídoto, e nada! Seu olhar parado não apresentava reação alguma e minha mente só dizia “Não, não pode ser! Não, cara! Não faz isso…”

***

Esta história continua na próxima quinta-feira, aqui mesmo no Cinema de Buteco. O capítulo 8 ficará a cargo de Graciela Paciência, que deverá encaixar a frase: 

“Nem fodendo que eu vou beber a porra de um Merlot.”
(Paul Giamatti em Sideways – Entre Umas e Outras)

Organização e edição: Lucas Paio
Arte: Renato Trindade

Comentários