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A Maldição das Cinco Caipirinhas – Capítulo 9 – O Caminho Natural

A Maldição das Cinco Caipirinhas é a primeira obra de ficção colaborativa do Cinema de Buteco. São 10 capítulos de 10 autores diferentes, publicados toda quinta-feira, que contam a história de Orson, um cinéfilo bêbado que conhece uma garota no Tinder e se envolve numa trama tresloucada e improvável. Leia os capítulos anteriores aqui.

Além de continuar a história, cada autor deverá encaixar uma citação cinematográfica no meio do texto. Neste capítulo 9, Andrey Lehnemann precisou colocar:

“Tem um lugar que vende shawarma a uns dois quarteirões daqui.
Eu não sei o que é isso, mas tô a fim de experimentar.”
(Tony Stark em Os Vingadores)

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Capítulo 9 – O Caminho Natural

por Andrey Lehnemann

Eu não consigo respirar.

Sinto como se estivesse afogando.

Mas estou sentado.

Porra.

Estou sentado e não consigo respirar.

Minhas mãos começam a tremer enquanto tento escrever algo numa folha de papel.

Em branco.

Como tudo o que faço.

Como minha vida está destinada a ser.

Vazia.

Sem nada para ser escrito.

Apenas um lamentador imbecil num mar de outros tantos imbecis.

Procurando se agarrar no primeiro galho seco que encontrar.

E que nunca aparece.

Minha voz desapareceu. Mas, tudo bem, eu não preciso dela. Posso ser como qualquer outro neste mundo sem usar a voz. Talvez eu me torne especial por isso. Quem sabe. Esse não é um grande pensamento. Mas sou um fracassado. E fracasso até em me sentir como um fracassado completo. Ainda acredito que há algo ali. Neste monte imprestável de merda.

Tudo na minha vida é uma grande mentira. Estou parado, enquanto os outros seguem em frente. Vivo num mundo de fantasias e os outros estão lá buscando coisas novas, novas aventuras. Estou enclausurado neste meu mundo. E não vejo saída. Não há uma porta. Nada. Apenas esse mar de abjetos que chamo de realidade.

E ela me trouxe até aqui. Ela me colocou no caminho de Claudia naquele dia. Ela colocou o calibre dessa miséria na minha têmpora.

A vida é um processo lento e doloroso. É um misto de cinco caipirinhas condensadas com uma doce esperança. Mas não há nenhuma. O gosto apenas serve para disfarçar a acidez que lhe trouxe até ali. Até aquele momento. O resto é apenas epílogo.

Cinco caipirinhas têm um único gosto: o da morte. É ela que apazigua tudo. É com ela que encurtamos o caminho. Brincamos com nossa natureza. Esquecemos de tudo. Entre um gole e outro, a morte cada vez se aproxima mais. Torna-se mais atraente. E indolor.

A mente nos prega peças. E perdemos o poder de escolha. O poder de continuar sentado entre um gole e outro. O poder de estar naquele velho bar que parece ter saído de Star Wars. Ou na sua casa, quando escrevia algum pensamento infantil numa folha em branco. O tempo e o espaço são relativos. Quem está contando, afinal? A única coisa que importa é o final. E como as coisas podem se resolver. Mas como elas poderiam, não é mesmo? Nem todas as histórias dispõem de um final. Os inícios são similares na sua maioria. Os finais, não.

Eu havia recebido uma mensagem de Dani, no dia que saí com Claudia. Ela estava indo para outro país. A única garota que eu tinha pensado em passar o resto da minha vida.

Ela estava indo embora.

E eu?

Na mesma porra de lugar.

No mesmo caralho de cidade.

Quem sabe, pelo resto da vida.

Eu não me apaixonei por ela de imediato. Era um dia de chuva, quando aconteceu. Nos conhecemos num encontro geek. Tínhamos amigos em comum e todos foram para o bar, após o evento. Ela olhava para mim como se buscasse entender quem era aquela pessoa meio amarga, meio desiludida, meio temperamental. Meio qualquer coisa. Eu era meio qualquer coisa, antes de Dani. Ela realmente parecia interessada no que eu pensava. Fazia perguntas. De por que os homens eram cada vez mais inacessíveis. Por que o sexo passou a assombrar relacionamentos. E por que nunca havíamos nos cruzado antes. E eu tentava responder para ela honestamente. Sobre tudo. Mas é difícil conduzir uma conversa honesta no primeiro encontro de duas pessoas. Todos querem se sobressair ou despertar qualquer interesse que seja. Passar por profundo. E assim consegui conquistar Dani naquele dia. Por tentar demais. Mais do que um dia conseguiria proporcionar.

Mas não dei bola no primeiro momento. Ela já tinha ficado com alguns amigos e, por algum machismo meu, eu não achava que gostaria de ficar com alguma guria que poderia ser apenas mais uma pra mim. Não queria que eu fosse apenas mais um para alguém. Isso eu já era para mim mesmo. E minha insegurança me assombrava. Por algumas semanas, ela me procurou. E eu me esquivei. Mas naquele dia chuvoso, eu me apaixonei. As paixões são assim. Meio triviais. Qualquer detalhe pode lhe render um poderoso soco na cara. Ao deixar ela em casa, ela correu tentando se esquivar da chuva com um casaco sobre a cabeça. Ela olhou para trás com um último aceno, enquanto eu ficava a admirando na chuva. Com as águas caindo sobre meus cabelos e deixando minha roupa ensopada. Mas não ligava. Estava bobo. Um sorriso insistente estampava meu rosto. E eu sabia: eu queria passar o resto da vida com aquela mulher.

E ela iria embora. Para nunca mais voltar, quem sabe. E eu não tinha resolvido minha situação com ela. Eu não tinha dito o que realmente sentia. Por medo. Por ser rejeitado. Eu achava que as coisas algum dia simplesmente iriam voltar ao seu estado natural. Mas o mundo não funciona assim.

Eu voltei aquele dia para mais uma dose de caipirinha. Para esquecer a merda da minha vida, do meu trabalho, para esquecer Dani. O garçom parecia me esperar.

– Decidiu tomar a maldita?

– Traga a mais forte da casa. E continue trazendo.

– É um prazer.

Uma negra alta e corpulenta sentou ao meu lado. Apresentou-se.

– Oi, meu nome é Etrom. E o seu?

– Orson.

– Você parece estar nas últimas, Orson.

– Estou.

– O que você faz?

– Trabalho numa agência.

– É um trabalho bom?

– Depende da sua definição de bom.

– Dá dinheiro?

– O bastante.

– Já é algo.

– É.

– Eu já não te vi antes?

– Pouco provável.

– Tu não é estranho.

– Sou, sim.

– É que acho que já te vi em algum lugar.

– Espero que não.

– Por quê?

– A lembrança não seria boa.

– Posso te perguntar uma coisa?

– Vá em frente, Dona.

– Quando foi que tu desistiu?

– Do que?

– Disso tudo.

– Como sabe, dona? Sou tão clichê assim?

– Um homem como você, num bar como este, nesta hora da madrugada?

– Sou um clichê.

– Você é.

– Eu gosto de clichês.

– Por quê?

– É mais fácil. Compreender para onde tudo aquilo te levará… É uma fórmula conhecida. Se tudo fosse imprevisível, as pessoas ficariam loucas.

– Tens razão, Dona.

– E como tu virou um clichê?

– Não sei.

– Ninguém sabe.

– É. Eu frequentava muito cinema do Roxy, a dona conheceu?

– Frequentei muito.

– Então. A gente podia fumar lá dentro. Havia muita gente mal encarada nas sessões vespertinas, pois a maioria estava no trabalho. Já vi porrada no Roxy, polícia… Era meio que um mundo paralelo, sabe?

– Sim.

– Acho que foi naquela época. Tu gosta de cinema?

– Assisto a poucos filmes.

– Eu passo meu dia todo em função deles.

– É? O que tens assistido?

– Todo me pergunta isso, sabia? “O que tem de bom, Orson? Qual a novidade nas telas?”… sempre a mesma coisa.

– É uma forma das pessoas se comunicarem com você, talvez. Não?

– Pode ser. O que tu tem visto de bom?

– Hehe. Eu gosto muito de um filme de terror moderno. Um que um fotógrafo descobre um frigorífico humano, quando está tentando retratar aspectos sombrios da humanidade. Ele se depara com o pior deles: um psicopata. Esqueci o nome. É um com aquele cara bem atraente.

O Último Trem, com Bradley Cooper?

– Isso. Mas o bonitão é o Vinnie Jones.

– Ahn.

– É, ele tem uma frieza bem atraente. Parece digna dos russos.

– Mas ele não é russo, né.

– Não?

– Ele é britânico.

– Não tinha ideia disso. Todo homem parece igual pra mim.

– De certa forma, isso faz sentido.

– E o que tu vai fazer hoje a noite?

– Acabar com o estoque de caipirinha do Giamatti ali.

– Já tentaste absinto?

– Não.

– É bom. E faz esquecer dos problemas mais rápido.

– Aquele da fada verde? Eurotrip?

– Não sei. Não vi.

– Ahn.

– Vai te ajudar. Experimenta. Não vai te matar.

Ela sorriu.

“Quem sabe, se eu tiver sorte”, pensei.

Na minha frente, o Giamatti me trouxe uma garrafa mais ou menos gorda com o adesivo de um velho barbudo. O líquido era verde. O primeiro gole subiu muito rápido. Minha cabeça deu uma cambalhota. Era como se tivessem injetando algo em mim. Mas algo que era suficientemente doce para não parecer letal. Etrom tinha razão. Aquilo te deixava bem. Muito bem. E eu me sentia jovem de novo. Como se qualquer coisa fosse possível. Que, de alguma forma, minha história era especial.

Não lembro do gosto da segunda dose. Nem da terceira. Muito menos da quarta. Só lembro de tudo embaralhado. Algumas pessoas de jaleco branco. Uma risada assustadora e debochada. Etrom apontando para mim. Dizendo que eu iria ficar bem, melhor. Que tudo daria certo.

Ao abrir os olhos, agora, eu só vejo Barreto, Alice e Dani. Há um sorriso natural no rosto deles. Um sorriso que não sei dar há muito tempo. É como se eles não me vissem há dias. Ao meu lado, uma moça robusta e com um sotaque em espanhol me conforta. Ela diz que passei por uma lavagem. Que tudo vai ficar bem. Na televisão, um clipe de “Lady Jane”, dos Rolling Stones. O relógio marca 0h.

A primeira sensação ao acordar em um hospital que você não conhece é tentar falar alguma coisa. Mas a voz não sai. E há um tubo na sua garganta.

– Orson, querido. Que foi que você fez?

– Deixa ele descansar, Dani.

Barreto colocou a mão no seu ombro.

– E aí, amigão. Que susto.

– Esse ar condicionado de hospital… isso aqui está parecendo um frigorífico.

É Alice que fala agora. Viro o rosto para o outro lado. Não quero que me vejam assim, impotente. Na janela, eu reconheço a gata de Alice, Felícia. Ela brinca sorrateiramente com uma massinha.

– Não se preocupe, que não é seu fígado, Orson.

Uma lágrima cai do meu olho. Tento tirar o tubo da minha garganta. Quero falar algo. A moça chama dois seguranças bem grandes. Croatas, talvez. Eles me seguram. Sinto algo sendo espetado na minha pele.

***

A sensação de acordar novamente, após uma espécie de transe, faz com que tudo pareça uma novidade. Você não se lembra de detalhes no teto, linhas que se entrecruzam, tampouco que o design sóbrio de um quarto de hospital é calculado para parecer sem vida. Um limbo. Hoje é o dia em que vão tirar o tubo de respirar, o médico diz. Ele parece bondoso. Estou no Hospital Nossa Senhora de Ramos. Pergunta se eu gosto da Liga da Justiça. Não entendo a pergunta.

Barretto ri.

Dani e Alice não estão mais lá. Foram buscar um café. E estou sozinho com Barreto. Minha vida, talvez, seja esta agora.

Estou com um daqueles robes de hospital. Só de cueca.

O médico retorna.

– É agora. Você está pronto pra voltar?

O que ele quer que eu diga? Eu estou com a merda de um tubo na garganta.

E, não, doutor. Não estou pronto.

No entanto, eu abro e fecho os meus olhos para consentir.

– Quando contar até três, eu quero que você expire com toda a força.

Um.

Dois.

Três.

Por uns segundos, a única coisa que se ouve sou eu tossindo no quarto pouco espaçoso.

– Você está bem, filho? O que você está pensando?

– Que tem um lugar que vende shawarma a uns dois quarteirões daqui. Eu não sei o que é isso, mas tô a fim de experimentar.

– Ele está bem.

***

A saga de Orson chega ao fim na na próxima quinta-feira! O capítulo final ficará a cargo de Lucas Paio, que deverá encaixar a frase: 

Você também pode sentir alegria e felicidade no ódio.
(Asa Vajda em A Maldição do Demônio)

Organização e edição: Lucas Paio
Arte: Renato Trindade

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