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Quarentena de Contos: Colorir no Chão o Vermelho – Ato 1

PARTE III

 

Marina é a minha namorada. Quer dizer. Eu não sei exatamente se nossa relação tem rótulos. Sei o quanto parece babaca alguém na minha idade usar essa desculpa de quem não quer assumir uma relação, mas acredite que é um grande avanço. Ela é uma dançarina exótica que insiste nunca ter feito programa na vida, o que eu duvido. Nem as profissionais que conheci ao longo da vida sabem combinar pau, porra, saliva, lábios e língua daquele jeito. Pessoas normais não sabem nem que deveriam usar saliva na hora de fazer um boquete, porra. 

Marina me visitou há alguns dias e agora insistiu em voltar para saber se eu estava vivo. E acho que isso depende do ponto de vista. É seguro afirmar que estou respirando. No entanto, viver sem ficar de pau duro e de quarentena nesse apartamento fedido não é bem viver. 

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No nosso último encontro, pouco depois de ter sido convencida a usar sua magia labial (geralmente ela fica puta porque me faz gozar tão forte que depois eu quero apenas dormir e deixo ela na mão), Marina começou a voltar num assunto que me incomoda um pouco. Ela insiste que eu deveria parar de viver do meu passado e retomar a minha carreira, fazer música, fazer shows etc. 

Acho que ela não entende que as pessoas não querem ver um cinquentão fora de forma cantando músicas que exigem um pouco de esforço mental para serem entendidas. Nos anos 80 era fácil porque a gente tinha acabado de sair de uma ditadura, o cuzão do Renato Russo fazia sucesso, o genial do Cazuza existia, os Paralamas chamavam a atenção, os Titãs eram polêmicos etc. Existia interesse. Nós tivemos a sorte de fazer um Acústico MTV no lugar do Biquini Cavadão, e isso foi o que nos fez bombar muito nos anos 90 e 2000. Mas o rock nacional morreu logo depois. Não quero ser um palhaço gordo tocando as mesmas músicas de 20, 30 anos para virar entretenimento dos filhos das gostosas que iam nos nossos shows. 

Acho que a Marina não quer entender isso. Nem que a música me custou tudo para hoje eu ser reconhecido por senhoras solitárias nos bares ou pelos filhos dessas tias. A insistência dela gerou uma briga e acabei gritando um pouco. Não quero alguém me dizendo o que fazer com a porra da minha vida. Fui um pouco duro, confesso. Às vezes não sei como ela me aguenta. Não é fácil viver um relacionamento com um ex-artista decadente fora do peso, ex-cheirador de pó e agora, futuramente, brocha para um caralho.

Ontem nós combinamos que ela iria dar um jeito de passar aqui para me ver, trazer comida e, quem sabe, dar umazinha. Sei que o coronavírus é transmitido por saliva, mas ninguém merece ficar de quarentena sem sexo. Eu tô com medo de morrer, mas não posso morrer sem transar uma última vez. Foda-se. Até o corno do meu vizinho tá fodendo. Deus, até o pastor tá comendo (apesar de ter ficado mais discreto nessas semanas). Eu não posso ficar sem sexo também. Não é justo. Até Jesus estaria decepcionado. 

Quer dizer… Tudo isso pode ser um karma, né? Quando temos muito de alguma coisa e não precisamos de esforço para conseguir mais daquilo, talvez a consequência seja que tudo que construímos se perca fácil. Minha ex-esposa dizia que esse pensamento era uma crença limitante e que eu precisava romper com ideias parecidas antes disso me consumir. Eu não consegui evitar isso e não consegui evitar o fim do meu casamento também. Culpei o meu pau, que era possuído por Satanás após os shows e durante as festinhas no hotel, no ônibus, ou em qualquer lugar que a gente quisesse. 

Claro que agradeço pela carreira que tive e o dinheiro que fiz. Consegui pagar a faculdade da minha filha, consegui pagar a casa em que minha ex-esposa mora. E mesmo com todos os meus excessos, não queimei a grana toda com sexo, drogas e rock n’roll. Sobrou o suficiente para viver tranquilo num prédio de classe média alta num bom bairro em Belo Horizonte. Se não sou rico como o pastor, é porque eu era artista e não estelionatário. Inclusive, preciso mesmo comemorar porque mesmo depois do divórcio sobrou dinheiro para me deixar confortável. 

De vez em quando a gravadora chega com uma proposta pau no cu para a banda se reunir para shows ou eventos de TV, mas nem fodendo que volto a conviver com algum daqueles três invejosos do caralho. Torço que morram sufocados no próprio vômito. Um deles quase morreu depois de ter uma fratura no pescoço durante uma transa com um travesti, inclusive. Esse pessoal que acha que a cara pode ser usada como cadeira se acha muito especial e tem mais que se foder mesmo. 

Além disso, não é como se a gente fosse a porra de uma banda mística como o Comi a Clara e a Gema. Aqueles caras eram incríveis e desapareceram. Eu só escrevi algumas músicas que fizeram minha banda aparecer no Faustão numa época em que brasileiro ainda ouvia música. Hoje é essa porra de Pablo Vittar do caralho ou sertanejo universitário. Ou funk. Puta que me pariu, o rock n’roll acabou mesmo. 

O que me deixa mais triste é que sou velho demais para tentar arrumar sacanagem pela internet. Quando eu ligava a câmera, aconteciam coisas esquisitas. As velhas paravam a siririca na hora em que me reconheciam, me pediam para cantar ou falavam que eu era pai do filho delas. Custei a aprender como mexia nessa porra, mas agora não posso nem gozar pelo computador em paz sem usar uma máscara. 

E o Tinder, então? Destruidor de autoestima. Destruidor de moral. Destruidor de tesão. Não consigo usar essa porra porque as mais novas me acham velho e as combinações que faço são com mulheres que certamente foram surradas pelo demônio e estão disponíveis como oferendas para os mais corajosos e destemidos. 

Mas eu estava falando sobre a Marina. Confesso que sei pouco da vida dela. Ela só aparece em intervalos de tempo e depois desaparece. Nunca tivemos algo muito firme por causa disso. É como aqueles políticos que só aparecem para pedir voto nas eleições e a gente nunca ouve falar deles. 

Ela vai fazer 30 anos na semana que vem. Não é uma diferença de idade tão grande assim. Não entendo porque as pessoas julgam tanto o homem por escolher uma mulher mais nova. Julguem a mulher por preferir o coroa, porra. Eu acreditei quando a gente se conheceu e ela pareceu não me reconhecer. Foi um alívio e facilitou nossa vida. A gente se conheceu numa boate subterrânea em que pessoas muito bêbadas correm o risco de tropeçarem na escada e terminarem a festa mais cedo. Teria acontecido com ela, mas eu a segurei porque estava próximo. Ela me chamou de salvador e que esperava que eu salvasse o restante da noite dela. Cacete. Sempre gostei de mulher com atitude. Levei ela para o apartamento e isso já tem dez meses. 

Minha maior relação desde que o meu casamento acabou há uns 10 anos. Oficialmente, pelo menos. De vez em quando me pergunto se não deveria pedir Marina em casamento. Quem sabe assim, ela para de só aparecer quando estamos juntos e eu saiba o que ela realmente faz da vida. Só que nossa relação é tão leve que não quero comprometer o sexo e o álcool com um compromisso. Inclusive, pensar no sexo com ela faz com que minha virilha esquente e os espaços entre minha pele e a cueca fiquem menores. 

Sei muito bem que se eu tirar uma agora, não vou conseguir comer a Marina direito quando ela chegar. 

Malditos 40 anos e alguma coisa. Ou 50 e alguma coisa. Tanto faz. Tô mais velho do que nunca mesmo. 

Ah, foda-se. Se eu não conseguir comer ela, uso a porra da minha língua e boto meus dedos para dedilhar outra vez. Vou gozar. 

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