Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Quarentena de Contos: O Quarto Triângulo

O projeto Quarentena de Contos apresenta histórias de terror inéditas escritas por autores do Cinema de Buteco durante a quarentena do coronavírus. Saiba mais sobre o projeto e leia todos os contos aqui.

Cada texto foi inspirado por três filmes diferentes, de gêneros diversos. Você consegue adivinhar todas as referências no conto de Carvalho de Mendonça?

Arte da capa: Lucas Sick Siqueira

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No fim da tarde, dia sim, dia não, deixam-me caminhar no jardim sozinho. Caminhar não é bem o verbo que define meus atos lá fora, pois dificilmente consigo permanecer mais de cinco minutos de pé ou dar mais de trinta passadas seguidas. Sinto sempre uma tontura muito forte, que chega a me derrubar no gramado. Uma espécie de maresia, só que em vez de parecer estar navegando, sinto que enfrento uma tempestade em alto mar. A saída é me contentar com o ar puro e com o canto dos pássaros, enquanto repouso num banquinho de tronco que eu mesmo construí, um tempo atrás, quando ainda detinha algum tipo de capacidade. Ah, meu amigo, e eu já fui um homem de muita capacidade.

 

A porta bateu forte pela violência do vento, despertando a atenção de David, que se encontrava imerso na leitura de “O Mito de Sísifo”, de Albert Camus. Iana estava parada ao lado da mesa.

– Desculpe interromper, Dr. David. Veio uma mulher aqui no setor e pediu pro senhor comparecer, assim que possível, na sala dos professores do hospital-escola, que o Dr. William está te chamando.

– William? E por que será que ele não me ligou? Obrigado, Iana. Vou aproveitar que o plantão tá tranquilo hoje e vou dar um pulinho lá. Qualquer coisa, eu tô no celular. Não devo demorar.

David devolveu o livro na estante, pendurou o crachá no jaleco e saiu acelerado. Sabia que não poderia ficar muito tempo longe de seu posto e que a sala dos professores ficava do outro lado do complexo médico. Ainda residente em psiquiatria, tinha consciência dos problemas que enfrentaria se algum superior tomasse conhecimento de sua ausência. Mesmo assim, jamais negaria uma solicitação do Prof. William.

– Entra, filho. Senta, por favor. Rapaz, é impressionante te ver assim, inteiro, sem nenhum arranhão do acidente. Se eu não fosse ateu, diria que foi um milagre.

– Eu tive sorte, professor. Infelizmente, só eu tive essa sorte. Mas, como vai o senhor? Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu, mas pode ficar tranquilo que não é nada demais. Eu tenho oitenta e três anos, meu filho, tudo para mim precisa ser em caráter de urgência. Vou te fazer uma proposta, que é, digamos, mais ou menos profissional. Sendo bem claro, David, eu recebi um convite de um grande amigo para um trabalho, que eu não posso dizer não, mas que, na minha idade, também não posso dizer sim sozinho, compreende?

– Claro, professor. É alguma pesquisa, algum estudo…?

– Não, é atendimento clínico.

– Atendimento? Pelo que eu sei o senhor não clinica há mais de vinte anos.

– É exatamente por isso que eu quero que o meu melhor aluno me acompanhe nessa. Na última vez que eu atendi um paciente, o mundo era outra coisa. Eu agora só sei teoria, filho.

– Professor, todo mundo nesse lugar fala maravilhas do teu trabalho. Todos querem ser metade do que o senhor foi. Desatualização se resolve fácil.

– Pode ser, David. Mas, no estágio da vida que eu estou, não há mais energia para atualização. E tem outra, eu não tenho interesse nenhum em voltar a atender. Esse trabalho vai durar apenas alguns dias e acabou, eu volto pra sala de aula.

– OK. Eu topo. Os atendimentos serão…

– Num cruzeiro. Marítimo. Temático.

– Como, professor? Cruzeiro marítimo temático? – David perguntou, com um sorriso de canto de boca, irônico.

– Pois é. Esse meu amigo está organizando o projeto de um cruzeiro, que vai percorrer a mesma rota do Triângulo II, até a ilha de Xanadu, para fãs e aficionados pelo navio.

David cada vez entendia menos.

– Mas existem fãs de navio?

– Eles são fãs de terror, de coisas sinistras, e também daquela história bizarra do Triângulo II.

– Desculpe, Prof. William, mas eu não faço ideia do que seja essa história bizarra de triângulo nenhum.

 

Peço perdão ao amigo por tomá-lo o tempo com descrições de momentos tão distantes. Mas, para que eu possa alcançar a tua compreensão, tais narrativas são essenciais. Pois bem, a gratidão é um sentimento belíssimo, mas gera emoções que ofuscam, que maquiam a realidade. E foi a gratidão que me fez aceitar ser o médico de um navio por alguns dias. Hoje, depois de todo o ocorrido, reservo-me ao direito de ignorar as falsas modéstias. Eu era brilhante. As pessoas ao meu redor sempre ressaltavam os meus feitos, desde pequeno, passando pela juventude, até o meu destaque como aluno de medicina e como médico residente. Não sei precisar até que ponto tive méritos em meus resultados, pois, em que pese sempre ter sido estudioso, eu nunca fui o mais esforçado, o mais aplicado, o que lia mais, nada disso. Eu nasci com o talento do aprendizado, que, somado à minha família bem estruturada e abastada, que nunca me deixou faltar nada, e ao meu apreço pelos livros, me fez um profissional brilhante. Assim sendo, atender milionários pedantes em um cruzeiro temático era ultrajante pra mim, mas eu tinha muita gratidão pelo Prof. William. Além de admiração, é claro. Alcançar o patamar que ele alcançou na medicina, numa época completamente hostil às pessoas de pele preta (não que isso tenha mudado muito), fazia-me ter por ele uma inegável estima. Ele ligou para Iana, informou que eu me atrasaria um pouco, e me contou a história do Triângulo II, obviamente começando lá atrás, na criação de Xanadu.

Não há qualquer evidência material que comprove a existência de Xanadu, porém, diversos políticos, artistas, socialites e militares da primeira metade do século afirmaram ter conhecido a ilha a convite de seu criador. Apesar de relatos desconexos e recordações conflitantes, descrever finais de semana em Xanadu era motivo de orgulho, e um certificado de status social elevado. Ninguém da elite seria capaz de assumir que jamais fora convidado para as festas que duravam semanas na ilha, que nunca dormira em um dos cem quartos do castelo, que não dera de comer na boca das duas girafas que passeavam livres pelo jardim, que não tivera a oportunidade de mergulhar no aquário com tubarões adestrados, ou que, em momento algum, se perdera pelo labirinto infinito de rosas raras e eternas, desenvolvidas especialmente para o lugar. Xanadu era o paraíso dos esnobes. O céu da futilidade. E Clóvis Faria de Almeida, o seu deus.

Clóvis, o magnata da imprensa, que transformou um pequeno jornal da família num império, foi o idealizador de Xanadu. Poderoso e bem articulado, o empresário utilizava-se de sua influência para eleger líderes e estar sempre à frente das principais decisões políticas do país. Muito se falava que, não tendo mais lugar para guardar a sua fortuna, Clóvis construiu Xanadu, encheu o castelo de obras de arte, estátuas e monumentos de artistas europeus, enviou dois exemplares de cada animal que sua esposa admirava para a ilha, além de ter praticado inúmeras outras excentricidades. No fim, envolvido em vários escândalos de corrupção, viu o seu reinado ruir, um poço sem fundo de dívidas se abrir sob seus pés, e todo o seu patrimônio, incluindo a lenda de Xanadu, ir pelo ralo.

Décadas depois da morte de Clóvis Faria de Almeida, um outro bilionário misterioso decidiu construir um navio e levar interessados para a ilha de Xanadu. Triângulo II era o barco que transportaria os passageiros para um lugar que sequer sabiam da real existência. Mas isto não foi impedimento para o sucesso do empreendimento. Mais de duzentas pessoas, ilustres figuras cinzas da elite nacional, embarcaram naquele sonho de conhecer o ponto máximo da suja pirâmide social brasileira.

Poucos dias após a partida, o navio apareceu novamente no porto de onde saíra.

Os homens do mar, estranhando aquele retorno inesperado, tentaram contato com a tripulação, sem sucesso. Com a ajuda de um barco de apoio, subiram a bordo, e não puderam crer no que os seus olhos viram. Não havia absolutamente ninguém no Triângulo II. Nenhum sinal dos duzentos e tantos passageiros. Vasculhando as cabines, encontraram uma mulher dormindo tranquilamente. Ao ser despertada, ela afirmou não se lembrar de nada a partir do momento em que ingressou no navio. Investigações foram feitas por anos a fio, inquéritos foram abertos, arquivados, reabertos e rearquivados, mas jamais apareceu qualquer pista sobre o paradeiro dos passageiros ou sobre como o navio retornou ao local de partida sozinho. Nem mesmo a pressão das famílias mais importantes do continente, que perderam parentes no evento, foi o suficiente para que surgisse uma resposta concreta do Estado.

Sem sangue. Sem sinais de violência. Sem corpos no oceano.

Com bote, coletes, roupas, bagagens, bebidas e alimentos intactos, da mesma forma com que foram abastecidos.

E uma mulher sem memória a bordo.

 

David não levou muito a sério a história narrada pelo Prof. William. Mas uma certa curiosidade mórbida por aquelas pessoas diminuiu drasticamente o seu descontentamento com a empreitada. Embarcou, e enquanto admirava a cidade se afastando aos poucos, recostado numa grade lateral do navio, pensou em voz alta:

 – Triângulo III, que criativo.

– Não é criativo, mas é perfeito para a proposta. Você não acha? – ele foi surpreendido por uma voz feminina bem ao seu lado.

– Pode ser. Eu não quis ofender. Você sabe o motivo desses barcos se chamarem Triângulo? – rebateu, David, olhando pela primeira vez para a mulher.

A moça, que tinha um cabelo curto bem claro, quase branco, e trajava vestes antiquadas para a sua pouca idade, gargalhou:

– Tá na cara que você não buscou nem o conhecimento básico, né? Dizem que o Seu Clóvis, segundos antes de morrer, ficou repetindo essa palavra. “Triângulo”, “triângulo”. De lá pra cá, tentamos decifrar o significado disso, do recado que ele tentou passar.

– Sabia que algumas pessoas deliram antes de morrer? Que a investigação de vocês simplesmente pode não significar nada? Aliás, todo mundo aqui nesse barco é cheio da grana, tudo gente poderosa, por que ninguém nunca pegou um barco particular ou um avião para chegar na tal Xanadu?

– Muitos já tentaram. Ninguém nunca a conseguiu encontrar. Mas o nosso interesse aqui não é chegar a Xanadu. Nosso interesse é viver a rota do Triângulo II.

– Que ótimo. E como é que se sabe a hora de voltar de uma viagem a lugar nenhum? – ironizou David.

– Quem é que sabe, Doutor?

David fitou ressabiado a face da mulher.

– Doutor? Você me conhece.

– Claro, Doutor. Eu já te vi em foto.

 

O interior do Triângulo III era exatamente igual ao Triângulo II. Na antessala do gabinete do comandante, era possível analisar as semelhanças entre eles por meio das duas enormes maquetes dos projetos, expostas lado a lado. Passando pela gigantesca porta de vidro com detalhes em madeira maciça, chegava-se ao luxuoso restaurante. Com capacidade para receber todos os passageiros de uma só vez, o local contava com decoração ao estilo cabaré francês, todo forrado de um carpete grená, repleto de acortinados em variados tons rubros e candelabros dourados. Havia um suntuoso palco para apresentações artísticas, com um fundo falso, que somente poderia ser aberto após os shows, interligando o restaurante ao charmoso bar do navio. O bar, na realidade, mais parecia um cassino. Várias mesas de carteado, máquinas de jogos, roletas, pequenos quiosques com barmans, e uma afrontosa fonte de champanhe. Sim, uma fonte de champanhe. No alto, entre dois globos prateados, um retrato, pintado à mão, de Clóvis Faria de Almeida. 

Nos andares de cima, ficavam localizadas as cabines. Todas elas, sem exceção, eram ricamente equipadas. No Triângulo III não havia segunda e terceira classes. O andar abaixo do restaurante, no nível da piscina, contava com duas saunas, uma com vapor e outra sem, boliche, sala de massagem, serviço de atendimento ao consumidor, escritório da administração, biblioteca, com uma escadaria que descia até a sala de estudos, o ambulatório, onde eu e o Prof. William montamos nosso consultório, e nossas cabines.

 

– Professor, o senhor acha mesmo que há a necessidade de estarmos aqui?

– David, diante da obrigatoriedade de ter atendimento médico a bordo, a administração achou interessante que fosse de psiquiatras. Não me pergunte a razão, mas deve ter alguma relação com esses estudos esquisitos deles. Vou sair um pouco para tomar um ar. Quer um café?

– Quero sim. Vou ler um pouco pra ver se o tempo passa mais rápido.

Demorou poucos segundos desde a saída do Prof. William até as batidas leves na porta do ambulatório. David abriu para uma senhora e a orientou que se sentasse. Era a primeira paciente que buscava atendimento por conta própria. No mais, tinha apenas consultado pessoas que chegavam carregadas, seja por efeito colateral dos sacolejos da embarcação, seja por excesso de álcool, seja por quedas na piscina.

– O que a senhora está sentindo, Dona Celeste?

– Nada, Doutor. É o meu marido. Ele está muito estranho. Achei que você, como é psiquiatra, pudesse me ajudar.

– Estranho como?

– Vou te falar, mas quero que você jure que não vai dizer nada praquele seu amigo. O velho. Aquele escurinho que saiu daqui agora a pouco.

– O Dr. William? E eu posso saber a razão desse pedido?

– Meu marido está estranho desde que conversou com ele. Cheguei na minha cabine, tarde da noite, e os dois estavam lá. Conversando. Desde então, o Carlos é outra pessoa.

– O seu marido e o Dr. William são amigos?

– Mas é claro que não, Doutor. Nós não temos amigos assim.

– Assim? Assim como?

– Você sabe.

– Não sei. Se a senhora puder ser mais clara.

– Basta. Se não está disposto a fazer o teu trabalho, não vou insistir. Mas saiba que a administração vai ficar sabendo. Boa tarde.

Um misto de inconformismo e arrependimento tomou conta de David. Apesar do incômodo com o comportamento da mulher, como médico, não poderia ter deixado de ouvi-la sobre o problema do marido. Prof. William reapareceu:

– Toma aqui o café.

– Professor, a esposa de um amigo teu esteve aqui agorinha.

– Esposa de um amigo meu?

– Isso. Uma velha racista.

William caiu na risada.

– Você vai precisar ser mais específico, David. Todo mundo é racista nesse barco – disse o professor, antes de mais uma longa gargalhada.

 

Não posso dizer que naquela tarde tivemos os últimos vestígios de normalidade no barco, sendo certo que nada naquele barco jamais aparentou ser normal. Porém, na manhã seguinte, logo nas primeiras horas do dia, fomos despertados por histéricos gritos de horror, que rasgavam o silêncio matutino.

Coloquei uma camiseta e corri para ver o motivo de tanta balbúrdia. De longe, já pude enxergar a aglomeração no convés do navio. De perto, senti o impacto da imagem mais tenebrosa de toda a minha vida. Pelo menos até aquele momento. Um homem estava empalado num enorme gancho instalado do lado de fora da embarcação. Seu corpo, dobrado de forma perfeita para se adaptar no formato do ferro, parecia o de uma minhoca cuidadosamente encaixada num anzol. Mesmo sendo médico, não consigo explicar a possibilidade física daquilo. O gancho parecia ter entrado pela boca do homem, e saído pelo ânus, após atravessar o tronco destruindo todos os órgãos. Quem fez aquilo precisou de horas, teve muito trabalho, e não agiu sozinho. Aliás, nem mesmo um pequeno grupo de assassinos teria força suficiente para deixar o cadáver naquela situação.

Duas coisas ainda me atordoariam naquele dia. Uma delas foi a revelação de que o morto era o marido da senhora que eu atendera na data anterior. A outra, e mais absurda, é que uma câmera de segurança gravou o exato momento em que o homem, sozinho, se dirigiu até à beirada dianteira do navio.

 

– Professor, o senhor só pode estar brincando. Suicídio? Suicídio, professor? É fisicamente impossível que ele tenha feito isso sozinho, e o senhor sabe disso.

– David, você é detetive? Eu, depois de velho, virei investigador de polícia? Vamos despachar esse corpo logo, por favor.

– Professor, veja bem. Eu não sei o que aquele vídeo quer dizer, mas isso não foi suicídio. O gancho estava virado pro lado do mar, professor. O velho teria que voar, ou ter uma força sobre-humana pra chegar do outro lado. E ainda mais se encaixar daquela forma, professor. É absurdo.

– A velha não falou que o marido estava com um comportamento estranho? Vai ver era isso. Estava voando – disse William, dando risada.

David o encarou. Silencioso.

– O que foi David?

– Eu não te contei o que a mulher me disse sobre o marido.

– Como assim?

– Em nenhum momento eu disse para o senhor que ela comentou sobre o comportamento estranho do marido.

– Não comentou? Vai ver foi ela e eu estou fazendo confusão.

– Estranho. Porque ela me fez jurar que não contaria nada para o senhor. Aliás, professor, um amigo teu morre, assim, de um modo tão bizarro, e o senhor se comporta como se fosse a coisa mais normal do mundo?

– David, ele não era meu amigo, apenas um conhecido. E tem outra, eu tenho oitenta e três anos, já morreu amigo meu de todas as formas que já foram inventadas. Somos psiquiatras, David. Com o tempo, você também vai se acostumar a conviver com o suicídio.

– Professor…

– Isso não é problema teu, Poirot. Cuida do teu trabalho, garoto. Cuida do teu trabalho e toma o café que eu trouxe, senão vai esfriar.

 

Amigo, espero que os acontecimentos que relatarei a partir de agora não te faça abandonar a leitura, ou te faça perder a confiança neste narrador.

Não tive remorso. Entretanto, uma pequena ponta de angústia tomou conta de mim, por imaginar que poderia ter ocorrido algo diferente se eu tivesse ido me encontrar com o falecido, ou pelo menos dado ouvidos à sua boçal esposa. Minha cabeça estava a mil por hora. Tão agitada, que nem sei como fui capaz de adormecer.

Tive um sonho estranho: eu caminhava na noite escura em direção à proa do navio, de onde vinha uma espessa neblina. Ao me aproximar, pude perceber a presença de uma outra embarcação, muito parecida com o Triângulo III, mas toda destruída. Ela flutuava alguns centímetros acima da água. Acenando para mim, enquanto o outro barco se afastava, estava o velho morto naquela madrugada, da mesma forma como o tiramos do gancho: ensopado de sangue, com as vísceras expostas e um forte cheiro de podre.

Acordei cedo na manhã seguinte, mas já era possível ouvir diversas vozes vindas da área da piscina. Essa era a principal desvantagem de dormir na cabine acoplada ao ambulatório, a proximidade com as áreas de lazer. Levantei-me e estranhei logo de cara a movimentação natural das pessoas, apesar da tragédia havida no dia passado. Homens e mulheres se bronzeando e bebendo seus coquetéis, ouvindo música e jogando tênis de mesa, conversando e gargalhando descompromissados. Aparentemente, ninguém havia se abalado muito com o ocorrido. Só eu.

 

– Esse pessoal é realmente muito estranho, professor. Já está todo mundo lá na beira da piscina.

– E por que não deveriam estar, filho?

– Ora, até ontem à noite estavam todos chocados com o que aconteceu.

– Mas o que foi que aconteceu ontem, David? Você está pálido. Está se sentindo bem?

– Está brincando com a minha cara, professor? Como assim o que aconteceu ontem?

– Desculpa, David. Mas eu estou velho. Posso ter me esquecido.

– Professor, o assassinato, suicídio, sei lá. Aquele homem pendurado no gancho.

– David, como assim? Teve um crime aqui no navio? E eu não fiquei sabendo?

– Claro que ficou sabendo, professor. Nós dois estávamos com o corpo aqui na sala ontem. Inclusive, o defunto é conhecido do senhor. Marido daquela imbecil que esteve aqui no ambulatório.

– Aliás, David, até hoje não sei quem é essa mulher que você fala. Vai descansar, garoto, deve ter sido pesadelo.

 

Eu não poderia ter me enganado. Nenhum pesadelo seria tão real. Rodei por toda a embarcação, questionando as pessoas, especialmente alguns que haviam sido atendidos por mim, mas ninguém, absolutamente ninguém, se recordava da desgraça da data anterior.

Lembrei-me do acidente que eu sofrera no início do ano. Todas as outras seis pessoas envolvidas na colisão entre os veículos estavam mortas, e eu, para assombro geral, sequer tive sangramento nasal. Questionei-me se seria possível que eu tivesse batido a cabeça e só agora começasse a apresentar algum sintoma. Mas a dúvida logo foi suplantada pela certeza de que eu não vivera um delírio. Aquilo com certeza era uma brincadeira de muito mau gosto, arquitetada sabe-se lá por quem. Procurei por Celeste, esposa do falecido, em cada canto do navio, entretanto, ninguém a conhecia. Perguntei na administração, que me respondeu não haver nenhuma Celeste a bordo. O melhor a se fazer era entrar no jogo deles e aceitar que nada havia se passado.

 Eu estaria ficando maluco? Sempre percebi em meus pacientes que o momento em que se começa a duvidar de si próprio é um momento positivo. De certa forma, a percepção de que há algo errado com a própria sanidade é um sinal forte de sanidade. Isso me acalmou um pouco. Na época do meu acidente, não fui considerado um ser superior apenas por policiais, bombeiros e paramédicos, a ala de saúde mental do complexo clínico, tanto psiquiatras, quanto psicólogos e terapeutas, também se espantaram ao verem como eu reagi bem ao evento. Não tive qualquer trauma, apesar de perder meu melhor amigo, ter sobre mim os pedaços de outros cinco corpos, e olhar no fundo dos olhos da morte e dizer: “eu fico!”.

Naquele dia, não consegui trabalhar. Tomei um café com o Prof. William, que me pediu para descansar enquanto ele cuidava do ambulatório. Peguei um ensaio de Camus, que havia deixado pela metade, e fui ler, olhando o mar, ao lado do gancho de onde eu retirara o cadáver. Não havia uma mancha de sangue sequer. Nada. Nenhum sinal da carnificina.

Eu tentava, em vão, me concentrar no livro, quando uma mulher veio correndo ao meu encontro, aos prantos, me chamando à área das cabines, com urgência.

Era o segundo corpo.

 

– Bem, professor. A menina veio até o ambulatório e o encontrou trancado. Procurou um pouco, me achou lendo na proa do navio e me levou à cabine. O corpo estava exatamente assim: o rosto completamente desfigurado, como se alguém tivesse puxado o lábio superior, dado a volta sobre o couro cabeludo, até à nuca. Antes que o senhor me pergunte, eu não faço a menor ideia de como isso foi possível, de como a arcada dentária dela está em cima da testa. Professor, nós temos um serial killer neste barco.

– Serial killer com uma vítima, David?

David preferiu não insistir, e seguiu fingindo que não havia um primeiro corpo.

– Deixa eu adivinhar, professor. O senhor vai relatar como suicídio.

– Não, David. Não acredito em suicídio. Isso me parece mais uma reação química, algum produto que ela tenha usado, não sei dizer. Quem sabe uma forte alergia.

– Alergia, professor? Nós temos um psicopata no navio, precisamos fazer alguma coisa.

– Sua imaginação é muito fértil, garoto. Não temos qualquer sinal de violência no local. E as câmeras do corredor mostram que ela entrou sozinha na cabine. Você anda muito estranho, David, desde cedo. Quando estivermos em terra firme, saberemos o que foi que matou essa menina. Por enquanto, sossega essa sua criatividade.

 

A garota do segundo corpo era a mesma que conversara comigo no dia do embarque. Decidi investigar aquela morte por conta própria. Planejei que no dia seguinte procuraria a moça que me mostrou o cadáver e todos os demais ocupantes das cabines do andar.

No fundo, eu tinha a esperança de que realmente a história do primeiro corpo tivesse sido um sonho ruim, premonitório, do que ocorreria com aquela jovem. Entretanto, amigo, você já há de suspeitar com o que me deparei quando acordei no dia seguinte: não havia corpo, ninguém tinha ouvido falar de qualquer morte a bordo, e nem mesmo das duas garotas, a falecida e a que a encontrou. Era como se nenhuma delas tivesse existido.

Na minha mente, a única resposta plausível era de que aquelas pessoas formavam uma seita, alimentada por sacrifícios humanos, e, após seus rituais, fingiam que nada estava ocorrendo, para enganar o único imbecil que não fazia parte da loucura. O que não entrava na minha cabeça era o comportamento do Prof. William. O posicionamento dele era a peça que faltava no meu quebra-cabeça. Não fazia sentido que ele fosse um deles.

Aquela tortura foi diária, meu amigo. Vieram o terceiro corpo, o quarto, o quinto, o sexto, e o sétimo. Todos eles em situações semelhantes. Corpos destruídos, mutilados, dilacerados, com as feridas equiparadas às causadas por animais selvagens, porém, sempre com álibis muito convenientes, que afastavam a possibilidade de homicídio. As vítimas estavam sempre sozinhas, e o Prof. William, com uma preguiça inexplicável, relatava os casos como suicídio, reação alérgica, ataque bacteriano, dentre tantos outros absurdos.

No oitavo dia, ninguém morreu. Nem no nono. E a minha mente voltou a trabalhar. Foram sete corpos. O segredo poderia estar no número. Por que sete? Sete é o número divino, o número da perfeição. O número mais vezes citado na Bíblia Sagrada. Seria algo bíblico, os sete desastres do apocalipse, os sete sacramentos, as setes igrejas da antiguidade, as sete trombetas, os sete selos? Ou seriam os sete pecados capitais? Os sete mares? As sete virtudes? As sete cores do arco-íris? As sete maravilhas do mundo? Os sete palmos abaixo da terra? Se fosse uma seita ou um serial killer, e o número de mortos fosse relevante para a mensagem, eu jamais conseguiria decifrá-la, pois o número sete poderia significar qualquer coisa, e nada mais apontava à direção alguma.

Assisti duas vezes aos estudos do grupo acerca das teorias envolvendo a região marítima em que estávamos e as prováveis razões do desaparecimento dos navegantes do Triângulo II. Aquele pessoal não parecia fazer parte de uma seita maligna. A não ser que fosse uma seita de imbecis.

Por duas noites, aguardei que a maioria dos tripulantes se recolhessem, para vasculhar o navio. Averiguei as maquetes dos dois “Triângulos”, as cozinhas do restaurante e dos bares, a coxia dos artistas, os livros da biblioteca, a sala de estudos, e não decifrei nada de comprometedor. Só restava um lugar para procurar: a cabine do Prof. William. O plano era arriscado, mas tinha chance de dar certo. Prof. William tinha o sono pesado, além de não escutar direito. Se, em última instância, ele acordasse e me surpreendesse, daria a desculpa de estar procurando algum livro ou material de estudo.

Abri silenciosamente a porta da cabine do professor.

 

– Acorda, garoto! Acorda! Qual o teu nome?

– David. Eu sou o médico do navio. Aconteceu alguma coisa? Quem são vocês, polícia?

– Cadê todo mundo, David?

– Todo mundo quem? Eu não sei. Só me lembro de ter embarcado e… eu vou ser responsável pelos atendimentos e… eu não me recordo… o Prof. William pode ajudar vocês melhor do que eu.

– Garoto, não tem mais ninguém a bordo. Só você. Vem com a gente, por favor.

Sentado diante do delegado responsável, David ouviu o resumo do chefe de polícia:

– Poucos dias após a partida, o navio apareceu novamente no porto de onde saíra. Os homens do mar, estranhando aquele retorno inesperado, tentaram contato com a tripulação, sem sucesso. Com a ajuda de um barco de apoio, subiram a bordo, e não puderam crer no que os seus olhos viram. Não havia absolutamente ninguém no Triângulo III. Nenhum sinal dos duzentos e tantos passageiros. Vasculhando as cabines, encontraram você dormindo tranquilamente. Ao ser despertado, você afirmou não se lembrar de nada a partir do momento em que ingressou no navio. Sem sangue. Sem sinais de violência. Sem corpos no oceano. Com bote, coletes, roupas, bagagens, bebidas e alimentos intactos, da mesma forma com que foram abastecidos. E um médico sem memória a bordo.

 

No momento em que fui resgatado sozinho no Triângulo III, eu não tinha memória alguma de eventos havidos após o embarque. Tudo o que relatei acima são lembranças que foram voltando com o passar do tempo. Mas desde que pisei em solo continental, tive a consciência de que o destino do Triângulo III tinha sido exatamente o mesmo do Triângulo II.

O mistério do Triângulo III, porém, fora muito mais difundido que o do Triângulo II. As técnicas de investigação, as tecnologias marítimas, satélites, aviões, sistemas de informação, tudo isso foi colocado à disposição para a procura de uma resposta, porém, sem sucesso. Redes sociais, programas de televisão, blogs especializados e revistas de ufologia buscaram auxiliar por meio de teias de contatos, e nada foi eficaz.

Mas, como já disse, minhas recordações estavam cada vez mais nítidas. Quando já tinha informação suficiente, decidi ir atrás de Astrid, a sobrevivente desmemoriada do Triângulo II, que já tinha uma idade avançadíssima e poderia, assim como eu, ter relembrado dos fatos com o tempo.

 

– Foi um erro você ter vindo até aqui, David.

– A senhora sabe o meu nome?

– O mundo inteiro sabe o teu nome, garoto. E o meu também.

– Dona Astrid, eu sei que a senhora se recorda do que aconteceu no navio. Eu venho me lembrando aos poucos, mas, tanto tempo depois, com certeza a senhora já se lembrou de tudo. No Triângulo III, aconteceram sete mortes…

– David, não precisa me contar nada. Eu sei tudo o que aconteceu no Triângulo III.

– Sabe?

– Fui eu que construí aquele navio. E acompanhei tudo aqui do meu sofá, garoto.

– A senhora é a dona do Triângulo III? Prof. William disse que era de um amigo…

– Amiga, na verdade. Amiga.

– Mas…

– Escute, David. Tanto eu, quanto você, não estávamos a bordo por acaso. Nós tínhamos uma missão muito importante. Eu cumpri a minha, mas temo que você não vá conseguir executar a tua.

– Missão?

– Oh, David. Você, em pouco tempo, irá se recordar de tudo e entenderá a missão. Você não devia ter vindo aqui, garoto. Mas já que veio, me escuta. Quem me colocou dentro do Triângulo II era uma pessoa preta que me amava e confiava muito em mim. A mesma coisa aconteceu contigo. Essa pessoa que me levou, durante todo o tempo, me envenenou, para que eu não compreendesse direito o que acontecia, questionasse a minha sanidade, e esquecesse de tudo por determinado período, para me proteger e porque sabia que eu poderia discordar e atrapalhar os planos. William fez o mesmo incrementando o teu café diariamente.

– Prof. William matou aquelas pessoas?

– Nós matamos, David. Todo mundo que estava a bordo do Triângulo II e do Triângulo III, incluindo os cozinheiros, artistas, administradores, membros da tripulação, seguranças, foram escolhidos a dedo. Eram racistas, nazistas, supremacistas brancos e coisas do tipo. Clóvis Faria de Almeida era um racista filho da puta, que mantinha um seleto grupo que se reunia para debater estratégias de massacre de afrodescendentes. Como esse cara é um ídolo dessa corja, Xanadu é a isca perfeita. Claro que nem todo mundo que se interessa pelo tal paraíso de Xanadu se inclui na nossa lista. Por isso mesmo foi um trabalho árduo, selecionar quem realmente merecia subir a bordo. Quem morreu durante a travessia foi porque não estava sendo bem atingido pelas ondas, e ameaçava se rebelar.

– Ondas?

– David, isso eu não vou saber te explicar. Parece ficção científica pra mim. A cabine dos médicos ficava do lado de fora para vocês não serem atingidos pelo sistema instalado em todo o interior do navio. Os idiotas eram manipulados enquanto dormiam, por isso só você e William se lembravam dos mortos.

– Mas como os corpos ficavam naquele estado?

– Isso faz parte do experimento, David. Uma dose de força sobre-humana e uma pitada de instinto de autoextermínio.

– Onde estão todos?

– Não sei e não quero saber, David. O meu trabalho era construir o Triângulo III e tentar repetir o sucesso do Triângulo II, mandando centenas de racistas para “eles”. E antes que você me pergunte quem são “eles”, já respondo que também não sei.

– Teve um Triângulo I?

– Sim, chamava-se só Triângulo – gargalhou – mas foi em proporções menores, o pessoal do continente nem se deu conta. Bom, David, você precisa ir. Acho que já ficou claro que o quarto Triângulo é por sua conta, né?

 

Meus pensamentos foram se reorganizando aos poucos, e as peças apresentadas pela senhora, se juntando aos recordatórios. Na noite em que vasculhei o navio, entrei na cabine do Prof. William na ponta dos pés, mas ele já estava me esperando. Depois de me apagar com um aparelho de choque, amarrou-me em uma cadeira. Braços e pernas presas. Acalmou-me, dizendo que jamais me faria mal. Mostrou-me um enorme dossiê, contendo documentos, fotos, postagens em redes sociais, pen drives com áudios e vídeos, recortes de jornais e revistas, que apontavam todas aquelas pessoas como membros de uma espécie de clã supremacista branco ou simpatizantes de ideais similares. Afirmou que tinha me escolhido, porque eu era a única pessoa branca em quem ele confiava para dar sequência ao projeto, e explicou-me algo, que depois me pareceu óbvio: só brancos conseguem atrair brancos racistas para um empreendimento. Contou que era a minha foto que vinha estampada nos materiais de divulgação do tour para Xanadu. E que conheceu o projeto, quando manteve um relacionamento amoroso com Astrid.

Infelizmente, quando finalmente eu conseguia montar o quadro completo, recebi uma mensagem em meu celular de Astrid, pedindo para que fosse com urgência à sua casa. Não tinha passado o número de meu telefone para ela, mas era óbvio que ela já o tinha. Corri até à casa dela, a porta estava entreaberta, adentrei e descobri o que ela quis dizer com “você não deveria ter vindo aqui”. Em cima da mesa da sala de jantar, havia uma diminuta urna, uma espécie de gaiola de aço, mas fechada, sem qualquer abertura para oxigênio. Ao abrir a pequena porta da gaiola, o choque. Lá estava a cabeça de Dona Astrid. Separada do restante do corpo, a cabeça rolou da pequena urna até minhas mãos. A polícia apareceu neste exato momento, em que varejeiras sobrevoavam o corpo sem cabeça de Astrid no sofá. E eu segurava a cabeça sem corpo da idosa, impassível.

Na mesma semana em que descobri um grupo de justiceiros que estava punindo racistas com experiências cruéis em algum lugar desconhecido, também descobri que esses racistas já sabiam da existência dos justiceiros. E que policiais, promotores, juízes, governantes, também faziam parte do clã dos supremacistas. Eu não tive qualquer chance nos tribunais. Sequer tive a oportunidade de ir a um presídio. Estou trancado em um manicômio, sabe-se lá há quanto tempo, recebendo doses cavalares de medicamentos fortíssimos, que estão matando meu cérebro aos poucos.

No fim da tarde, dia sim, dia não, deixam-me caminhar no jardim sozinho. Caminhar não é bem o verbo que define meus atos lá fora, pois dificilmente consigo permanecer mais de cinco minutos de pé ou dar mais de trinta passadas seguidas. Sinto sempre uma tontura muito forte, que chega a me derrubar no gramado. Uma espécie de maresia, só que ao invés de parecer estar navegando, sinto que enfrento uma tempestade em alto mar. A saída é me contentar com o ar puro e com o canto dos pássaros, enquanto repouso num banquinho de tronco que eu mesmo construí, um tempo atrás, quando ainda detinha algum tipo de capacidade. Ah, meu amigo, e eu já fui um homem de muita capacidade.

Eles me deixam escrever. E todo dia eu escrevo este relato. Já o reescrevi, exatamente nestes termos, milhares de vezes. Quando acordo, ele já não está mais aqui. Eu reescrevo de novo, e de novo, e de novo… como se fosse a primeira vez, e assim farei até o fim dos dias. Um trabalho sem esperança, como o de Sísifo, e possivelmente inútil também. Só você, amigo, poderá provar o contrário. Se está lendo isto, é sinal de que eu, enfim, consegui que o papel chegasse do lado de fora dos muros desumanos da fortaleza em que vivo. Meu amigo, espero do fundo de minha alma que você esteja do lado certo da história.

 

– Hora do banho, David. Muito prazer, eu sou seu novo enfermeiro – o homem olhou admirado para a enorme planta de navio desenhada de uma ponta à outra da parede – o que é isso? Foi você quem fez?

– Foi. É o projeto do barco que eu preciso construir quando sair daqui.

– Tá bom, Noé. Segura no meu pescoço, que eu te ajudo a levantar.

O novo enfermeiro ergueu David, apanhou a carta que estava disposta sobre à mesinha, e guardou no bolso do jaleco.