Livro: A Mão Esquerda da Escuridão

“A verdade é uma questão de imaginação. O mais impressionante fato pode desvanecer-se ou brilhar apenas pelo estilo da narrativa; como aquela joia natural e singular de nossos mares que se torna mais cintilante quando usado por uma mulher, e opaca quando usado por outra, tornando-se gasta, até virar pó. Os fatos não são mais sólidos, coerentes, completos e reais do que as pérolas. Mas ambos são susceptíveis. ”

A obra de Le Guin é uma ficção científica como muitas deveriam ser: um experimento de pensamento. Ao invés de gastar inúmeras páginas descrevendo cada detalhe do futuro, ela prefere integrar trechos de política e mitologia com grande maestria. Agora, se você procura por uma obra de ficção científica com bastante aventura e dinamismo, A Mão Esquerda da Escuridão não será a sua preferida.

Ursula Le Guin aborda em seu livro não apenas a questão dos gêneros, mas sim toda a dualidade que vem a partir disso. Escrito em 1969, a autora buscou se diferenciar dos outros autores de ficção científica e extrapolar a visão de futuro, explorando a natureza da sexualidade de um ponto de vista feminista e acabou vencendo os prêmios Hugo e Nebula, um dos mais importantes da literatura.

Em sua obra, Le Guin se arrisca na filosofia, psicologia e na estética da representação de gênero. E tudo isso de forma genuína e completamente original. A partir da perspectiva psicológica, a autora examina ainda o papel simbólico do gênero, pegando o ponto de vista estético para utiliza-lo como metáfora, tornando A Mão Esquerda da Escuridão mais atual que nunca!

“Eu bem que tentava entende-los, forçando-os a pertencerem a um dos gêneros – masculino ou feminino -, classificação tão inútil à natureza deles, mas essencial à nossa.”

A autora explora as possibilidades de um mundo em que a ambissexualidade é real, tornando necessário um ambiente sexual, político e social completamente diferente do que estamos acostumados a ler e a viver, tornando esta leitura tão rica e memorável. Este clássico da ficção científica narra a história de Genly Ai, um ser que é do gênero masculino e negro, que é enviado ao planeta Inverno (mais precisamente à Gethen), com a missão de convencer seus governantes a se unirem a uma grande comunidade universal, o Conselho Ecumênico, que é composta por diversos planetas (incluindo o planeta Terra) para construir uma forma de comunicação entre as diferentes espécies.

“O Conselho Ecumênico é um organismo místico, não um organismo político. Eles consideram todo começo muito importante. Começos e meios. Sua doutrina é justamente o oposto daquele em que os fins justificam os meios. Sendo assim, agem de modo sutil e vagaroso, ao mesmo tempo estranho e arriscado, do mesmo modo que a evolução, que, em certo sentido, é seu modelo…”

 Ao chegar no planeta Inverno, como é conhecido por aqueles que já vivenciaram seu clima gelado, o experiente emissário sente-se completamente despreparado para a situação que lhe aguardava. Mesmo com a ajuda do primeiro ministro Estraven, a estratégia utilizada por Genly Ai parece ser pouco convincente para agradar o Rei Argaven de Karhide e conseguir unir os povos de diferentes planetas será muito mais complicado do que ele imaginava.

“Sozinho, eu não posso mudar o seu mundo. Mas eu posso ser mudado por ele.”

Os habitantes de Gethen fazem parte de uma cultura rica e quase medieval, estranhamente bela e mortalmente intrigante. O problema é que Genly é humano demais para desconstruir todos os significados impostos pela nossa sociedade. Em Gethen, não há discriminação de gênero pois os indivíduos não possuem sexo definido. É nesse cenário, que Genly se vê forçado a superar seus preconceitos enraizados para não interferir sua missão no planeta Inverno.

Outro fato que deixa a leitura ainda mais interessante é a divisão entre narrações dos personagens Genly Ai e Estravenm, nos possibilitando entender o ponto de vista do alienígena quanto do habitante local.

“ – Não, não quero dizer amor, quando falo em patriotismo. Quero dizer medo. Medo do outro. E suas expressões são políticas, não poéticas: ódio, rivalidade, agressão. Cresce dentro de nós, esse medo. Cresce dentro de nós, ano após ano. Fomos longe demais nesse caminho. ”

Em suma, o discurso praticado tanto em um nível pessoal quanto político em A Mão Esquerda da Escuridão representa a capacidade de como nos relacionamos, demonstrando que a conquista da diferença entre os sexos tem em si o potencial que vai além do material, nos fazendo deixar a escuridão para abraçarmos a luz.  Então, se você quer um livro que te faça refletir e desconstruir muitos argumentos, eu indico esta obra da Ursula Le Guin, que, em 1969 começou a despertar seus leitores para implicações como a misoginia, as consequências de um comportamento heteronormativo fortemente presente em nossa sociedade. 

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capa1Ficha Técnica:

ISBN:978-85-7657-184-1

Tradução: Susana Alexandria

Edição:

Ano:2014

Número de páginas:296

 

 

Felipe Borba

Nasceu no Pará, cresceu no Maranhão e vive em Minas Gerais. Além de se considerar um explorador da natureza; Felipe é publicitário com especialização em Marketing Estratégico, é viciado em novas tecnologias, queria ser adotado pelo Neil Gaiman e tem mais livros do que dá conta de ler.