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Entrevista: Verena Cavalcante

Ser fã de terror, apesar de proporcionar experiências únicas, não é muito fácil porque o gênero exige do público um filtro mais potente, afinal, todos os anos, somos apresentados a trabalhos pavorosos. Se analisarmos, por exemplo, a obra do escritor Stephen King, podemos encontrar livros e adaptações cinematográficas divinas, como Carrie – A Estranha, e títulos que dão ânsia de vômito, como Os Sonâmbulos.

Sendo assim, quando encontramos um título memorável, a empolgação vai lá em cima, junto com a vontade de gritar para todos os amigos que tem algo novo e de grande valor disponível aos fãs do gênero. Foi essa a sensação que tive ao terminar de ler Larva (lançado em 2015), o livro de estreia da escritora Verena Cavalcante.

Em 94 páginas, a autora nos leva a diversos cenários capazes de causar horror, espanto e, talvez, até uma certa identificação. Os contos narrados por crianças mostram diferentes contextos, mas em todos eles percebemos a ingenuidade sendo perdida, muitas vezes, de maneira abrupta. A narrativa de Verena prende o leitor, e o deixa sedento a ponto de provocar a leitura integral de uma só vez. Em uma realidade que promove livros e filmes de qualidade duvidosa, Larva se destaca por sua eficiência e já passa credibilidade o suficiente para provocar curiosidade sobre os trabalhos futuros da autora.

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Conversamos, por e-mail, com Verena. Ela nos revelou quais são seus autores nacionais  e filmes preferidos, além de opiniões acerca do mercado literário.

CdB: Olá, Verena. Você estreou na literatura em grande estilo. “Larva”, como muitos críticos afirmam, inaugurou um gênero dentro do horror brasileiro, ao apresentar contos narrados por crianças. Você pensa em explorar ainda mais esse estilo único de narrativa, ou a intenção é trilhar novos caminhos?

VC: Fico bastante lisonjeada quando críticos e resenhistas afirmam que meu livro de estreia inaugura um novo gênero literário, mas não creio que seja verdade. Outros autores brasileiros já enveredaram por esses caminhos de maneira tão ou mais significativa, como Antônio Carlos Viana, Lygia Fagundes Telles, José Mauro de Vasconcelos, Dinorath do Vale. A psique infantil e os caminhos tortuosos da infância são inerentes à vida e às reflexões humanas, portanto, nada mais natural que vê-los refletidos na literatura. Se “por explorar esse estilo único de narrativa” você se refere a manter o foco nos horrores da infância, a resposta é sim e não. A relação da criança com o mundo é algo que me fascina, que me vem automaticamente ligado a situações de beleza e horror extremos e a junção deles, símbolos que considero essenciais para minhas histórias.

CdB: Você costuma ler autores nacionais? Quais?

VC: Mais importante que escrever livros é, sem dúvida, lê-los. Orgulho-me de ser uma leitora dedicada. Assim sendo, leio sim, muitos livros nacionais. Aliás, meus autores (e livros) favoritos são, em grande maioria, brasileiros. Pensando nos escritores já consagrados e imortais, gosto muito de Raduan Nassar, Hilda Hilst, Jose J. Veiga, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, José Mauro de Vasconcelos, Antônio Carlos Viana, Marina Colasanti, Murilo Rubião. Levando em consideração os contemporâneos da literatura brasileira, leio muito Luiz Biajoni, Santiago Nazarian, Raphael Montes, Juliana Frank, Marco Severo, Luisa Geisler, Líria Porto, Rafael Sperling, Sheyla Smanioto, e tornei-me fã, recentemente, da estreante Nathalie Lourenço, autora do livro Morri por Educação, um dos melhores lançamentos do ano passado.

CdB: Com a internet, hoje o leitor tem a oportunidade de expressar suas opiniões diretamente ao autor. Em contrapartida, se for um escritor mais reservado e que prefere manter um certo distanciamento, isso pode ser desagradável. Considerando que nem todo mundo possui um filtro na hora de se manifestar e que o ódio gratuito é presença constante na internet, como você enxerga essa facilidade de comunicação entre autor e leitor?

VC: Nunca tive problemas com o ódio gratuito ou a falta de filtro de certos leitores, experimentei o contrário – as pessoas sempre me abordam educadamente e com palavras lindíssimas. O reconhecimento é importantíssimo e alimenta a vontade de escrever. Mesmo assim, não sei se acho boa essa questão de fácil acesso ao autor. Penso que isso empobrece a leitura. Sou da mesma opinião de Elena Ferrante – o livro precisa existir e ser significativo sem a presença do autor. Com as redes sociais, os autores estão aí, sendo pessoas, com suas vidinhas sem-graça, suas opiniões medíocres, e os leitores acabam se apegando mais às personas virtuais do que às obras que, sozinhas, deveriam ser autossuficientes.

CdB: O conto Macaúba apresenta uma narrativa com um vocabulário regional. Como foi a experiência de imersão no personagem para caracterizar sua vivência?

VC: É o dialeto no qual falam meus familiares e as pessoas do lugar no qual vivi boa parte da infância.

CdB: Você está entre os autores que compõem a antologia A Sociedade dos Corvos, lançada em 2017. Tem planos de lançar um novo livro em 2018? Seria um livro de contos ou um romance?

VC: 2017 foi um ano bom, pois além de fazer parte de A Sociedade dos Corvos, também tive um conto publicado na coletânea Nosotros – 20 contos latino-americanos, da Editora Oito e Meio, ao lado de gente muito bacana como Marcelo Mirisola, Myriam Campello e Maiara Líbano. Em junho de 2018, pela Editora Penalux, sai meu novo livro de contos, O Berro do Bode, composto por narrativas com uma pegada mais voltada para o horror-folclórico e o realismo-fantástico.

CdB: O mercado literário de hoje conta com ferramentas que podem fazer muita diferença, como os youtubers e as redes sociais. Embora isso pareça uma coisa boa, ainda temos um problema muito sério relacionado ao conteúdo, pois muitos sites e canais discutem os mesmos títulos, enquanto ignoram outros. Você vê isso como uma falha por parte dos veículos, por não facilitarem para que o leitor faça novas descobertas, ou por parte das editoras, por não fazerem uso eficaz desses adventos?

VC: Eu acho que as editoras ainda estão encalacradas nos meios mais antigos de divulgação e publicação. Por exemplo, são poucas no mercado que disponibilizam e-books em conjunto com livros físicos, o que talvez seja uma grande perda para a popularização de determinadas obras. Ao mesmo tempo, grande parte desses canais de literatura recebem dinheiro de autores para divulgarem seus trabalhos, o que já diminui o número de volumes a serem apresentados por aí, nesse mundo que é a Internet. São várias as questões, mas, na real, é um assunto que não me interessa e com o qual não me importo. Eu tenho essa concepção mística de que o livro encontra o leitor quando deve, na hora e no momento certo. É uma coisa de destino.

CdB: Qual o seu filme de terror preferido?

VC: O horror é meu gênero favorito no cinema, por isso, achei essa a pergunta mais difícil da entrevista. Como forma de protesto, acho justo que eu escolha três dos meus filmes favoritos: O Homem de Palha, de Robin Hardy; Os Inocentes, de Jack Clayton; e A Bruxa, de Robert Eggers.

Você pode adquirir Larva através dos sites da editora Oito e Meio ou da Livraria da Travessa.

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