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Resenha: Destinos e Fúrias – A autora que brincava de ser Deus

Destinos e Fúrias foi a leitura preferida do Presidente Obama em 2015, chamou atenção da vocalista do Florence and The Machines (que colocou em destaque em seu clube de leitura), vem recebendo uma enxurrada de elogios e chegou recentemente ao Brasil pela Editora Intrínseca.

Na obra, a autora Lauren Groff (dona de uma escrita impecável) brinca de Deus com seus personagens, apostando em uma escrita ambiciosa e pretensiosa, e, o resultado disso é uma obra gloriosa e memorável!

O que começa como uma obra lenta e preguiçosa, toma a forma de uma tempestade furiosa nos revelando o seu verdadeiro significado. Muito além dos livros sobre casamentos desastrosos que estamos acostumados a ver, Destinos e Fúrias nos faz refletir a ambiguidade do casamento, os papeis que o homem e a mulher exercem na relação e quais são as tantas regras invisíveis que assolam essa instituição.

“Entre a pele dele a dela havia o menor dos espaços, mal cabia ar, mal cabia a camada de suor que começava a esfriar. Mesmo assim, uma terceira pessoa, o casamento dos dois, se insinuara ali. ”

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Para começar, Destinos e Fúrias foge da visão romântica, abordando o amor e o casamento de uma forma completamente diferente. Na obra, o amor pleno e sem divergências é substituído por um amor complexo, dúbio e questionável. Provocante, a obra de Lauren Groff nos apresenta os jovens Lotto e Mathilde, de 22 anos, perdidamente apaixonados e destinados ao sucesso. Eles se conhecem nos últimos meses da faculdade e antes da formatura já estão casados. Seguem-se anos difíceis, mas românticos: reuniões com amigos no apartamento em Manhattan; uma carreira que ainda não paga as contas; uma casa onde só cabem felicidade e sexo bom. Uma década depois, o caminho tornou-se mais sólido. Ele é um dramaturgo famoso e ela se dedica integralmente ao sucesso do marido.

E não é porque este drama é dividido em duas partes (Destinos e Fúrias) e narrado por duas perspectivas (Lancelot e Mathilde), que ele deve ser comparado com ‘Garota Exemplar’. Muito pelo contrário! Nesta obra, vivemos 24 anos de casamento e conhecemos cada um dos protagonistas muito antes deles estarem juntos. Esta é uma história que vai além do amor e sexo (muito sexo). Ela nos mostra como um vê o outro, suas relações e segredos. Afinal, há sempre mais de um lado. Ninguém é genuinamente bom ou mal. Lotto e Mathilde são personagens ambíguos, complexos, profundos e mudam de acordo com o foco narrativo.

“Uma unidade, o casamento, feita de partes distintas. Lotto era barulhento e cheio de energia; Mathilde, quieta, observadora. É fácil acreditar que a metade dele era a melhor, a que dava o tom. É verdade que tudo o que ele vivera até então o forjara progressivamente para Mathilde. Que, se a vida dele não o tivesse preparado para o momento em que ela surgira, jamais haveria eles.”

Com um ritmo mais lento, romantizado, um tanto fantasioso e com uma narrativa linear, a primeira parte da obra intitulada ‘Destinos’ nos apresenta Lotto, um homem que é descrito por todos como uma pessoa ingênua e de coração bondoso. Este, que desde pequeno foi protegido em sua redoma, nasceu em uma família rica e viveu uma adolescência problemática, servindo como exemplo para ilustrar a meritocracia e o privilegio. O resultado disso é um homem preguiçoso, egocêntrico e vaidoso. Em destinos, vemos o amadurecimento do personagem, a construção de um casamento e o desenvolvimento de sua carreira.

“Sua avidez, sua profunda bondade, eram as vantagens do privilégio dele. Esse sono tranquilo de ter nascido homem, rico, branco, americano e nessa época próspera, quando as guerras que aconteciam eram longe de casa. Esse rapaz que ouviu desde o momento em que nasceu que podia fazer o que quisesse. Só precisava tentar. Poderia errar e errar, e todo mundo esperaria até ele acertar.”

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“O mundo era precário, Lotto aprendera. As pessoas podiam ser subtraídas dali devido a uma matemática equívoca e apressada. Se uma pessoa morria a qualquer instante, outra precisava viver!”

Já em Fúrias, somos arrebatados por uma narrativa surpreendente, que parece que estamos lendo um outro livro, acompanhando a vida de um outro casal. Com maestria, Groff nos mostra que tudo pode mudar, inclusive a sua escrita ao longo do livro. Fúrias serve para abrirmos os olhos e entender que quando estamos apaixonados, tendemos a ver apenas os nossos defeitos e entendermos os motivos pelo qual Mathilde é fria, sínica e calculista em suas ações. Sem dúvidas, Fúria compensa toda a lentidão da primeira parte do livro e é simplesmente genial.

A visão da autora sobre o casamento:

Em entrevista para O Globo, Lauren Groff dá sua opinião sobre o casamento e mostra que mesmo casada, ainda é bastante ambivalente em relação ao casamento:

— Na verdade, eu sou bastante ambivalente em relação ao casamento. Sou casada, mas continuo pensando que, historicamente, essa instituição é uma bagunça. É algo misógino, um desastre. Eu queria pensar sobre as regras para as mulheres, o que elas escolhem para elas e porque fazem essas escolhas para si mesmas. Eu não sabia se tinha algo interessante a dizer sobre o casamento. Mas quando você sente uma ambiguidade tão intensa sobre alguns aspectos da sua vida, aí você vê que, se pressionar bem forte, pode encontrar um romance — afirma ela.

E que o casamento não acontece apenas no espaço entre duas pessoas:

— Um casamento não é só intimidade, não acontece apenas no espaço entre duas pessoas. É também uma performance na frente de outras. Você vai a uma festa, vê um casal. O fato deles estarem juntos se torna a única ideia de quem eles são. Eu queria ter certeza que as diferentes ideias sobre o que era o casamento de Lotto e Mathilde estivessem refletidas na narrativa. Eu tenho uma alergia à simplicidade. Acredito que as coisas são incrivelmente complexas e complicadas. Há muita beleza na ambiguidade.

em entrevista para o jornal Folha de São Paulo, Groff diz que a versão simplista de um casamento é muito falsa e prejudicial:

— Casar foi a melhor decisão que já tomei, mas sou ambivalente quanto à instituição em si, enraizada na misoginia e no papel social subserviente atribuído à mulher. A versão simplista de um casamento é muito falsa e prejudicial. É mais fácil tomar o cônjuge como certo, não se perguntar quem ele é, no que se transformou. Caso alguém faça isso, planta-se uma crise.

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A influência do teatro na narrativa de Destinos e Fúrias:

Destinos e Fúrias tem uma narrativa um pouco pesada e difícil para quem está acostumado apenas com YA’s. A sonoridade e na estrutura presente no livro é uma característica das peças de Shakespeare, que serviram de inspiração para Groof construir os 24 anos de casamento de Lotto e Mathilde.

Assim como Shakespeare, Destinos e Fúrias é cômico e trágico ao mesmo tempo. Nos personagens, percebemos que as vozes dos personagens são muito distintas. Lotto, por exemplo conta com uma voz lírica e sonhadora, enquanto Mathilde é direta e áspera. Outro detalhe que revela a paixão de Groff e Lotto pelo teatro são as passagens do livro, que funcionam como esboços teatrais e cenas na forma de roteiro.

Ficha Técnica IMG_8991-750x600 Resenha: Destinos e Fúrias – A autora que brincava de ser Deus

Título | Destinos e Fúrias

Autora | Lauren Groff

Páginas | 368 páginas

Editora | Intrínseca

ISBN | 978-85-8057-914-7

Felipe Borba

Nasceu no Pará, cresceu no Maranhão e vive em Minas Gerais. Além de se considerar um explorador da natureza; Felipe é publicitário com especialização em Marketing Estratégico, é viciado em novas tecnologias, queria ser adotado pelo Neil Gaiman e tem mais livros do que dá conta de ler.