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Resenha: Morte e sedução tornam Maestra uma boa dica

Acredito que muito tempo se passou desde a última vez que escrevi sobre um livro. Não foram muitas sinceramente, mas aproveitando a deixa de falar de série e até teatro, decidi me aventurar com uma análise de Maestra, de L.S. Hilton, recém lançado pela editora Rocco.

Ao contrário do que o nosso editor de literatura Felipe Borba costuma fazer, com seu bom gosto, eu acredito que seja melhor não destacar nenhuma passagem do romance, já que as minhas opções obviamente seriam relacionadas às descrições sexuais bem picantes – as quais compartilhei com amigos pelo WhatsApp como maneira de recomendar o livro. Poderia repetir isso aqui, mas meus amigos já sabem que sou maluco. Os leitores não. Quer dizer…

A capa da edição possui um texto com uma recomendação do The New York Times que compara Maestra a Os Homens que Não Amavam as Mulheres e Garota Exemplar (curiosamente, ambos receberam adaptações recentes para o cinema sob direção de David Fincher). Concordo parcialmente com a comparação, até porque não li ainda nenhum volume da série Millennium. Mas posso afirmar com certeza que Maestra é como um irmão mais acabado de 50 Tons de Cinza, com o diferencial que temos uma pessoa que sabe escrever e não se aventura a falar de sexo como se estivesse se comunicando com leitoras da Capricho que acabaram de perder a virgindade. Hilton não enfeita ou transforma seus personagens em versões modernas de Romeu e Julieta. Existe uma frieza e um distanciamento excitante no seu texto e forma de detalhar a psicologia da protagonista e sua relação com sexo.

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Inclusive, uma análise da arte nos remete aos traços de um corpo feminino como metáfora para esse rasgo no envelope de proteção de alguma obra de arte. A cor vermelha já sugere luxúria e elementos provocantes, que de certo não faltam ao longo do livro.

Maestra foi traduzido para 32 países e antes mesmo do contrato para a trilogia literária ser assinado, L.S. Hilton já estava sorrindo de orelha a orelha por causa do acordo para as adaptações cinematográficas. A protagonista, Judith Rashleigh, é uma anti-heroína cheia de falhas de caráter, com traços de psicopatia e que se envereda numa jornada de vingança, enquanto se diverte usando homens para satisfazer a sua necessidade.

Personagens femininas assim ainda são incomuns, mas dadas as semelhanças com o mega hit 50 Tons de Cinza, é fácil entender toda essa aposta dos executivos de Hollywood. Não que Maestra seja uma aposta de sucesso comercial maior (certamente não é, e parte disso se deve ao fato da obra, mesmo com suas limitações, ser muito mais densa e bem desenvolvida do que qualquer parágrafo mais inspirado que E.L. James tenha escrito na vida), mas a oportunidade de ter uma obra “ousada” assim é muito bem vinda nos tempos atuais. Resta saber se os produtores conseguirão melhorar o livro ou apenas se manter no mesmo nível – o que já pode render um filme ok.

A trama conta a história de uma assistente de uma das principais casas de arte e leilões de Londres, que perde o seu emprego depois de descobrir uma fraude. Sem dinheiro, ela começa a trabalhar numa casa noturna (nada mal para quem já tinha um apetite sexual voraz e transava de graça com desconhecidos) e uma série de eventos a coloca no meio de uma conspiração.

O grande problema de Maestra é que a sua personagem, mesmo demonstrando uma evolução gradual para nos convencer que seu lado vingativo/furioso estava adormecido, parece se tornar uma psicopata de repente e com uma inteligência muito fora do normal para encontrar todas as respostas de seus conflitos. Até podemos aceitar a parte em que o lado familiar possa ter contribuído bastante para seu comportamento, mas a sensação é que as coisas estão fora de sintonia. Falta alguma coisa para tornar a obra realmente marcante. Além das já citadas descrições das transas, que excitam o leitor (ao contrário de 50 Tons de Cinza), ao mesmo tempo que contribuem para entendermos mais da própria personagem.

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Maestra pode render um longa-metragem bem superior ao seu livro, mas o fato é que esse é apenas o primeiro volume de uma trilogia e muita coisa ainda pode acontecer até mesmo para melhorar esse volume original. De qualquer forma, recomendo o livro para amantes de personagens femininas fora dos padrões idealizados pela tradicional família brasileira, quem gosta de ler sacanagem, e bons suspenses.

A minha próxima contribuição aqui no Buteco Literário será com A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas, novo romance de Irvine Welsh, autor de Trainspotting. Até lá!

Maestra-LS-02 Resenha: Morte e sedução tornam Maestra uma boa dicaFicha técnica

Título | Maestra
Autora | L.S. Hilton
Editora | Fábrica321 (selo da Rocco)
Idioma | Português
Especificações | 320 páginas

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.