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Buteco Literário

Resenha: O Espadachim de Carvão – Affonso Solano

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No princípio, Kurgala era mar, segundo consta nas Tábuas Dingiri e conforme o
sacerdote Barutir Ob explicou para o pequeno Adapak, de apenas quatro ciclos de idade.
E nesse mar sem fim nada mais existia além de seus senhores, os espíritos Abzuku e
Tiamatu. Até que um dia, os deuses Dingiri, Os Quatro Que São Um, desceram dos céus
e criaram vida em Kurgala. Irritados, os espíritos decidiram destruir tudo, retornando ao
que era. Um dos deuses foi enviado para convencê-los do contrário, porém, diante do
insucesso das tratativas, trancou Abzuku e Tiamatu em um imenso deserto de cristal.
Sua atitude foi reprovada por alguns dos outros deuses, o que levou a uma discussão de
seiscentos ciclos, até que Os Quatro decidiram se recolher para sempre em Suas Casas.
Sem a sabedoria dos deuses, Kurgala se tornou um mundo caótico.
Confesso não ser o público ideal para escritores de fantasia, mas por ser
consumidor de podcasts, como o Nerdcast, o Matando Robôs Gigantes e o
Rapaduracast, fiquei curioso para conhecer a escrita de Affonso Solano, criador de
conteúdo e participante dos programas citados. A curiosidade se cruzou com a
oportunidade e comprei, em uma tacada só, os dois volumes já publicados de O
Espadachim de Carvão, juntamente com o spin-off do segundo livro, Tamtul e
Magano e a Ameaça de Rumbaba. Entretanto, logo no início da leitura, deparei-me com
uma situação incômoda para leitores: a dificuldade em me interessar pela estória e me
preocupar com o protagonista.

“No mundo dos mortais, os pais por muitas vezes eram figuras heroicas
para seus filhos, além de projeções físicas de seus futuros. Para Adapak, apenas
metade disso era realidade.”

Adapak, o protagonista, é filho do deus responsável por aprisionar os senhores
de Kurgala. O jovem passou toda a sua vida em uma caverna, cercado pelos livros de
aventura dos irmãos Tamtul e Magano, que o ensinaram tudo o que ele conhece do
mundo exterior. Porém, quando criaturas misteriosas começam a persegui-lo, Adapak
precisa sair, em busca de respostas, por um universo totalmente diferente daquele de
suas leituras.
Semelhantemente ao leitor, Adapak começa o livro ignorando tudo o que há a
sua volta. Assim, Solano utiliza o aprendizado do personagem para nos expor a sua
mitologia. As espécies que habitam Kurgala, as unidades de medida, os idiomas, os
materiais utilizados para confecção de armas, as crenças, os deuses, a flora, a lua,
basicamente tudo foi criado do zero pelo autor. Porém, pelo menos no primeiro volume,
as características e as razões criativas do universo não são aprofundadas, soando, por
vezes, pouco naturais, como meras representações alegóricas de nossas próprias regras.

Os capítulos são intercalados de forma a fazer com que, tanto no presente quanto no
passado, sejamos carregados pela mão por toda a saga de conhecimento de Adapak, na
infância e na atualidade.

“Logo atrás do quinto anel, Adapak se ajoelhou, guardou a faca no cinto e
levantou com dificuldade uma membrana grossa e levemente transparente, quase
imperceptível a olho nu. Ele então prendeu a respiração e se enfiou por ela. Ali
dentro, o mundo deixou de ser caótico: o som do oceano revolto e dos gritos
apavorados tornou-se um ruído abafado e longínquo, ainda que assustador.”

Arrisco-me a dizer que o gamer, o jogador de RPG e o leitor de tramas
aventurescas irão ser mais tocados por O Espadachim de Carvão, que os
consumidores de alta fantasia. Adapak é um ser estranho, inocente, com a pele cor de
carvão, que sai por um mundo desconhecido, passando por suas fases, fugindo de
vilões, conhecendo personagens de todas as sortes (que surgem e desaparecem de uma
cena para outra) e enfrentando os chefões com uma técnica de espadachim interessantíssima (ponto alto da criação de Solano), como um legítimo herói de
videogame.

“Sentiu a brisa gelada soprar contra a pele absolutamente negra enquanto
passava a mão sobre a cabeça calva para enxugar o suor. Seus olhos brancos
vislumbraram a lua de Sinanna, brilhando vigilante na madrugada e única
testemunha do sangue derramado sob a sua luz.”

A dificuldade que tive em engrenar no contexto inicial foi amenizada, no meio
do livro, por um maior interesse de chegar ao seu final e descobrir o que realmente
estava acontecendo com Adapak. Os capítulos narrados na atualidade, com os conflitos
do protagonista, agradaram-me mais que os pretéritos, que expunham as regras de
Kurgala e sua História. Tal situação, acredito, não ocorrerá com os leitores mais
apaixonados por criação de mundos fantásticos. Apesar de haver relação com o Mito da
Caverna de Platão e uma clara influência da Jornada do Herói, O Espadachim de
Carvão tem o seu auge na simplicidade, no texto leve e limpo, e em ser uma boa homenagem aos clássicos de literatura de aventura.

 

Título: O Espadachim de Carvão

Autor: Affonso Solano

Editora: Casa da Palavra

Número de páginas: 256

Gênero: Ficção Fantástica

 

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Prazer! Sou a Ana.

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Prazer! Sou a Ana.

Aos 30 de setembro, vim ao mundo, parto natural, recebi o nome de Ana. Casa cheia. Eu, meus pais e irmãos. Tinha também o Floquinho e a Belinha, nossos peludos. Andei, falei, corri, brinquei, aprendi a escrever, como toda criança! Vivi uma infância feliz.

Ah, não! Espinhas na cara. Chegou a menarca? Que saco! Conflitos, insegurança, noias na cabeça, raiva, brigas, tédio… odeio estudar! Ainda perguntam “qual é a faculdade que quer fazer?” Vestibular, dezenas de apostilas, horas de estudos. Aprovada! Agora sou universitária. Faculdade, liberdade, a turma de amigos. Finalmente, sou “de Maior”. Posso tudo! Tenho os passaportes da vida adulta: CNH, diploma e carteira de trabalho.

Trabalho, trabalho, trabalho, contas a pagar, muitas responsabilidades. Bem-vinda à maturidade! Onde fica a diversão? Prazeres? Só por algumas horas. Trânsito, estresse, injustiças, puxa-saco promovido. Já te falei que odeio meu chefe?! Estudei tanto para fazer isso?! Não quero mais esse emprego. Se eu pedir as contas, o que vou fazer? A vida tá um saco! Tô tão triste. Nada tem sentido. Comecei a terapia. Desacelerei, mudei de estilo de vida, parei de dar bola para minha mente. Ela me deixava maluca. A vida tá legal. Acho que conheci o amor da minha vida. Vamos nos casar? Filhos? Não! Quero independência, um amor leve e do meu jeito. Ele no seu canto e eu no meu recanto. Assim está tão bom!

Silhouette of little girl raising hand to freedom happy time

Olho no espelho e ainda reluto a acreditar: estou velha! Os anos passaram tão rápido. Demoro para perceber que aquelas rugas e as manchas na pele são minhas! Minhas? Não é possível! A realidade só toma corpo quando lembro das despedidas. Despedir nunca foi fácil. Lembrar de quem já partiu me deixa mal. Melhor mudar de assunto. Assim, sem perceber, um dia, o corpo não acompanhava mais a mente. Esse descompasso causou alguns acidentes. No último tive de fazer dezenas sessões de fisioterapia. Era isso ou entrar na faca. Deus me livre! Ufa, ainda bem que meu corpo ajudou. Conversava com minha perna todo dia “pode tratar de curar ou prefere passar por uma cirurgia e ficar com uma cicatriz?” Ela, como filha obediente, foi gradativamente melhorando. De resto, tudo vai bem. A cabeça às vezes dá uns apagões. Alguns até desconcertantes. Em reuniões familiares, noto os olhares entre os mais jovens como que dizendo “será que é Alzheimer?” Dou risada por dentro. Sinto vontade de falar “não tô gaga ainda, só velha mesmo!”. Em casa, os dias passam, sem nenhum compromisso marcado, sem pressa, não há chefe me esperando, marido aguardando o almoço ficar pronto, filho perguntando se vi a calça que ele tanto gosta. Não, não pensem, que a minha vida é triste e solitária. Essa é a vida que escolhi. Nem pior ou melhor, mas a que escolhi!

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Vó Raissa

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Desde a liberação de novas áreas de assentamento na Cisjordânia, a Intifada voltara furiosa. Os confrontos eram diários e a violência crescente.

Meus irmãos, Ahmed e Khaled, já não iam à aula há três dias, o tempo inteiro nas ruas do bairro, se escondendo atrás dos carros e arremessando pedras nas patrulhas israelenses. No início eles respondiam com gás lacrimogênio, mas depois que alguns soldados israelenses se feriram, balas de verdade passaram a ser utilizadas provocando mortes. Sem choro; seria bobagem mesmo.

Morávamos com nossa avó Raissa desde que nossos pais se foram, nem vou detalhar como. Seria bobagem mesmo.

Vó Raissa passava o dia todo na cozinha fazendo nossas refeições. Fazia comida e milagres com a precariedade de recursos e mantimentos que tínhamos, alheia a tudo além de suas panelas. Parecia uma sombra. Eu nunca percebera, o mais minimamente, o que se passava em sua cabeça. Nem tentava, seria bobagem mesmo.

E eu, estudava o Alcorão. Há três anos entrara para a Escola Corânica e o Sufi que me orientava, um verdadeiro homem santo, à medida que se entusiasmava com meus progressos, ficava cada vez mais exigente. Tinha três Suras para estudar por semana e, acredite, isso é muita coisa se você quer mesmo penetrar no seio de Alá.

Minha avó via meus irmãos saírem toda manhã com a cabeça coberta pelo Keffiyeh e só voltarem, já tarde da noite, sempre com alguns ferimentos. Ela não dizia nada, seria bobagem mesmo.

Também me via lendo o Livro horas a fio e igualmente não dizia nada. Sua cabeça era um mistério.

Certo dia, tão similar aos anteriores, eu estava sozinho em casa estudando o Sura do Trovão, um dos mais difíceis, e ela passou por mim, tocou muito levemente minhas costas e disse:

“Escolha uma pedra, coloque-a na mão e dê a volta no quarteirão”.

Fechei o Livro sagrado e obedeci imediatamente.

Só Alá é Deus e Maomé, o seu Profeta.

SOBRE O AUTOR

JUSTINO VIEIRA – Engenheiro de Estruturas, Professor de
Engenharia na UFF e Arquitetura na PUC-RJ, leitor obsessivo,
e que passou a vida inteira às voltas com números e contas,
mas aprendeu com Drummond que “a luta com palavras é a luta mais vã”

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Marcas desumanas em paredes brancas

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Os arbustos pareciam distantes. As colinas, de um verde jovial, reluziam ondulantes no horizonte. Algumas folhas regiam a sinfonia do vento com clássica doçura, enquanto outras sacolejavam e insistiam na segurança da raiz. O riacho conversava com as pedras em tom ameno, recitando versos de ternura. O céu, mesclado de azul e cinza-claro, se modelava e se deformava, adaptando a manhã aos desejos da natureza.

A janela de vidro ainda tinha sinais embaçados da madrugada. Gotas solitárias escorriam de uma madeira a outra. A temperatura interior estalava na lenha contorcida da lareira. O clima parecia aconchegante, apesar de gélido. O sol, ainda parcialmente desperto, e sabendo de seu poder, evitava lançar seu charme de forma abrupta sobre o gramado. As árvores respiravam pausadamente, trabalhando sem pressa.

Ao lado da lareira, as estantes enfileiravam e organizavam o repertório de uma Era. Os livros, sem lar vertical, se amontoavam pelos cantos em lógicas definidas. Dois deles, por motivos distintos, repousavam na mesinha de centro, juntos a riscados e rabiscos. A gaveta emperrada guardava segredos de décadas. No criado-mudo, fotografias e recortes de jornais antigos contavam mentiras de povos perdidos.

Os lençóis, trocados recentemente, ostentavam uma brancura quase transparente. Nas cortinas de seda cara imperava um branco fosco, duro e intransponível. As paredes eram sujas, manchadas com marcas humanas e desumanas. Pouco era possível recordar do tempo em que elas também eram brancas. Do tempo em que a janela permanecia aberta e o coração permanecia vívido. Do tempo em que o infinito aparentava estar mais distante que os arbustos das colinas. Do tempo em que o infinito estava do lado de lá, das gotas solitárias.

Suspirei.

Tudo estava branco novamente.

 

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