Resenha: O Último Adeus - Um livro sobre perdas, laços e tempo. | Cinema de Buteco
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Resenha: O Último Adeus – Um livro sobre perdas, laços e tempo.

“Pelo menos, estou determinada a ser direta. Meu irmão se matou. Na nossa garagem. Com um rifle de caça. Isso faz com que pareça o jogo mais cruel do mundo, mas é isso.”

Sabe quando seu melhor amigo está passando por algum problema e te manda aquela mensagem pedindo por ajuda ou precisando de algum conselho? Foi assim que me senti em relação a personagem Lex, protagonista de O Último Adeus, escrito por Cynthia Hand e publicado pela DarksideBooks no Brasil. O livro conta a história de uma garota de 18 anos que está passando por um momento bastante complicado em sua vida: seu irmão mais novo acaba de cometer suicídio, o relacionamento com seu pai não é dos melhores desde que ele e sua mãe se separaram e ela está em processo para entrar em uma das mais importantes universidades dos Estados Unidos.

No meio dessa rotina agonizante em que nada melhora, Lex e sua mãe começam a sentir a presença do irmão, e, para curar essa perda trágica, Lex passa a frequentar a terapia mesmo sem muita crença no tratamento. Como parte das atividades, seu terapeuta recomenda que a garota escreva um diário para tratar seus sentimentos retraídos. E é nesse momento que você se envolve com Lex, assim como se envolve na vida do seu melhor amigo.

“Ele não escreveu um bilhete ao nosso pai. Nem a nenhum de seus amigos. Nem a mim. Só deixou essas sete palavras escritas em um Post-it amarelo, colado no espelho do quarto. Sua única explicação.”

E por mais que o livro aborde a temática suicídio, acredito que ele tem muito mais a nos ensinar do que imaginamos. Sendo assim, separei três palavras que podem definir este livro: perdas, laços e tempo.

Perdas:

Em fevereiro de 2011, Paulo Coelho escreveu em sua coluna no Globo um texto incrível  a respeito da morte (para ler, basta clicar aqui) e um dos trechos ele fala: “Se as pessoas pensassem um pouco mais na morte, não deixaria jamais de dar o telefonema que está faltando. E seriam um pouco mais loucas.” Essa frase se encaixa  perfeitamente com o livro. Após seu irmão cometer suicídio, Lex se culpa o tempo todo achando que poderia ter evitado toda a tragédia. E para piorar, ela não consegue se lembrar de quais foram as últimas palavras que disse ao irmão.  Mas o livro não fala da perda se relacionando apenas com a morte. Lex também perde seu pai quando ele passa a morar fora de casa com a secretária com quem traiu sua mãe. Por orgulho ou pela incapacidade de saber perdoar, essa perda afeta sua vida diariamente.

“Se eu desaparecesse um dia, desaparecesse de verdade e nunca mais voltasse, ninguém notaria. ”

Outra perda que acontece na vida da protagonista (e também nas nossas) são as amizades de infância. Assim como Lex, é bem comum comum nós perdemos alguns amigos que juramos amizade eterna e hoje em dia, não sabemos por onde andam ou o que estão fazendo. E quando nos encontramos pela vida, percebemos que mesmo depois de tanto tempo, ainda temos muito em comum e somos mais íntimos do que imaginamos. Surpreendentemente, essas pessoas podem ser importantíssimas em nossas vidas e nos ajudar quando menos esperamos. Isso acontece em O Último Adeus e vai te fazer refletir sobre as amizades perdidas com o tempo.

“Sei lá, como pode haver algo como insanidade em um mundo que enlouqueceu completamente? ”

Laços:

Durante toda a minha leitura de O Último Adeus, uma frase do livro Extraordinário, de R.J Palacio, surgia em minha mente: “Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil.” Afinal, todo mundo que a gente encontra na vida está travando uma batalha que você não sabe nada a respeito. Por isso, seja gentil com todo mundo. Sempre!

A relação entre irmãos representa um laço benéfico, forte e muito especial, com potencial para durar a vida toda. Com Lex e Ty não era diferente. Era um relacionamento de cumplicidade e confiança, mas chegou ao fim antes do esperado. Assim como o relacionamento com o pai. E assim como suas amizades.

As vezes precisamos deixar o orgulho de lado, ouvir o outro lado e tentar compreender. Compreender que a vida de ninguém é fácil. Que nossas decisões têm consequências e é preciso lidar com tudo isso enquanto sobrevivemos. Tentar entender as coisas de uma forma racional, buscar respostas, justificativas e certezas não passa de uma experiência vazia e, na maioria dos casos, desgastante. É preciso saber reconhecer que algumas dessas coisas não têm resposta.

“Você não poderia tê-lo salvado. Ninguém além dele mesmo poderia tê-lo salvado.  E você provavelmente está certo. Ele não ligou para ser salvo. Ligou para dar o último adeus.”

Tempo:

Victor Hugo disse uma vez que “O tempo não só cura, mas também reconcilia”. Essa frase consegue mostrar que para Lex e sua mãe não será diferente. Conseguir curar uma perda tão grande como a de um filho/irmão leva tempo. Conseguir perdoar um pai por sair de casa e ‘acabar com uma família’ não é uma tarefa tão simples. Conseguir reconquistar os amigos perdidos pelo tempo, é preciso dedicação. Conseguir alcançar seus objetivos e passar em uma universidade renomada, é preciso esforço.

 “Sua vida não acabou. Isso é babaquice. (…). Então, pare de dizer que sua vida acabou. Não está nem na metade. E sim, seu filho morreu, e é terrível, e dói, mas não é sua culpa. E sabe de uma coisa? Todo mundo morre e todo mundo perde pessoas amadas – todo mundo – e isso não é desculpa para você morrer, porra. Amo você, e preciso que você seja minha mãe, e preciso que você tenha uma vida. Então, supere.”

Ao longo da trama, Lex sentia um buraco abrindo em seu peito sempre que se lembrava do irmão. Para piorar, parecia que todos ao seu redor a olhavam de forma complacente e buscavam palavras de incentivo para justificar a decisão de Ty, sufocando-a cada vez mais. Lex sabia que esconder essa dor era fácil. Difícil mesmo era deixar de sentir. Para alguns, o tempo ameniza, mas não cura. A novidade preenche, mas não substitui.  Será que algum momento, a vida de Lex conseguirá se ajustar?

O Último Adeus é um livro apaixonante e fala sobre o que vem depois da morte, quando todo mundo parece estar seguindo adiante com sua própria vida, menos você. E como disse no início, o que deixa a leitura ainda melhor, é que Lex busca uma forma de lidar com seus sentimentos e tem apenas nós, leitores, como amigos e confidentes.

“Não me lembro quais foram minhas últimas palavras ao Ty. Provavelmente algo como Até mais, quando saí de manhã. Não consigo me lembrar. Não foi significativo, é só o que sei. Nunca fomos uma daquelas famílias que dizem “eu te amo” no fim de cada conversa. Os pais de Steven fazem isso. Quando ele liga para dizer quem vai se atrasar ou algo assim, ele sempre termina dizendo “Eu também te amo”. Mesmo que ele vá ve-los em 10 minutos. Eu achava isso meio bobo. Se você diz algo com muita frequência, a coisa perde o sentido, não? Mas agora, compreendo. Se o impensável acontecer – um acidente de carro, um ataque do coração, o que quer que seja – pelo menos, você vai saber que suas últimas palavras foram positivas. Há segurança nisso. Um conforto.”

Ficha TécnicaO-Ultimo-Adeus-Cynthia-Hand-Darksidebooks-Cinema-de-Buteco-4 Resenha: O Último Adeus -  Um livro sobre perdas, laços e tempo.

 

Título | O Último Adeus

Autora | Cynthia Hand

Páginas | 368 páginas

Coleção | DarkLove

Editora | DarkSide Books

Felipe Borba

Nasceu no Pará, cresceu no Maranhão e vive em Minas Gerais. Além de se considerar um explorador da natureza; Felipe é publicitário com especialização em Marketing Estratégico, é viciado em novas tecnologias, queria ser adotado pelo Neil Gaiman e tem mais livros do que dá conta de ler.