Resenha: A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas – Irvine Welsh

Trainspotting é um dos meus filmes favoritos (foi eleito pela nossa redação como um dos melhores lançamentos de 1996) e sinto muita vergonha em admitir nunca ter lido o romance que originou a produção de Danny Boyle. Na verdade, até então, eu nunca havia lido nada do escritor escocês Irvine Welsh. Mudei esse cenário infeliz com o recente A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas, publicado pela editora Rocco.

O romance conta a história de uma personal trainer maníaca que evita um assassinato numa ponte e tem toda a sua ação heróica registrada pela câmera do celular de uma artista gordinha depressiva. As duas logo começam uma estranha aproximação que transforma para sempre as suas vidas.

Falando assim nem parece que se trata de um livro do mesmo cara responsável pela loucura de Trainspotting (que repousa na minha estante aguardando o dia em que será aberto), mas basta iniciar a leitura para notar as características mais famosas de Welsh: a linguagem cheia de palavrões e gírias, o sexo safado, violência, e personagens incrivelmente malucos.

Lucy é a personal trainer (e também a nossa narradora) completamente obcecada em manter o seu corpo em forma. Ela é impiedosa e trata com desdém cada uma das “vacas” ricas que entram em sua academia decididas a perder peso. Welsh é inteligente ao transformar essa compulsão de Lucy em se cuidar numa crítica velada ao ambiente de academias e de padrões de beleza, que muitas vezes nos transformam em criaturas rasas com o único intuito de ficar bem na fita para garantir satisfação sexual vazia em outros corpos sarados.

Lena, a artista gordinha responsável por transformar Lucy numa sub-celebridade na cidade, aos poucos ganha mais força no desenvolvimento da história. O escritor vai pincelando pequenos detalhes sobre a sua vida pessoal e isso nos garante duas personagens femininas bem desenvolvidas e que podem entrar no hall de principais criações da carreira de Welsh. A vida de Lena é um grande drama causado por suas relações familiares ruins, timidez e amantes que usaram e abusaram de seu talento.

O título faz um paradoxo curioso ligando as duas personagens. Welsh diverte seu leitor ao mostrar uma sub-trama com um drama sensacionalista que domina a programação da televisão: a relação de duas gêmeas siamesas que fica estremecida porque uma delas se revolta com a irmã namorando. A situação é recheada de detalhes bizarros hilários e aparece em muitos momentos da narrativa. Lucy e Lena compartilham não apenas nomes de quatro letras, duas sílabas e iniciadas pela mesma consoante, mas possuem personalidades tão opostas que essa aproximação se torna uma experiência enriquecedora para ambas. E Welsh explora tudo isso.

A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas é um prato cheio para quem gosta de ler livros que criticam a sociedade de consumo e sua superficialidade. Welsh não economiza nas críticas e mostra o ridículo pessoal presente em cada um de nós, mas consegue fazer isso sem diminuir o nosso interesse ou atração pelas duas protagonistas. Uma pena que a obra seja irregular e não consiga sustentar o seu começo arrebatador. A impressão é que Welsh vai pisando no freio pensando numa forma otimista e (até apaixonada) de encerrar a história. Felizmente, estamos falando de um autor competente que conhece bem a arte das palavras e isso evita um fiasco.

Depois de retratar o vício em heroína em Trainspotting e voltar a isso em outras obras, Welsh acerta em cheio ao contar uma história que se passa nos EUA e que também gira em torno de vícios e compulsões. Seus protagonistas são completamente malucos e descobrimos o quanto treinadores obcecados com o corpo perfeito podem se transformar em autênticos psicopatas sem sentimentos apenas para ficarem gostosos na frente do espelho. Meio assustador. Quase um filme de terror, mas com um humor negro irresistível.

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Autor: Irvine Welsh

Tradução: Paulo Reis

Editora: Rocco

Preço: R$ 48,00

Especificações: 416 pp. | 16×23 cm

ISBN: 978-85-325-3028-8

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.