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Resenha: Wicked – Gregory Maguire

Em março estreou nos palcos brasileiros Wicked, um dos mais bem sucedidos musicais da Broadway, há 13 anos consecutivos em cartaz (o 11º musical da Broadway a mais tempo em cartaz na história) e que nos apresenta um prelúdio para o clássico infantil O Mágico de Oz. Aproveitando a deixa, a editora Leya republicou no Brasil o primeiro livro da saga The Wicked Years, do autor americano Gregory Maguire, cujo primeiro livro serviu de inspiração para a peça.

Idealizado pelo compositor Stephen Schwartz (mais conhecido pela trilha sonora de animações como PocahontasO Corcunda de Notre Dame O Príncipe do Egito), o musical é uma bela e humorada história de empoderamento, auto-estima, aceitação e amizade, aliada a uma trilha sonora singular e atemporal, elementos esses que contribuíram para torná-lo o clássico moderno que é hoje, com uma legião de fãs ao redor do mundo (sendo eu um desses fãs). Portanto, eu não poderia deixar de ler o livro que originou tudo. Mas, para minha surpresa (uma ótima e muito bem-vinda surpresa) livro e musical são bem diferentes.

Para os que não estão familiarizados com nenhuma das duas obras: Wicked conta a história de Elphaba, uma garota inteligente e introvertida que, por um truque do destino, nasceu com a pele verde e, eventualmente, se torna a famosa Bruxa Má do Oeste, vilã da obra de L. Frank Baum (o nome Elphaba foi idealizado por Maguire como uma brincadeira com as letras iniciais do nome de Baum). A história acompanha Elphaba desde sua juventude na universidade até seu suposto “reinado de maldade” como a famigerada bruxa, esclarecendo seu passado e nos trazendo uma perspectiva diferente sobre o que realmente aconteceu quando Dorothy chegou em Oz.

“Ela renasceria, sempre renasceu. O clima político sofrido de Oz a abateu, a ressecou, a descartou – como uma semente, ela pairou a esmo, aparentemente seca demais para criar raízes, mas a maldição recairia no mundo de Oz, e não sobre ela. Embora Oz tivesse dado a ela uma vida árdua, tinha também a tornado independente, não tinha?”

Para os acostumados com o universo criado por Baum, seja através do livro ou do filme de 1939, fica difícil imaginá-lo não sendo um lugar alegre, colorido (em Technicolor para ser mais específico) e amistoso, mas a Oz de Maguire é exatamente o oposto; com exceção da magia e de demais elementos fantásticos, Oz não passa de um reflexo do nosso mundo: racismo, desigualdade social, fundamentalismo religioso, economia instável, sistema político caótico… Esses são apenas alguns dos problemas presentes no cotidiano dos ozianos. E no meio desse cenário nem um pouco amistoso vive Elphaba, filha de um sacerdote unionista (a principal religião de Oz) que, por ter nascido com a pele verde, sempre foi menosprezada e humilhada, tanto por sua família quanto pelas demais pessoas ao seu redor.

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“É claro que, se levarmos em conta o que dizem, ela é a irmã que sobreviveu e ficou louca – disse o Leão – Que bruxa. Psicologicamente deformada, possuída por demônios. Insana. Uma figura desagradável.”

Elphaba é uma personagem completa: complexa e problemática como todo ser humano. Apesar de todos os personagens do livro também serem assim, com Elphaba isso se torna muito mais evidente para o leitor(a) pois, sendo a heroína da história, supostamente é para ela que devemos sempre torcer e, por mais que saibamos que ela não passa de uma vítima de uma sociedade preconceituosa, corrupta e intolerante, nos pegamos muitas vezes questionando seus atos, e acompanhar sua mente problemática e excêntrica só enriquece a leitura. Não podemos esquecer da sua inteligência, algo notável não só no seu modo de agir, mas também em suas reflexões sobre a vida e o mundo.

“Eu nunca uso as palavras humanista ou humanitário, pois me parece que ser humano significa ser capaz dos crimes mais hediondos da natureza.”

A riqueza de detalhes de Maguire para descrever Oz também merece destaque. Não espere encontrar descrições precisas de lugares, lendas e criaturas como nos livros de J.R.R.Tolkien por exemplo, pois nem mesmo os próprios ozianos parecem conhecer Oz realmente, tanto que existem inúmeras teorias sobre como o mundo foi criado, sobre Deus, sobre o surgimento dos animais falantes (chamados de Animais, com o A maiúsculo), entre outras coisas. A riqueza de detalhes que me refiro encontra-se exatamente nos elementos que acabei de citar. Tudo é extremamente mundano e ordinário; seja nas discussões e questionamentos sobre a vida (tanto no aspecto natural/terreno quanto no sobrenatural/divino), seja nos problemas das pessoas e o modo como elas reagem a eles, seja na ignorância e na falta de compreensão dessas mesmas pessoas ao não conseguir conceber o diferente e tratá-lo com hostilidade e intolerância: tudo isso faz com que você esqueça na maior parte do tempo que está lendo um livro de fantasia. E apesar de causar estranheza no início, essa abordagem inusitada te faz ficar cada vez mais fascinado com esse universo complicado e por vezes espantoso.

Mas o maior triunfo do livro sem dúvida são as reflexões sobre a natureza do bem e do mal. Nenhum personagem é unilateral quando se trata de caráter, e isso faz com que tanto eles quanto o leitor(a) questionem e duvidem de seus pensamentos e ações o tempo inteiro. Maguire tenta mostrar através da história de Elphaba que bem e mal não são esses conceitos definitivos que nos ensinaram, que na vida real as coisas são muito mais complicadas do que parecem, e que depende de nós termos a sabedoria e o discernimento necessários para tentar compreender tudo isso. Durante vários momentos parei a leitura e disse para mim mesmo: “Meu Deus, isso faz muito sentido.”

“Glinda usava suas contas de purpurina, e você usava sua aparência exótica e sua história, mas vocês não estavam fazendo a mesma coisa, tentando maximizar o que tinham para conseguir o que queriam? As pessoas que se dizem más normalmente não são piores do que o resto de nós. – Ele surpirou. – É com as pessoas que se dizem boas ou melhores do que o resto de nós que devemos nos preocupar.”

Wicked é o tipo de livro que te deixa intrigado(a), incomodado(a), desconfortável e em alguns momentos inconformado(a), como toda boa obra de arte, e isso torna sua leitura obrigatória. E felizmente para nós fãs da versão musical, nenhum dos dois é melhor ou pior; ambas obras se completam. A peça pode ser mais despretensiosa e bem-humorada e não ter tantas críticas sociais e políticas, mas a mensagem de não se conformar com injustiças, não se dar por vencido e tomar uma atitude está bem presente, principalmente através da música “Defying Gravity”, em que Elphaba decide não ser manipulada por mais ninguém e começa a agir por conta própria (que cena maravilhosa…).

Ficha Técnicawicked-capa-leya-experimento42

Título | Wicked

Autor | Gregory Maguire

Editora | LeYa

Idioma | Português

ISBN | 9788544103890

Especificações | 496 páginas

Lucas Victor

Estudante de Produção Multimídia, nerd e escritor de contos inacabados que ninguém lê. Percebeu que era cinéfilo aos 4 anos, quando estragou um vídeo cassette assistindo A Bela e a Fera sem intervalos, e desde então o vício só aumentou. Prefere DC à Marvel (fato pelo qual é extremamente criticado) e seu maior objetivo é escrever um episódio de Doctor Who.