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Buteco Literário

Resenha: Tristão e Isolda

Esta lenda celta é uma história de amor encoberta com um toque gracioso de fantasia. Confira a visão da Juliana Vannucchi sobre uma obra que atravessa gerações encantando a todos.

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Conheci Tristão e Isolda através do filósofo Schopenhauer. Não que eu tenha me deparado com qualquer referência a essa história nas obras do pensador alemão. Na realidade, é que os estudos de Schopenhauer, guiaram-me até Nietzsche, que por sua vez, me fez conhecer o compositor Richard Wagner, e este me encantou com uma de suas mais célebres óperas, que no caso, chama-se Tristão e Isolda.  Por favor, encare essa introdução feita até o momento, como um relato pessoal e uma maneira (assumida) de tentar lhe apresentar e/ou aproximá-lo de algumas boas referências filosóficas e artísticas.

Tristao e Isolda 04 cinema de buteco

Pronto. Agora podemos prosseguir o texto focando-o em seu aspecto principal, que é a história do cavaleiro Tristão e da princesa Isolda, a Loura. Esta obra consiste numa lenda celta e seu criador (ou criadores) é desconhecido. Apesar disso, o que sabia-se sobre o conto foi sendo traduzido e organizado ao longo do tempo por vários autores diferentes, e assim, Tristão e Isolda imortalizou-se.

Esta é uma história de amor encoberta com um toque gracioso de fantasia. Ela é composta por um herói e uma mocinha que se apaixonam. Clássico e aparentemente clichê. Ah, claro, para confirmar o perfil supostamente enlatado, existe um vilão que assombra o casal. Só que este vilão foge de estereótipos e aqui, portanto, entramos num conto criativo, impactante e sublime, já que este grande vilão trata-se do próprio amor que existe entre o casal. Este sentimento é absolutamente impossível de ser concretizado. Tristão era um fiel e virtuoso cavaleiro da Cornualha. Servia seu querido tio e rei, Marcos.

Tristao e Isolda 03 cinema de buteco

Certa vez, a pedido do tio, viajou em busca de Isolda para levá-la à sua terra com objetivo de que ela se tornasse esposa do rei Marcos e rainha da Cornualha. Mas durante o caminho, por uma infelicidade (ou felicidade?) do destino, Tristão e a princesa Isolda tomam uma poção mágica que desperta nelas um intenso, imediato e eterno amor. Porém, não o cavaleiro não quer decepcionar seu tio. Isolda não pertence a ele. Mas é dificultoso lutar contra seus sentimentos.

Dentro deste trágico quadro de acontecimentos, os amantes não podem viver juntos, mas se eles estiverem separados, também não sobrevivem, pois foram vítimas de uma poção mágica que os mantém em encantamento e paixão eterna. Uma situação complexa, eu sei. Aliás, é um amor verdadeiramente metafísico, pois é intangível. O sentimento não é suficiente.

Tristao e Isolda 01 cinema de buteco

Logo, através desse rebuliço que conduz a lenda, não há mais nada que a torne previsível. Muito pelo contrário, conforme se segue a leitura, cada vez menos sabe-se que rumo a história tomara, já que fica cada vez mais claro que essa narrativa traduz a existência de um amor trágico e que dificilmente terminará com um final feliz.

Recomendo a leitura por se tratar de uma lenda antiga, que inspirou e encantou muitas mentes, e que sempre continuará despertando emoções intensas em seus leitores.

Tristao e Isolda 02 cinema de buteco

Ficha Técnica

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Título | Tristão e Isolda Coleção Obra-prima De Cada Autor

Autor | Anônimo – Lenda Medieval Celta de Amor

Editora | Martin Claret

Idioma | Português

ISBN | 8572326340

Especificações | 134 páginas/ 1ª Edição – 2006

 

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Prazer! Sou a Ana.

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Prazer! Sou a Ana.

Aos 30 de setembro, vim ao mundo, parto natural, recebi o nome de Ana. Casa cheia. Eu, meus pais e irmãos. Tinha também o Floquinho e a Belinha, nossos peludos. Andei, falei, corri, brinquei, aprendi a escrever, como toda criança! Vivi uma infância feliz.

Ah, não! Espinhas na cara. Chegou a menarca? Que saco! Conflitos, insegurança, noias na cabeça, raiva, brigas, tédio… odeio estudar! Ainda perguntam “qual é a faculdade que quer fazer?” Vestibular, dezenas de apostilas, horas de estudos. Aprovada! Agora sou universitária. Faculdade, liberdade, a turma de amigos. Finalmente, sou “de Maior”. Posso tudo! Tenho os passaportes da vida adulta: CNH, diploma e carteira de trabalho.

Trabalho, trabalho, trabalho, contas a pagar, muitas responsabilidades. Bem-vinda à maturidade! Onde fica a diversão? Prazeres? Só por algumas horas. Trânsito, estresse, injustiças, puxa-saco promovido. Já te falei que odeio meu chefe?! Estudei tanto para fazer isso?! Não quero mais esse emprego. Se eu pedir as contas, o que vou fazer? A vida tá um saco! Tô tão triste. Nada tem sentido. Comecei a terapia. Desacelerei, mudei de estilo de vida, parei de dar bola para minha mente. Ela me deixava maluca. A vida tá legal. Acho que conheci o amor da minha vida. Vamos nos casar? Filhos? Não! Quero independência, um amor leve e do meu jeito. Ele no seu canto e eu no meu recanto. Assim está tão bom!

Silhouette of little girl raising hand to freedom happy time

Olho no espelho e ainda reluto a acreditar: estou velha! Os anos passaram tão rápido. Demoro para perceber que aquelas rugas e as manchas na pele são minhas! Minhas? Não é possível! A realidade só toma corpo quando lembro das despedidas. Despedir nunca foi fácil. Lembrar de quem já partiu me deixa mal. Melhor mudar de assunto. Assim, sem perceber, um dia, o corpo não acompanhava mais a mente. Esse descompasso causou alguns acidentes. No último tive de fazer dezenas sessões de fisioterapia. Era isso ou entrar na faca. Deus me livre! Ufa, ainda bem que meu corpo ajudou. Conversava com minha perna todo dia “pode tratar de curar ou prefere passar por uma cirurgia e ficar com uma cicatriz?” Ela, como filha obediente, foi gradativamente melhorando. De resto, tudo vai bem. A cabeça às vezes dá uns apagões. Alguns até desconcertantes. Em reuniões familiares, noto os olhares entre os mais jovens como que dizendo “será que é Alzheimer?” Dou risada por dentro. Sinto vontade de falar “não tô gaga ainda, só velha mesmo!”. Em casa, os dias passam, sem nenhum compromisso marcado, sem pressa, não há chefe me esperando, marido aguardando o almoço ficar pronto, filho perguntando se vi a calça que ele tanto gosta. Não, não pensem, que a minha vida é triste e solitária. Essa é a vida que escolhi. Nem pior ou melhor, mas a que escolhi!

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Vó Raissa

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Desde a liberação de novas áreas de assentamento na Cisjordânia, a Intifada voltara furiosa. Os confrontos eram diários e a violência crescente.

Meus irmãos, Ahmed e Khaled, já não iam à aula há três dias, o tempo inteiro nas ruas do bairro, se escondendo atrás dos carros e arremessando pedras nas patrulhas israelenses. No início eles respondiam com gás lacrimogênio, mas depois que alguns soldados israelenses se feriram, balas de verdade passaram a ser utilizadas provocando mortes. Sem choro; seria bobagem mesmo.

Morávamos com nossa avó Raissa desde que nossos pais se foram, nem vou detalhar como. Seria bobagem mesmo.

Vó Raissa passava o dia todo na cozinha fazendo nossas refeições. Fazia comida e milagres com a precariedade de recursos e mantimentos que tínhamos, alheia a tudo além de suas panelas. Parecia uma sombra. Eu nunca percebera, o mais minimamente, o que se passava em sua cabeça. Nem tentava, seria bobagem mesmo.

E eu, estudava o Alcorão. Há três anos entrara para a Escola Corânica e o Sufi que me orientava, um verdadeiro homem santo, à medida que se entusiasmava com meus progressos, ficava cada vez mais exigente. Tinha três Suras para estudar por semana e, acredite, isso é muita coisa se você quer mesmo penetrar no seio de Alá.

Minha avó via meus irmãos saírem toda manhã com a cabeça coberta pelo Keffiyeh e só voltarem, já tarde da noite, sempre com alguns ferimentos. Ela não dizia nada, seria bobagem mesmo.

Também me via lendo o Livro horas a fio e igualmente não dizia nada. Sua cabeça era um mistério.

Certo dia, tão similar aos anteriores, eu estava sozinho em casa estudando o Sura do Trovão, um dos mais difíceis, e ela passou por mim, tocou muito levemente minhas costas e disse:

“Escolha uma pedra, coloque-a na mão e dê a volta no quarteirão”.

Fechei o Livro sagrado e obedeci imediatamente.

Só Alá é Deus e Maomé, o seu Profeta.

SOBRE O AUTOR

JUSTINO VIEIRA – Engenheiro de Estruturas, Professor de
Engenharia na UFF e Arquitetura na PUC-RJ, leitor obsessivo,
e que passou a vida inteira às voltas com números e contas,
mas aprendeu com Drummond que “a luta com palavras é a luta mais vã”

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Marcas desumanas em paredes brancas

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Os arbustos pareciam distantes. As colinas, de um verde jovial, reluziam ondulantes no horizonte. Algumas folhas regiam a sinfonia do vento com clássica doçura, enquanto outras sacolejavam e insistiam na segurança da raiz. O riacho conversava com as pedras em tom ameno, recitando versos de ternura. O céu, mesclado de azul e cinza-claro, se modelava e se deformava, adaptando a manhã aos desejos da natureza.

A janela de vidro ainda tinha sinais embaçados da madrugada. Gotas solitárias escorriam de uma madeira a outra. A temperatura interior estalava na lenha contorcida da lareira. O clima parecia aconchegante, apesar de gélido. O sol, ainda parcialmente desperto, e sabendo de seu poder, evitava lançar seu charme de forma abrupta sobre o gramado. As árvores respiravam pausadamente, trabalhando sem pressa.

Ao lado da lareira, as estantes enfileiravam e organizavam o repertório de uma Era. Os livros, sem lar vertical, se amontoavam pelos cantos em lógicas definidas. Dois deles, por motivos distintos, repousavam na mesinha de centro, juntos a riscados e rabiscos. A gaveta emperrada guardava segredos de décadas. No criado-mudo, fotografias e recortes de jornais antigos contavam mentiras de povos perdidos.

Os lençóis, trocados recentemente, ostentavam uma brancura quase transparente. Nas cortinas de seda cara imperava um branco fosco, duro e intransponível. As paredes eram sujas, manchadas com marcas humanas e desumanas. Pouco era possível recordar do tempo em que elas também eram brancas. Do tempo em que a janela permanecia aberta e o coração permanecia vívido. Do tempo em que o infinito aparentava estar mais distante que os arbustos das colinas. Do tempo em que o infinito estava do lado de lá, das gotas solitárias.

Suspirei.

Tudo estava branco novamente.

 

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