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Uma Criatura Dócil

O conto “Uma Criatura Dócil” costuma ser classificado como uma das mais importantes produções de Dostoiévski, sendo certamente indispensável para quem aprecia o autor russo e também servindo como excelente porta de entrada aos leitores que desejam conhecê-lo.

Uma Criatura Dócil é um conto escrito em primeira pessoa e trata-se de um desabafo através do qual o personagem central, que é o dono de uma casa de penhores,  compartilha com os leitores os rumos trágicos de seu casamento com uma jovem órfã de 16 anos, que tirou a própria vida.

Nessas circunstâncias, o texto assume um perfil de desabafo imediato daquilo que o protagonista sentiu e pensou, instantes após, surpreendentemente, encontrar sua esposa morta. Aliás, um aspecto interessante é que antes da narrativa ter início, há uma breve introdução escrita pelo próprio Dostoiévski na qual o autor anuncia a premissa da história que está por vir.

São destacados alguns pontos importantes, dentre os quais citarei dois: trata-se de um texto fantástico, embora ele próprio o considere realista – pode soar contraditório, embora ao meu ver, essa afirmação provenha do fato de que a narrativa, de certa maneira, mescla esses dois aspectos.

O segundo ponto: o conto não consiste num mero acúmulo de memórias, mas ele “fala consigo mesmo, esclarecendo tudo para si mesmo“. (2017, p. 8). Ou seja, conforme já mencionei, é um desabafo imediato. Íntimo. Inicialmente, aparenta ser realmente um resgate de recordações, mas conforme avança, é possível notar um tom de desespero que vai se instaurando no personagem, fato este que assegura ao livro um clima cada vez mais intenso, como se fosse uma fala que acontece no tempo presente.

 

Um dos pontos mais fortes do conto é justamente um dos traços típicos de Dostoiévski, a saber, a maneira profunda e minuciosa pela qual o autor explora o estado psicológico de seus personagens. Além disso, um fato interessante e digno de destaque é que o desdobramento e o final da história são trágicos – tal como, é preciso admitir, a própria vida também costuma ser… nem sempre há finais felizes.

Em suma, Uma Criatura Dócil apresenta a situação de dois seres humanos que, por hora, aparentam ser diferentes um do outro, mas, ao mesmo tempo, ambos se aproximam na medida em que cada um vivencia seus dramas, angústias e incertezas, guardando isso tudo em seus interiores. As descrições dos sentimentos e reflexões são delineadas com maestria por Dostoiévski que, sem dúvida (e sem exagero), é um dos maiores gênios que já pisou em nosso planeta.

 

A versão que li é parte da coleção “Clássicos da Literatura Universal, e foi lançada pela editora Via Leitura em 2017. O livro tem um total de 95 páginas, uma capa magnífica e é de calor acessível. Recomendo a edição. 

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