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Xaveco de Buteco: Crônica #2 A subjetividade do amor

Ao invés de escolher Romeu e Julieta para celebrar o amor romântico, prefiro ficar com o casal Frida Kahlo e Diego Rivera.

Tão improváveis quanto memoráveis. O par protagonizou uma das histórias de amor mais controversas do mundo das artes. Quando se casaram, Frida com apenas 22 anos, estava ainda desabrochando como artista; Diego com 43 anos já era um muralista consagrado, tanto pelo talento revolucionário quanto por seu extenso histórico de conquistas amorosas, que não era segredo para ninguém. Paloma (pomba em espanhol) sabia muito bem quem era Elefante ao se apaixonar por ele (apelidos que receberam devido às diferenças de suas formas físicas).

Bem distantes dos modelos românticos idealizados. Eles não eram bonitos, foram infiéis durante os 25 anos de casados, brigavam intensamente, enfim eram cheios de imperfeições, mas perfeitos em sua humanidade.

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– Calma lá! Não estou fazendo apologia à infidelidade. Longe disso! Sabe o que me encanta?

Eles pareciam gente como a gente. Viveram um relacionamento sem glamour e sem pudor de mostrar o lado feio da natureza humana (considerando os padrões morais da sociedade).

A verdade é que eles se completavam. Não dá para imaginar Frida sem Diego ou Elefante sem Paloma. A maturidade artística dele serviu como um catalisador para a explosão do talento da companheira. No começo, pela grande diferença de idade, ele foi o mestre para a pequena Paloma, cuja genialidade eclodiria ao longo do tempo.

“Tive a sorte de amar a mulher mais maravilhosa que já conheci. Ela era poesia e a própria genialidade.”, revelou Diego em uma entrevista.

Tela intitulada: Frida Kahlo y Diego Rivera (1931)

Se isso não era amor. O que era? A união de Frida e Diego talvez explique a incompatibilidade entre amor e sexo. Há muitas teorias que defendem a tese. Sei que estou divagando. Só que não tenho dúvidas que eles se amavam. Pelas mãos da pintora, o sentimento foi registrado sob infinitas formas, seja como inspiração, na força das imagens ou na pungência dos autorretratos. Nudez com Lírios de Calla, de 1944, foi uma das mais lindas homenagens de Diego à sua amada.

Aliás, os autorretratos de Frida são um capítulo à parte. Transformar a dor em arte é um traço característico de todo artista. Mas, para mim, Frida foi a mais corajosa. Além de sublimar as dores do corpo e da alma ao transportá-las para seus quadros, ela se desnudou completamente em cada um deles. O sofrimento não é representado com símbolos, não é uma imagem metafórica; ele é real na figura de Frida! É como se ela dissesse “eu sofro mesmo. E daí?”. Ela deu a cara a tapa ao mundo! Convenhamos que para fazer isso é preciso muito culhão.

Uma vez, ela declarou “pinto à mim mesma porque sou sozinha, e porque sou o assunto que conheço melhor.”. Transcendendo esta ideia, os autorretratos se tornaram uma espécie de diário de sobrevivência da brava guerreira mexicana. Olha que as lutas foram árduas!

Aos 6 anos contraiu poliomielite que provocou o encurtamento da perna direita. Aos 18 sobreviveu a um acidente de trânsito que matou seus anseios maternos, porém nunca sua capacidade de gerar os mais belos frutos: suas obras de arte. Estéril? Esta palavra não fez parte do dicionário artístico de Frida.

Junto com os episódios de doença, quase morte, somaram-se as idas e vindas com Diego e as inúmeras traições. Uma dessas aventuras incluiu a irmã mais nova.

– Pô, Elefante, trair Paloma com a cunhada já é demais!   

Diante de tudo isso, o que Frida fez? Ela escolheu seguir adiante e de cabeça erguida, nunca desistiu das batalhas, sempre lutou como uma verdadeira guerreira pelos ideais revolucionários, a representatividade feminina, a valorização da arte e em especial o amor à Diego. Muitos a veem como uma mulher fragilizada, dependente de um homem infiel. Que insulto! Ela nunca esteve à sombra do talento do amado. Fez seus próprios caminhos e conquistou seu lugar ao sol por si mesma.

Diego e Frida eram assim: um casal que viveu o amor do jeito deles. Ambos se admiravam. Cartas, declarações, fotografias e obras de arte são testemunhas dessa conexão e cumplicidade artística. Ali não existia rivalidade. No começo eram o mestre e a aluna; anos depois eram dois artistas geniais andando de mãos dadas.

Uma declaração da artista resume bem sua visão sobre o amor “Onde não puderes amar, não te demores.”.

Pode deixar, Frida! Pode deixar…