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Xaveco de Buteco #2: Se eu fosse…

Veja se você me entende: se eu fosse a Diane Keaton, teria a mente ocupada com questões relevantes, e não ia me preocupar tanto com a pele sem viço, as olheiras profundas e minha atual invisibilidade diante dos desconhecidos. Porque, assim que eu abrisse a porta, na primeira cena, iria trocar olhares com o vizinho que acabara de chegar, um homem solitário e rabugento, mas que manteve ao longo dos anos o hálito fresco e a covinha no queixo inalterados, o verbo afiado, repleto de segundas intenções, embora esse primeiro embate entre os dois ainda fosse muito contido.

Já na segunda cena, nós iríamos brigar, avançando na trilha de conquista, afinal, independentemente da idade, e dos eventuais desconfortos, temos um compromisso firmado com a felicidade que o tempo nos impingiu. E se você discorda, ou vê a situação com deboche, é melhor parar de ler por aqui.

Mas, se eu estivesse no lugar dela, sim, continuo falando de Diane Keaton, iria chorar no primeiro acorde de piano, e seguiria com passos leves na sequência óbvia, repleta de emoção. Pois a música me remeteria ao passado repleto de momentos felizes mesclados com a dor da partida de um companheiro de vida, de forma trágica e repentina e que nos é sugerido através de um retrato em preto e branco emoldurado, pousado em cima do piano, ou da lareira.

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Na vida real, fui casada com um ogro, que fez de mim, de comum acordo, é bom deixar claro, a pior esposa do mundo, pois vocação eu já tinha. Me transformei numa megera insuportável. Nós dois, de comum acordo, conseguimos envenenar nosso cotidiano com doses maciças de ironia, álcool e nicotina barata, que ajudou a destruir uma parte considerável dos nossos pulmões.

Mas se eu fosse ela, manteria o queixo firme, apesar da dor da saudade atravessada no peito, e não me importaria com nada, nem com as dificuldades, e mesmo sofrendo uma enorme perda, mesmo sem a mesma energia da juventude, adotaria três crianças de continentes diferentes, encheria a casa de plantas, ajudaria os povos da África, e nas férias meditaria no Butão. Mudaria mais uma vez, radicalmente a alimentação, retirando os supérfluos, diminuindo as necessidades até viver apenas de luz. Mas a taça de vinho ocasional eu manteria, pois em muitos momentos importantes, o vinho é um alimento espiritual.

Já meu marido reclamava que eu bebia demais, dizia que alimento espiritual era uma boa desculpa para minha alma pinguça e descontrolada. Isso era dito aos berros, enquanto ele enchia o seu copo, e que mantinha sempre cheio até a borda, ou em momentos mais radicais, quando atirava a garrafa na parede. Mesmo acuada, passei a gostar dos cacos de vidro espalhados pelo chão, pois isso significava uma pausa nas nossas discussões.

Voltando ao roteiro, na segunda virada importante, Diane se irritou com o vizinho e dei a ela toda razão. Insensível, ele desprezou a visita do filho e seu pedido de ajuda. O rapaz seria enviado para a prisão, e iria pagar por um crime que não cometeu, mas ainda assim, o pai não o perdoou pois no passado ele havia chegado chapado no enterro da mãe. Diane tentou intervir, em vão. – “Ele não tinha o direito” afirmou o vizinho quando saiu, furioso, batendo a porta. Mas Diane sabia o que estava fazendo. Aquela couraça de homem insensível teria que ser removida mesmo que ela tivesse que pagar caro por isso. Essa era sua missão.

Admiro Diane no que ela tem de profissional. Acima de tudo ela é sempre profissional e o resultado é comovente. Pois para quem já ganhou um Oscar atuando num filme genial, aquilo ali era um lixo, difícil de digerir, mas ela o interpretava com muita dignidade.

Dignidade que eu não tinha para encarar o roteiro que teria que entregar na segunda-feira. Eu tinha apenas quarenta e oito horas e uma enxaqueca gigante, pois abusara do gim. Discordava de tudo o que estava escrito, mas não tinha como voltar atrás. O contrato assinado, o dinheiro já empenhado – grande parte havia sido gasta na clínica de reabilitação do meu ex. Na zona sul era mais caro, mas assim eu podia visitá-lo com mais frequência. Eu havia vendido o carro, e voltava caminhando, refletindo sobre o nosso processo criativo e o que havíamos escrito até então.

O roteiro havia sido ideia dele, quando ainda éramos uma dupla, quando nós dois ainda tínhamos um pulmão sadio e um fígado funcionando sem ajuda de medicamentos. Era uma história simples, mas com elementos fortes, e por isso nos apegamos a ela. Uma fábula urbana, que falava sobre a solidão e a incomunicabilidade. A história de dois vizinhos que nunca se conheceram, mas sempre se amaram e estavam predestinados a se encontrar.

A sinopse foi aprovada, mas o desenvolvimento passou por muitos percalços. Eu queria fugir do óbvio, dos diálogos fáceis, das cenas superficiais, queria algo de impacto. Um filme que nos representasse no que nós tínhamos de melhor e que trouxesse um fio de esperança, apesar dos percalços que os personagens teriam que atravessar.  Pois mesmo que nossa relação estivesse se esvaindo pelo ralo, encharcada de álcool, o filme nos redimiria. Mas infelizmente não consegui.

Após uma briga terrível, quando discordamos radicalmente do clímax e do desfecho, (ele queria um final feliz, eu não), o ogro teve que ser internado e eu fiquei só, com um roteiro inacabado. Por isso a minha surpresa quando liguei a TV e me deparei com Diane Keaton interpretando o filme que eu estava escrevendo. Era praticamente a mesma história, um plágio mal acabado, repleto de clichês baratos, que me desacreditavam como autora, e pior, davam um tom óbvio e patético ao que eu imaginava original e verdadeiro. Mas quem iria acreditar em mim?

Mesmo contrariada com o que via na tela, eu tinha que admitir que ela era capaz de transformar lixo em ouro, com suas lágrimas sinceras e seu desejo de acertar. E por pior que fossem os diálogos e a premissa, eu me identificava sim, com Diane Keaton quando ela afirmava, esperançosa, que ainda não havíamos chegado ao final.

Por isso, mesmo com todas as dificuldades que tenho passado, eu não a invejo. Ela agora padece de uma doença terrível, aquela que nem dizemos o nome, a doença do esquecimento. E terá que correr contra o tempo, pois mesmo que ainda tenha um viço nos olhos, o corpo firme e um marido exemplar que se arrepende muito por tê-la traído, ela tem pouco tempo, antes que sua mente se transforme numa tela branca e oca, sem lembranças, espere, essa não é Diane, e sim a ruiva, dos olhos de mel, que ganhou um Oscar por sua interpretação sublime. Como é mesmo o nome dela? Julianne?

 

 

* O texto faz menção ao filme Um Amor de Vizinha (And So It Goes, Rob Reiner, 2014)

SOBRE A AUTORA

 

DENISE CRISPUN – Carioca, formada em História, enveredou pelas letras, pelo teatro e pela contação de histórias em diferentes formatos. Colaboradora de novelas, escreve também programas de humor. Sem preconceito linguístico ou de estilo, salta do drama à comédia apenas pulando um parágrafo. Curiosa por natureza, vai detectando os deslocamentos. Sua escrita é feita em movimento. E muitas vezes, enquanto escreve, pedala. Passa por mal-educada, pois não costuma escutar quem a chama no caminho. Fala muito sozinha, mas nunca está só, pois vive cercada de personagens.