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Xaveco de Buteco #4: História de quem foge e de quem fica

No último dia doze, a plataforma de streaming Netflix anunciou que a mais recente obra de Elena Ferrante, A Vida Mentirosa dos Adultos, irá ganhar uma adaptação para o formato de série, ainda sem data prevista de estreia. O livro está programado para ser lançado no Brasil em setembro, mas os assinantes do Intrínsecos, clube de assinatura literária da editora Intrínseca, receberão um exemplar exclusivo agora em junho. Confesso fugir de toda e qualquer informação acerca das tramas que pretendo ler, mas fiquei sabendo que a protagonista da história é membro de uma família de classe média, residente em um conceituado bairro de Nápoles, diferentemente das personagens principais da tetralogia napolitana, trabalho mais famoso da escritora italiana.

Por falar na tetralogia napolitana, a série de romances formada por A Amiga Genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica, e História da menina perdida trouxe Elena Ferrante à minha vida, para nunca mais sair. A grandiosidade dos debates propostos na obra conduz o leitor a refletir acerca do duro cenário em que os fatos se dão, além de gerar uma certa dependência doentia entre a realidade e a ficção. A pessoa fisgada pelo esplêndido texto do primeiro volume não consegue seguir a sua vida adiante, enquanto não encara o desfecho da saga de Lila e Lenu. Como se não bastasse, sementes são deixadas no coração da gente, para germinarem com o tempo, com a maturidade, com a evolução das coisas, e com a evolução (ou não!) das pessoas. E foi uma dessas sementes que frutificou em mim, após a notícia da série da Netflix me trazer lembranças, e me fez escrever o presente texto.

A cidade de Nápoles está localizada no sul da Itália, região historicamente menos abastada que o norte do país. Ademais, a instabilidade do Século XX foi devastadora para o povo napolitano, que conviveu com a miséria consequente das grandes Guerras, com a tirania de governantes déspotas e populistas, com a intensa batalha de sangue entre fascistas e comunistas, com a cruel exploração do proletariado, com a promíscua e estreita relação entre a Administração Pública e a máfia camorrista, com um surto de cólera, com um terremoto sem precedentes, com assassinatos à luz do dia e com a violência à luz dos olhos infantis. É neste ambiente de permanente efervescência social que se desenrola o enredo da tetralogia de Elena Ferrante. E é neste ambiente que o personagem Pasquale, militante extremista das causas operárias, questiona a utilidade da esquerda intelectual, suas teorias, seus discursos eloquentes e seus eternos debates em cafés e universidades.

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Façamos um salto no tempo.

Estamos no Brasil, em maio de 2020, no centro de uma pandemia, sendo governados por um sociopata de extrema-direita, ignorante, antivacina, propagador de discursos racistas, homofóbicos, sexistas e antidemocráticos. Como complemento, o ex-militar instiga aglomerações e comparece a elas, cria focos de propagação da COVID-19, decreta normas que contrariam as orientações da Organização Mundial de Saúde e de seus próprios ministros, solicita a troca de comando da Polícia Federal para proteger seus filhos de investigações da instituição, comete um crime de responsabilidade atrás do outro, além de rir dos milhares de cadáveres que caem em sua conta diariamente. No mesmo sentido, o Judiciário se acovarda ao tratar do tema, se limitando à divulgação de notas de repúdio, enquanto o Legislativo parece ter preguiça de enfrentar um processo de impeachment em plena pandemia. O tempo vai passando, e vidas e mais vidas são ceifadas pela ausência de medidas drásticas de isolamento.

Mas e a esquerda, cadê?

Foto de Evandro Teixeira

A esquerda intelectual, na qual eu me incluo e pela qual eu me sentia representado até ser confrontado por Pasquale, está cada dia mais distante da causa operária e das dores das ruas. O aburguesamento da esquerda brasileira tem contribuído para que o próprio oprimido se identifique mais com o opressor do que com os defensores de seus direitos, para que trabalhadores lutem contra direitos trabalhistas, para que aposentados militem contra direitos previdenciários, para que mulheres se manifestem contra a igualdade de gênero, para que pobres sejam contrários a programas sociais, dentre outras bizarrices verde e amarelas, que fazem minguar cada vez mais a esquerda verdadeiramente atuante.

Ao passo em que a extrema-direita se espalha como a praga, que ela realmente é, e se fortalece, na prática, dentro de nossas casas, por meio de nossos avós, pais e irmãos; a esquerda segue escrevendo monografias e tentando entender o fenômeno do “bolsonarismo”. A esquerda intelectual segue no autoengano de que somos um povo bom, que cansado da corrupção, foi enganado por um messias fake. A esquerda intelectual quer acreditar que as nossas mães não se sentem representadas pelas palavras de ódio do Presidente da República. A esquerda intelectual quer enfrentar zumbis com diálogo, mas isto a cultura pop já demonstrou ser impossível. A esquerda intelectual cria teorias de justificação que expliquem o problema, ao invés de enfrentá-lo.

Não é razoável que tracemos um paralelo entre as personalidades do napolitano e do brasileiro, sendo certo que os nativos do sul da Terra da Bota são mais sanguíneos, questionadores, tendentes à resistência e ao enfrentamento, idolatram a rebeldia “cheguevariana” de Dom Diego Armando Maradona, enquanto nós, marionetes do falso moralismo, somos deslumbrados pelo luxo, avaliamos nossos exemplos de sucesso pela conta bancária, só nos preocupamos com a nossa própria pobreza, idolatramos a “rebeldia” do menino Ney quando ele falta a treino em Paris e as mansões dos cantores de música sertaneja, braço alienante do autoritarismo nacional infiltrado nas artes desde que o estilo existe. Seria utópico exigir do brasileiro médio um sentimento revolucionário e solidário. Nossas semelhanças aos napolitanos se limitam ao fato de estarmos sempre em combate interno. Infelizmente, no nosso combate, só um lado tem combatido. Os combatentes de outrora foram engolidos pelo sistema.

Sim, leitor, você acaba de ler mais um texto pedante, de um burguês de esquerda, que pode não mudar absolutamente nada na sua vida. Ou quem sabe, pode ser para você, a semente que a Elena Ferrante foi para mim. A semente que fará com que, na história de quem foge e de quem fica, você não fuja jamais.