Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Xaveco de Buteco: Conto #1 A invisível empregada do lar

Esta é a história da Maria. Seu sobrenome pouca importa. Porque ela não é vista mesmo! Quem liga para a Maria? Ah, os políticos lembram dela a cada 2 anos; o SPC e o Serasa – estes também nunca esquecem de ninguém e ela não sai da cabeça da patroa: a sra. Luiza. Todo dia é um tal de “Ô Maria, já falei para não trazer seu filho… os móveis estão empoeirados… o almoço está atrasado… vai levar os cachorros para passear enquanto a manicure pinta minhas unhas”. Nessas horas bem que ela queria ser invisível. Mas, parece que a capa da invisibilidade só funciona na hora de receber os direitos; porque quando é dever, estão sempre lembrando dela. Ainda bem que a pobrezinha regozija de saúde de ferro. Se não fosse assim, sua vida se esvaziaria logo de bebezinha.

Foi lá no sertão do Nordeste que a jornada de sobrevivência da Maria começou. A terceira filha de 6 descendentes de Seu Francisco e Dona Josefa; mal nasceu, já era uma sobrevivente. Lidar com a Seca é driblar a morte todo dia. Sorte que Dona Zefa transbordava de leite a cada gravidez. Mariazinha não sabia o que era fome, até desmamar. Os anos que se sucederam, ela não gosta nem de lembrar. Certas lembranças cortam a alma mais que o facão cego que usava para talhar o pé de cana aos 7 anos. Ela, a Seca, corrói tudo que vê pela frente: plantações, animais, famílias inteiras. As fissuras deixadas no solo são como cicatrizes, cujas marcas assombram para sempre a memória dos vitimizados. Que vida dura, meu povo brasileiro!

- Advertisement -

Foto: Beto Macário/UOL

“Para de chorar, menina, assim você atrapalha o serviço”, censurava Seu Chico quando a filha lamentava as bolhas nas mãozinhas delicadas. Claro que, o tempo com sua sabedoria, tratou logo de calejar a pele da Mariazinha, pois no país da desigualdade não há tempo para choro. A luta pela sobrevivência é urgente. O dinheiro no bolso urge. A comida no prato urge. A vida urge.

Infância? Mariazinha sonhava com brinquedos. “Isso é coisa de gente rica, da cidade”, divagava em seus pensamentos. Carrinhos e bonecas eram a enxada e o facão. Que vida dura, meu povo brasileiro!

Essa foi a realidade de Maria até seus pais decidirem se mudar para a cidade grande. Juntaram todo o dinheiro da família. Falaram com o parente de um conhecido que levava o pessoal até a metade do destino. Parece que a caranga era velha e barulhenta, mas dava para o gasto. Acertaram os detalhes da viagem. Contaram para os filhos. Uma semana depois, a pequena olhava pela última vez para a casa de barro onde fora gerada e crescera, e estava deixando aos 10 anos. Aquela cena guardara com carinho. Apesar dos pesares, acreditava do fundo do coração que havia sido feliz. Uma lágrima escorria pela sua face pueril quando ouviu a fala do pai “Vamos, menina, para de chorar. Está na hora da gente ir.”.