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Xaveco de Buteco: Conto #2 À Deriva

Me chama de Soraia.

Vou te contar uma história, mas não aconteceu comigo, tá?

  1. Ela havia completado treze anos e era seu primeiro dia de aula num colégio que lembrava um hospício, pois incluía os excluídos sem distinção. Odiava a antiga escola, mas essa… Sentiu-se jogada aos leões.

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Cada um na sala de aula tinha um jeito peculiar, um tique, um desespero particular. Alguns sofriam de excesso de imaginação. Estudaram gramática, dissecaram um sapo, esconderam o apagador atrás da privada do banheiro das meninas. Uma pândega. Voltou para casa descabelada e com um corte na testa, mas estava plena. Bateu os olhos no gordinho que escondeu o apagador e tinha certeza que foi correspondida.

Aos quinze anos ela saiu para comprar pão e fugiu de casa. No mapa, marcou Arembepe, mas com o dinheiro que levava no bolso conseguiu chegar em Arraial do Cabo. Descolou um emprego vendendo pastel e caipirinha na praia. Os turistas adoravam o pastel, foi assim que conheceu Chin. Dois meses depois partiu junto com Chin no barco pesqueiro repleto de coreanos que vieram atrás de sardinhas afrodisíacas.

O navio cheirava a mofo e peixe em conserva. Entediada, ela começou a desenhar mapas numa caixa de papelão que encontrou jogada no convés. Entretida com o desenho, não ouviu os primeiros gritos, mas sentiu o navio jogando. A água entrou rapidamente. Gritou por Chin, mas não pôde esperar. Enfiou a tampa da caixa debaixo da blusa e pulou no mar agarrada a uma prancha.

Fonte: site gadoo

Sobreviveu os primeiros dias apenas bebendo a água da chuva. Enfraquecida, buscou abrigo na sombra de uma Sumaúma gigante, a mesma que havia desenhado no início da trilha. Só despertou dias depois ao sentir que uma iguana lhe beliscava o dedo do pé. Batizou-a de Raquel. Foi o começo de uma bela amizade. Compartilhavam as folhas e insetos que Raquel encontrava no caminho. Aprenderam juntas a ler as estrelas. Ao seguir o mapa, circularam por toda a ilha até chegar numa enseada de areia branca, onde era possível pegar os peixes com as mãos. Era uma vida nova, dentro de uma outra vida que se despedia. Nada lhe faltava. Adormeceu. No sonho, Chin e o gordinho duelavam por ela. Acordou assustada com o rugido de um leão.

Na sala de aula, a professora trancou a porta e arreganhou os dentes, com o apagador na mão.

– Quem é Soraia?

Acuada, ela falou tão baixo que quase ninguém a escutou…

– Minha vez?

A professora acenou, confirmando.

– Posso reescrever? Só o final?

 

SOBRE A AUTORA

DENISE CRISPUN – Carioca, formada em História, enveredou pelas letras, pelo teatro e pela contação de histórias em diferentes formatos. Colaboradora de novelas, escreve também programas de humor. Sem preconceito linguístico ou de estilo, salta do drama à comédia apenas pulando um parágrafo. Curiosa por natureza, vai detectando os deslocamentos. Sua escrita é feita em movimento. E muitas vezes, enquanto escreve, pedala. Passa por mal educada, pois não costuma escutar quem a chama no caminho. Fala muito sozinha, mas nunca está só, pois vive cercada de personagens.