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Xaveco de Buteco: Conto #2 Atenção, Choque. Avançar!

Já estava no meio do serviço no Choque. Choque é dureza, mas rende uma gratificação de serviço. Quatro horas no banco da tropa, de olho na hora para render o turno, quando soa o chamado: manifestação na Rio Branco.

Vamos lá; põe o equipamento com o Major berrando no seu ouvido que é para correr:  protetores de nuca, peito, joelho e braços e capacete reforçado. Armamento leve vai com o soldado e o resto no transporte. E pula no caminhão.

Na esquina da 7 de Setembro, o Major dispõe as fileiras e eu estou na primeira linha. Um colado no ombro do outro, um pé avante e outro atrás para suportar tranco. Recebo o escudo e colo na cara passando a ver a situação pelo pequeno visor.

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À frente, um grupo relativamente pequeno faz muito barulho. Se preparam para botar fogo em uns fardos de papelão e eu sei que, quando conseguirem, virá a ordem para atacar. Depois virão os Bombeiros. Lembro quando fiz prova para os Bombeiros. Queria muito, treinei subir corda mais de um mês, mas perdi logo na prova escrita.

Na multidão tem sempre alguns elementos que chamam a atenção. Tem uma mocinha muito bonita de cabelo pintado de azul que berra loucamente seus slogans e ainda um garoto com o telefone na mão filmando tudo. Observo e concluo que não é profissional, pelo contrário, parece deslumbrado com aquilo tudo.

O Comando ordena o uso das armas não letais. Não letais se não pegar de jeito….  O Cabo ao meu lado lança umas três bombas de efeito moral o mais longe que pode, mas o cheiro também nos atinge. A permanência na posição de Atenção começa a cansar, o escudo pesa e a visão no pequeno visor se embaça com meu suor. O cassetete arde na mão.

A tropa fica inquieta como cães açulados presos na guia. Um Sargento dá vários tiros de bala de borracha daquelas que se pega no olho faz um estrago danado.

Enfim, o grupo consegue atear fogo no papelão ao longo de toda a Avenida, de calçada a calçada. E vem o comando: Choque! Avançar!

O progresso é lento, mas ininterrupto, o Choque não pode recuar. Passo a passo o Choque avança, batendo ritmado o cassetete nos escudos para assustar. E assusta mesmo. O grupo praticamente não recua e calculo que logo vai haver o confronto.

 

Fonte: Le journal international france

Já perto, levanto o cassetete e me preparo para o contato com a adrenalina estalando na veia.  À minha frente está o menino com a câmera. Bato com força onde pega, o sangue escorre e a cara de espanto dele me dá raiva. Esperava o que, babaca? Ele corre e à minha direita vejo o Cabo tombar com o olho sangrando. Deve ter sido pedrada. Abaixo-me com cuidado mantendo o escudo sobre a nuca, mas outros dois Soldados já o acudiam e levam para a Ambulância. Volto para a formação que se adiantara uns três metros e reencontro minha posição. O grupo do protesto já está bastante disperso. Olho à esquerda e vejo a menina de cabelo azul em cima de um carro da Civil. Embora sem ordem de sair da Formação, corro em direção a ela e golpeio suas pernas com o cassetete. No treinamento já levei uma dessas certa vez e sei como dói.

Ela rola de cima da viatura gemendo de dor. Sei lá o porquê, suspendo-a do chão, mal equilibrando ela, o escudo e o cassetete. Pergunto se aguenta ficar de pé e ela olha para mim com enorme desconfiança e surpresa. Diz que está bem – duvido – e deixo-a encostada num táxi. O Comando ordena retroceder e reagrupar.

A manifestação praticamente acabou. Agora é a parte mais chata, o rescaldo da ação. Assegurar de que está tudo contido. São mais duas horas de pé, em posição, com o pé fervendo dentro da bota e o braço ardendo de cansaço.

Enfim, voltamos ao caminhão que nos leva ao Quartel e ao fim do serviço. Ligo para casa. Deixei o Junior com a menina que toma conta dele e estava com um pouquinho de febre, mas parece que passou. Quando é assim é garganta. A Stefen já está dormindo. Essa menina é abençoada. Meu marido já chegou e fez jantar para os três. Peço para guardar carne assada para mim que o rancho hoje é Tripa. Detesto!

SOBRE O AUTOR

JUSTINO VIEIRA – Engenheiro de Estruturas, Professor de Engenharia na UFF e Arquitetura na PUC-RJ, leitor obsessivo, e que passou a vida inteira às voltas com números e contas, mas aprendeu com Drummond que “a luta com palavras é a luta mais vã.”