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Xaveco de Buteco: Conto #2 Uma pétala no caminho

Vinícius estava sentado um tanto disperso, aguardando para ser atendido pelo gerente do banco. Segurava algumas pastas com documentos importantes, que deveriam ser entregues diretamente ao responsável pela conta da empresa. Ao seu lado esquerdo, uma senhora fazia palavras cruzadas. Ao lado da senhora estava Isabela, febrilmente nervosa com a possibilidade da instituição lhe negar o crédito que havia solicitado. Vinícius e Isabela não se viram naquela tarde. Aliás, nem sabiam da existência um do outro, embora tivessem se beijado loucamente 4 anos antes.

Nem Vinícius, nem Isabela, tinham qualquer resquício de memória do momento vivido, mas eu, como narrador em 3ª pessoa, onipresente e onisciente, consigo me lembrar perfeitamente. O beijo ocorreu em meio aos festejos de Copa do Mundo. O Brasil havia vencido uma das partidas e Vinícius tinha perdido a namorada. Anos depois, olhando para trás, ele percebeu o exagero de seu sofrimento, mas, na época, ele preferia a morte a viver sem a garota. Isabela assistiu ao jogo em um bar com amigos, se meteu em algumas apostas furadas e precisou entornar alguns shots de tequila. A embriaguez carente e melancólica de Vinícius cruzou o caminho da euforia alcoólica de Isabela, causando uma tórrida cena de paixão na multidão. Ela acordou no dia seguinte sem saber que aquilo acontecera. Ele reatou o namoro no dia seguinte e só lhe sobrou borrões e flashes da tarde anterior.

Três anos depois da conversa com o gerente do banco, o negócio de Isabela, que até começara bem, fechava as portas definitivamente. Ela não era mais uma jovenzinha e a ideia de retornar ao mercado de trabalho a afligia. Vinícius não era mais office boy, mas continuava na mesma empresa. Ganhava o dobro, trabalhava o triplo. Ainda morava com a mãe e tentava engatar um novo relacionamento. Nada durava muito. Seu namoro mais consistente tinha sido o primeiro, aquele que terminou naquela Copa; reatou depois e terminou novamente no ano seguinte. Na noite de sua falência, Isabela decidiu ir ao cinema sozinha. Na mesma noite, Vinícius levou sua nova namorada ao mesmo cinema. Chegando lá, ele informou à garota que iria comprar pipoca, enquanto ela pegava os ingressos. No meio do trajeto, Vinícius percebeu que esquecera a carteira na bolsa dela e voltou. Por alguma razão qualquer, inverteram-se os papéis. Ele ficou na bilheteria e ela se dirigiu à fila da lanchonete, onde emendou, durante quinze minutos, um bate-papo banal com uma outra moça: Isabela.

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Vinícius esperava a ex-esposa dentro da sala de audiência da Vara de Família. Sim, a ex-mulher é a menina do cinema de anos atrás. A juíza já parecia impaciente com aquela demora. Não conseguia entender qual a motivação do atraso, já que havia sido ela a solicitante de um novo encontro para rediscutir os termos da guarda compartilhada. A nobre julgadora achou melhor suspender o ato e remarcar para dali a 2 semanas. Vinícius desceu a escadaria do fórum e decidiu passar no supermercado, localizado logo em frente, para comprar algumas coisas para o jantar. Isabela morava na rua detrás do fórum e saiu para fazer a compra do mês naquela tarde. Vinícius apanhou algumas caixas de hambúrgueres, enquanto Isabela pegava 2 garrafões de água sanitária no corredor à direita. Vinícius colocou a Coca de 2 litros na cesta, enquanto Isabela decidia se levava Heineken, Corona ou Budweiser no corredor detrás. Vinícius lia atento o passatempo da caixa de Fruit Loops e não notou a passagem de Isabela à sua frente. Pouco tempo depois, Isabela enroscou o seu carrinho numa cesta que havia sido deixada no chão, derrubando todo o seu conteúdo. Colocou rapidamente a Coca, o cereal e os hambúrgueres de volta no lugar e saiu como se nada tivesse acontecido. Vinícius pegou sua cesta no chão e foi direto ao caixa. O celular de Isabela tocou, era seu marido.

Vinícius estava contente. Depois de tantos e tantos anos, tantas e tantas oportunidades desperdiçadas, ele conseguiria ir a um show de seu músico favorito: Paul McCartney. Foi ao salão cortar o cabelo e percebeu que os fios brancos já eram maioria em sua cabeça. Passou o dia inteiro, ouvindo e cantarolando os discos de Paul e Beatles. Meteu uma camiseta preta com o rosto do ídolo e partiu para o estádio. Isabela gostava de Beatles, mas nem tanto. Pouco se interessava pelo trabalho solo de Paul McCartney também. Porém, para acompanhar o marido que curtia o som do inglês, ela topou ir ao show. Isabela teve uma sensação estranha durante a apresentação. Sentiu um vazio profundo. Como se algo faltasse. Olhou ao redor, era como se as pessoas estivessem em transe. Não, era como se ela estivesse em transe. Os sons não chegavam ao seus ouvidos. As imagens se moviam em câmera lenta. Recostou-se no peito do companheiro e adormeceu, sentindo o pulsar emocionado do coração do rapaz.

Isabela aproveitou o feriado de Finados para ir à tão esperada palestra de um famoso psicólogo que ela acompanhava no YouTube. As apresentações presenciais do terapeuta eram tão concorridas, que ela precisou comprar o convite com quase um ano de antecedência. Chegou no auditório e procurou o seu assento, que estava marcado nominalmente. Percebendo que o banco ao seu lado estava vazio, Isabela pensou rapidamente em quem seria o idiota que tinha conseguido lugar no espetáculo e não compareceu. Leu, de rabo de olho, o nome marcado no braço da cadeira: Vinícius. A verdade é que Vinícius jamais teria perdido aquele evento, se não tivesse morrido num desastre de automóvel a caminho do show do Paul McCartney meses antes.

A filha de Vinícius comprou as flores daquele 2 de novembro e, sem notar, deixou cair uma pétala no caminho usado por Isabela para voltar para casa.