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Xaveco de Buteco: Conto #3 Dublê de emoções

Sonhava acordado enquanto trabalhava e por pouco não trocou a broca esférica pela broca de ponta diamantada, o que seria perigoso, diante da fragilidade da porcelana. Estava terminando uma obturação delicada num paciente de 80 anos que adorava ouvir suas histórias. Com a boca aberta ao máximo e um fio de baba escorrendo até o queixo, o paciente acompanhava o relato como se estivesse assistindo uma aventura em 3D. Enquanto finalizava o serviço com um jato d’água mentolado, Eurico contava os minutos para trocar o jaleco pelo figurino de dublê.

Era sempre a mesma pergunta: por que odontologia? O pai, dentista, insistiu: por que não? Aos 17, oscilava entre o desejo e a responsabilidade. Filho único, tinha o mundo aos seus pés, como dizia a mãe, mas não conseguiu pular fora do cercado.

Embora tenha se destacado no grupo de teatro em que atuava, nunca teve a oportunidade de encenar um papel importante. Era um bom coadjuvante. Acertava o tom e a emoção do personagem, mas sua interpretação não deixava marcas.

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– Faltava-lhe estilo, disse o diretor, após a única apresentação em que convidou os pais. E com essas 2 palavras afiadas, proferidas pelo mestre, sentiu o golpe. Conformou-se. Não era para ser. E além do mais, Eurico não era nome de ator.

Tirou segundo lugar em odontologia na melhor faculdade do país. “Por pouco não foi o primeiro”, arrematou o pai, comemorando a dupla vitória. Depois de formado passou a dividir o consultório com 2 colegas de faculdade. Entre os 3 era o melhor, o mais afiado com a broca, o mais certeiro no diagnóstico. Isso não passou desapercebido e em pouco tempo conseguiu formar uma clientela fiel.

Conheceu a futura mulher na lavanderia, quando se mudou para um apart hotel. A troca do saco de meias na pilha de roupa limpa os aproximou. O primeiro filho foi um descuido, mas o segundo era uma decisão: ele nunca teve irmãos.

Após um mês na fila de espera, foram comemorar os 5 anos de casado num restaurante da moda que ela escolheu por indicação de uma amiga. Foi tudo muito rápido: o casal ao lado, paparicado pelos garçons, já partia para a segunda garrafa de vinho quando o homem engasgou com um pedaço de pão. Eurico lembrou-se na manobra de Heimlich que aprendera na faculdade e com gestos certeiros o salvou. Depois do susto e de uma sucessão de agradecimentos, os dois conversaram rapidamente. O homem em questão era um diretor de cinema premiado.

Empolgado com o gesto e com sua breve condição de herói e após provar do vinho que o diretor bebia, Eurico tomou coragem e falou do seu passado de ator amador. Achou que havia causado uma impressão. Trocaram telefones e Eurico levou para casa uma garrafa do vinho caro, que havia provado. Naquela noite não conseguiu dormir. Um refletor se acendeu.

Não, não foi bem assim. Eurico tentou ligar algumas vezes, mas o diretor nunca o atendeu, apesar dos inúmeros recados gentis que deixou.

O que aconteceu de fato foi que, ao voltar para casa do trabalho, um letreiro chamou-lhe atenção: Escola de Dublês. “Por que não?”, mas já não era mais um garoto. Por conta do ofício, já usava óculos para vista cansada e as entradas acentuadas nas laterais da cabeça denunciavam a passagem inexorável do tempo. Aplicou-se, voltou a malhar com dedicação, ganhou mais corpo. O primeiro papel que conseguiu foi o de um padre que se arriscava no parapeito de um edifício para salvar um fiel desiludido. Na edição, viu que o foco da cena era justamente na careca que ele tentava esconder. Após o susto de ver sua imagem filmada com uma grande angular, entendeu que esse detalhe trazia força ao personagem. Os óculos ajudaram a compor a sobriedade do religioso. Viciou-se no ofício. Foi se aprimorando. Trabalhava com o corpo expressivamente e incorporava reações milimétricas que compunha de madrugada, diante do espelho, após colocar os filhos para dormir.

 

No almoço de domingo, o pai notou alguma diferença no seu comportamento,  insinuou que Eurico parecia levemente drogado e pediu discretamente ao filho que se afastasse da codeína. Ele mesmo, quando mais jovem, já havia passado por isso…Eurico desconversou e foi ajudar a mãe a servir o assado. Na mesa, contou sobre o filme, sem dar nome aos bois, é claro.

Conseguiu um agente, que lhe indicava trabalhos. Não recusava nenhuma proposta e passou a ter dificuldade em cumprir os horários das consultas. Decidiu dispensar a secretária e passou a cuidar pessoalmente de sua agenda. Desmarcava os clientes com desculpas convenientes e criativas, que roubava dos roteiros que recebia.

Enquanto aguardava um teste, encontrou numa sala de espera o antigo diretor, usando o mesmo blazer de veludo que sempre vestia nas estreias teatrais. Pensou em cumprimentá-lo, mas recuou ao descobrir que estavam disputando o mesmo papel.

A mulher desconfiava que ele tinha um caso, mas Eurico sempre encontrava um jeito de driblá-la. Relutava em contar o que fazia. Ia contar um dia, porém ainda não era hora.

Até então, sua vida foi assombrada pela falta de ousadia, pela mesmice, pela sombra do pai que se agigantava nas inúmeras vezes em que tentou se arriscar, e que desde pequeno o tratou como um bonsai, aparando suas arestas para que não crescesse demais, além dos limites do vaso.

O fato de ter uma vida secreta era importante na composição dos seus personagens. Foi fundamental quando, de peruca loura, dublou uma prostituta que se infiltrou numa delegacia e conseguiu provas contra um delegado corrupto. Um dos seus melhores papéis.

Pressionado pelas mentiras que contava, pensou até em contratar um dublê para ficar no seu lugar, enquanto trabalhava numa filmagem importante. Riu de sua ideia louca. Riu sozinho. Não era mais um quase. Era um dublê. Estava feliz.

SOBRE A AUTORA

DENISE CRISPUN – Carioca, formada em História, enveredou pelas letras, pelo teatro e pela contação de histórias em diferentes formatos. Colaboradora de novelas, escreve também programas de humor. Sem preconceito linguístico

ou de estilo, salta do drama à comédia apenas pulando um parágrafo. Curiosa por natureza, vai detectando os deslocamentos. Sua escrita é feita em movimento. E muitas vezes, enquanto escreve, pedala. Passa por mal educada,

pois não costuma escutar quem a chama no caminho. Fala muito sozinha, mas nunca está só, pois vive cercada de personagens.