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Xaveco de Buteco: Conto #4 Half Windsor

Meu pai era apaixonado por gravatas. Aliás, nem tanto por gravatas, mas por nós de gravata. Tinha vários livros sobre o assunto e vivia treinando variantes inéditas. Chegou mesmo, durante algum tempo, a se corresponder com um improvável clube em Buenos Aires de apreciadores de nós de gravata. Certa feita assistiu a um filme em que, durante um diálogo, Frank Sinatra dava um nó que lhe pareceu completamente original. Pois assistiu ao filme inteiro várias vezes, nessa época pré DVD, até decifrar que, na verdade, se tratava de uma variante do Half Windsor, seu nó preferido. Várias vezes me mostrou as virtudes deste nó:  sua simetria prefeita, seu encaixe adequado ao colarinho, a forma como permitia a gravata descer centrada e sem uma ruga.

Um dia, eu estava passeando por uma ruazinha no Marais e vi a pequena loja de um gravateiro artesanal. Entrei no pátio calçado de pedrinhas e fui até o ateliê do gravateiro.

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Era um senhor de idade, discreto, sóbrio, elegante e simpático. Mostrou-me vários modelos dos quais separei quatro, que me pareceram lindos.

Enquanto ele embrulhava minhas gravatas peguei uma que restara sobre o balcão e comecei a colocar no pescoço para ver como ficava. Ele parou de fazer o embrulho e disse:

– Em trinta anos vendendo gravata nunca vi quem desse esse nó.

– É uma variante muito peculiar do Half Windsor.

– Eu sei.

– É o meu preferido.

– O meu também.

– Foi meu pai quem me ensinou.

– O meu também, disse ele sorrindo. Leve esta gravata como presente meu.

E ficamos nós dois, no fim de uma tarde outonal no Marais, pensando na força deste adereço masculino e seu simbolismo eloquente.

SOBRE O AUTOR

JUSTINO VIEIRA – Engenheiro de Estruturas, Professor de Engenharia na UFF e Arquitetura na PUC-RJ, leitor obsessivo, e que passou a vida inteira às voltas com números e contas, mas aprendeu com Drummond que “a luta com palavras é a luta mais vã.”