Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Xaveco de Buteco: Conto #5 Faxina

Passou o pano no corredor com vontade, até ele ficar tão encardido que só deixando de molho a noite inteira na água sanitária, para reutilizar. Podia até jogar fora e pegar um novo no armário, mas foi assim que aprendeu com a mãe, quando era menina. E quanto mais fino ficava, mais forte a sensação do dever cumprido. Trabalhava há seis meses na universidade. Foi uma vizinha que indicou, com pena das quatro crianças que via aboletadas na soleira, esperando qualquer sobra que houvesse. Mas ali, onde moravam, quase ninguém tinha o que doar. O emprego caiu do céu, e para ela cada esfregada bem dada era um comprovante do agradecimento.

A universidade pagava pouco, mas dava uniforme, material de higiene a direito a comer com os estudantes no bandejão.  Nem num sonho ela podia imaginar tamanha fartura. Pena que o uniforme não tinha bolso para carregar tanta comida que sobrava. A primeira vez que viu o quanto deixavam no prato ficou até tonta, e o rapaz responsável pela faxina dos banheiros veio acudir. Alegou um mal-estar qualquer, mas a imagem ficou na cabeça. Tanta coisa boa jogada fora: acelga, nunca tinha ouvido falar, achava engraçado a pronúncia, e quando contou em casa, o filho riu tanto, que ficou com esse apelido até completar quinze anos, quando foi pego por furto e internado no reformatório. Os tomates vinham inteiros, brilhando, e para seu espanto estavam ali para servir de decoração, por cima da alface, que na maioria das vezes também era deixada de lado. Nunca entendeu porque as saladas faziam tanto sucesso. Bom mesmo era cair de boca na vagem douradinha, no feijão de caroço inteiro, no arroz solto e perfumado de alho, que ela comia com os olhos fechados, para guardar bem o sabor. Quando chegava em casa contava para os filhos cada detalhe das refeições. Não conseguia ajudar a mais velha com as contas, pois mal sabia assinar o nome, mas depois que arrumou o emprego, inventou um jeito de incentivar a menina

– Imagina que você tem cinco cebolas, que vem junto com mais cinco bifes, dez coxas de frango bem temperadas e uma travessa de aipim bem fritinho, mais uma dúzia de banana pra sobremesa, quanto dá essa conta?

- Advertisement -

A filha ria, tentando somar tanta gostosura.

Ela seguia esfregando os corredores, gastando o pano até encardir, a vida mais leve e a barriga mais cheia, como nunca havia sido. No sétimo mês, conseguiu costurar um bolso no uniforme. No compartimento secreto trazia acelga, pedacinhos de bife e tomate amassadinho para enfeitar o prato dos filhos.

Quando fez cinco anos, Acelga pediu para ir junto com ela, queria conhecer a universidade. Levou o garoto escondido, e deixou ele esperando no armário das vassouras, perto da creolina. O cheiro forte fez o garoto tossir, mas o rapaz da faxina do banheiro foi gente fina, não contou para ninguém, até ajudou, e Acelga pode provar, nesse dia a carne moída com chuchu ainda quentinha, num prato de papelão.

No sétimo mês de trabalho, com o orçamento da universidade apertado, diminuíram o número de empregados e os cortes iriam atingir desde funcionários graduados até o pessoal da faxina. A agonia da espera durou duas semanas, mas ela respirou aliviada quando descobriu que ia ser mantida no quadro de funcionários.  O preço a pagar foi o trabalho que aumentou. A coluna incomodava, tossia de noite, e a mão descascou por conta do cloro, mas tudo foi compensado quando ela conheceu a Juliana de legumes. Só de ver disposta na mesa ela aguava, cada bocado desmanchava na boca. Evitou descrever para os filhos, pois a Juliana não cabia no bolso, não tinha jeito de colocar.

Enquanto varria, no corredor, ouvia parte das aulas. Difícil acompanhar tanta falação, a professora de voz pausada, alguns alunos provocando debate, questionando: por quê? Por quê? Risadas, silêncios, então era assim que estudavam? As palavras que nunca escutara na vida saltavam em sua cabeça, preenchendo seu tempo, espantando a repetição.

No oitavo mês, trocaram seu turno para a noite. A rua escura e perigosa, foi assaltada duas vezes, fingiu que não viu a filha de doze no beco, apertando um baseado e o coração apertou. Nessa noite não conseguiu dormir. Passou a vida a limpo, e colocou na balança tudo o que tinha.

No dia seguinte, pediu para trocar de turno e agradeceu muito quando o pedido foi aceito e ela pôde voltar a encher os bolsos de gostosuras.

Mas a alegria durou pouco. Antes de completar um ano de casa vieram as eleições, e o novo presidente foi cortando tudo. As verbas para a universidade foram minguando, igual a comida do bandejão. Mas, o rapaz agora morava com ela. Sem emprego, era mais um para comer, e ainda havia o bebê que em breve ia chegar. Não era seu hábito desanimar, mas chorou no dia que viu fecharem as portas do restaurante.

Enquanto os estudantes gritavam no pátio da faculdade, ela teve o cuidado de retirar os bolsos do uniforme antes de devolver. Ensinou sua filha mais velha a varrer, passar o pano até deixar o chão brilhando, e o bebê nasceu gordo e saudável: Juliana, lembrança de felicidade.

SOBRE A AUTORA

DENISE CRISPUN – Carioca, formada em História, enveredou pelas letras, pelo teatro e pela contação de histórias em diferentes formatos. Colaboradora de novelas, escreve também programas de humor. Sem preconceito linguístico ou de estilo, salta do drama à comédia apenas pulando um parágrafo. Curiosa por natureza, vai detectando os deslocamentos. Sua escrita é feita em movimento. E muitas vezes, enquanto escreve, pedala. Passa por mal educada, pois não costuma escutar quem a chama no caminho. Fala muito sozinha, mas nunca está só, pois vive cercada de personagens.