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Xaveco de Buteco

Xaveco de Buteco: Conto #5 Trêm Bão

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Há muitos anos, logo que nos conhecemos, Monica e eu fomos passar uma Semana Santa em Mariana. Na verdade, a intenção era ficar em Ouro Preto, que, segundo consta, disputa com Sevilha  a primazia da Semana Santa mais sensacional do planeta, mas o dinheiro estava curto pelo processo de Separação, de forma que o jeito foi ficar mesmo em Mariana. Mais exatamente no Hotel Faísca. O nome diz tudo…. Justiça seja feita: super limpinho.

Pois, um dia descobrimos que havia (não há mais) um trem que ia de Mariana para Ouro Preto. Tratava-se de uma linha regular, comercial, sem concessões turísticas.

Fomos à Estação e no Guichê de Informações fui atendido por um senhor que me esclareceu que, de fato, havia a linha, me passou os horários e, ao final, esclareceu que, a composição estava atrasada 3.000 minutos. Fiquei de voltar mais tarde e só depois me dei conta que 3.000 minutos são 5 horas! Eu tenho a impressão de que esse hábito (creio que é de fato um hábito) de informar o atraso em minutos, deve ser uma herança da The Leopoldina Railways cujos trens inicialmente eram usados para acertar o relógio das cidades onde chegavam. Desta forma, a unidade “minuto” deve ter sido considerada adequada pelos ingleses, e mais de um minuto seria algo provavelmente intolerável. Com o passar do tempo, e a perda de certas peculiaridades britânicas, a tradição ficou, porém a unidade de medida do atraso assumiu proporções bizarras. Meditei sobre isso enquanto, ao longo de toda a tarde, por diversas vezes fui à estação me informar do atraso, uma vez que custava a acreditar nos tais 3.000 minutos. A cena sempre se repetia: ia ao Guichê de Informações, encontrava o mesmo funcionário, perguntava pelo trem para Ouro Preto e ouvia a previsão de chegada.  Sempre em minutos. Enfim, na 5a ou 6a tentativa, cumpri o mesmo ritual e o senhor me informou que o trem chegaria em breve. Já eram quase 10:00 da noite! Disse que gostaria de comprar duas passagens e ele pediu que eu me dirigisse ao guichê ao lado, destinado à venda de passagens. O mesmo percurso que eu fiz pelo lado de fora da Estação, indo de um guichê a outro , ele fez pelo lado de dentro e assim , inevitavelmente, nos encontramos. Ele então se dirigiu a mim:

– Boa noite. O que deseja?

Ainda boquiaberto com a rapidez com que ele assumira a persona de Bilheteiro, murmurei:

– Duas passagens.

O Funcionário, impávido:

– Para onde?

Só me cabia fazer minha parte do diálogo surreal:

– Para Outro Preto.

Recebi as passagens e ficamos esperando. Enquanto ele, já ocupando outra mesa (era a única pessoa na Estação), decifrava um imenso telegrama. Lá pelas tantas concluiu que o trem estava enfim chegando mesmo. Envergou o paletó, colocou um belo quepe que ostentava a brilhante insígnia da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas), botou duas bandeirinhas , uma verde e outra vermelha, embaixo do braço e foi para a beira da linha. De fato, logo depois apareceu o trem. Em outra linha, às costas dele…. Superada essa pequena surpresa, ele providenciou todo o protocolo para despachar a composição e lá fomos nós em uma viagem –  não há como não usar a expressão tão desgastada – mágica!

O trem vazio, sacudindo sua carcaça como só um trem mineiro sabe fazer e no céu, uma lua cheia de arrebatar dois corações apaixonados. Lá pelas tantas chegou ao nosso vagão (nosso mesmo, só havíamos nós) o Bilheteiro. Um senhor de idade, de terno preto, que conferiu as passagens, furou-as com o alicate próprio e sentou-se alguns bancos a frente para preencher uma planilha das passagens vendidas. Abriu com cuidado a enorme caderneta em papel quadriculado repleta de números meticulosamente alinhados, onde acrescentou mais alguns com um lápis Johann Faber Nº 2, daqueles de borracha na ponta. Era fascinante ver aquele velho funcionário, muito compenetrado, anotando informações possivelmente inúteis, mas que faziam parte das obrigações que cumpria com zelo, sabe-se lá há quantas décadas.

Naquele ambiente, naquelas circunstâncias, com aquela paisagem e aquela Lua, qualquer um entendia instantaneamente o que é o Brasil….

Enfim chegamos. Saltamos em Ouro Preto em uma Estação totalmente vazia, fomos em direção à Cidade seguindo tão somente nossa intuição e de repente, do alto de uma ladeira, vislumbramos o casario de Ouro Preto com os telhados  banhados pela luz da Lua.

Parece que foi ontem. Parece que foi sempre.

SOBRE O AUTOR

JUSTINO VIEIRA – Engenheiro de Estruturas, Professor de Engenharia na UFF e Arquitetura na PUC-RJ, leitor obsessivo, e que passou a vida inteira às voltas com números e contas, mas aprendeu com Drummond que “a luta com palavras é a luta mais vã.”

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Prazer! Sou a Ana.

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Prazer! Sou a Ana.

Aos 30 de setembro, vim ao mundo, parto natural, recebi o nome de Ana. Casa cheia. Eu, meus pais e irmãos. Tinha também o Floquinho e a Belinha, nossos peludos. Andei, falei, corri, brinquei, aprendi a escrever, como toda criança! Vivi uma infância feliz.

Ah, não! Espinhas na cara. Chegou a menarca? Que saco! Conflitos, insegurança, noias na cabeça, raiva, brigas, tédio… odeio estudar! Ainda perguntam “qual é a faculdade que quer fazer?” Vestibular, dezenas de apostilas, horas de estudos. Aprovada! Agora sou universitária. Faculdade, liberdade, a turma de amigos. Finalmente, sou “de Maior”. Posso tudo! Tenho os passaportes da vida adulta: CNH, diploma e carteira de trabalho.

Trabalho, trabalho, trabalho, contas a pagar, muitas responsabilidades. Bem-vinda à maturidade! Onde fica a diversão? Prazeres? Só por algumas horas. Trânsito, estresse, injustiças, puxa-saco promovido. Já te falei que odeio meu chefe?! Estudei tanto para fazer isso?! Não quero mais esse emprego. Se eu pedir as contas, o que vou fazer? A vida tá um saco! Tô tão triste. Nada tem sentido. Comecei a terapia. Desacelerei, mudei de estilo de vida, parei de dar bola para minha mente. Ela me deixava maluca. A vida tá legal. Acho que conheci o amor da minha vida. Vamos nos casar? Filhos? Não! Quero independência, um amor leve e do meu jeito. Ele no seu canto e eu no meu recanto. Assim está tão bom!

Silhouette of little girl raising hand to freedom happy time

Olho no espelho e ainda reluto a acreditar: estou velha! Os anos passaram tão rápido. Demoro para perceber que aquelas rugas e as manchas na pele são minhas! Minhas? Não é possível! A realidade só toma corpo quando lembro das despedidas. Despedir nunca foi fácil. Lembrar de quem já partiu me deixa mal. Melhor mudar de assunto. Assim, sem perceber, um dia, o corpo não acompanhava mais a mente. Esse descompasso causou alguns acidentes. No último tive de fazer dezenas sessões de fisioterapia. Era isso ou entrar na faca. Deus me livre! Ufa, ainda bem que meu corpo ajudou. Conversava com minha perna todo dia “pode tratar de curar ou prefere passar por uma cirurgia e ficar com uma cicatriz?” Ela, como filha obediente, foi gradativamente melhorando. De resto, tudo vai bem. A cabeça às vezes dá uns apagões. Alguns até desconcertantes. Em reuniões familiares, noto os olhares entre os mais jovens como que dizendo “será que é Alzheimer?” Dou risada por dentro. Sinto vontade de falar “não tô gaga ainda, só velha mesmo!”. Em casa, os dias passam, sem nenhum compromisso marcado, sem pressa, não há chefe me esperando, marido aguardando o almoço ficar pronto, filho perguntando se vi a calça que ele tanto gosta. Não, não pensem, que a minha vida é triste e solitária. Essa é a vida que escolhi. Nem pior ou melhor, mas a que escolhi!

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Vó Raissa

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Desde a liberação de novas áreas de assentamento na Cisjordânia, a Intifada voltara furiosa. Os confrontos eram diários e a violência crescente.

Meus irmãos, Ahmed e Khaled, já não iam à aula há três dias, o tempo inteiro nas ruas do bairro, se escondendo atrás dos carros e arremessando pedras nas patrulhas israelenses. No início eles respondiam com gás lacrimogênio, mas depois que alguns soldados israelenses se feriram, balas de verdade passaram a ser utilizadas provocando mortes. Sem choro; seria bobagem mesmo.

Morávamos com nossa avó Raissa desde que nossos pais se foram, nem vou detalhar como. Seria bobagem mesmo.

Vó Raissa passava o dia todo na cozinha fazendo nossas refeições. Fazia comida e milagres com a precariedade de recursos e mantimentos que tínhamos, alheia a tudo além de suas panelas. Parecia uma sombra. Eu nunca percebera, o mais minimamente, o que se passava em sua cabeça. Nem tentava, seria bobagem mesmo.

E eu, estudava o Alcorão. Há três anos entrara para a Escola Corânica e o Sufi que me orientava, um verdadeiro homem santo, à medida que se entusiasmava com meus progressos, ficava cada vez mais exigente. Tinha três Suras para estudar por semana e, acredite, isso é muita coisa se você quer mesmo penetrar no seio de Alá.

Minha avó via meus irmãos saírem toda manhã com a cabeça coberta pelo Keffiyeh e só voltarem, já tarde da noite, sempre com alguns ferimentos. Ela não dizia nada, seria bobagem mesmo.

Também me via lendo o Livro horas a fio e igualmente não dizia nada. Sua cabeça era um mistério.

Certo dia, tão similar aos anteriores, eu estava sozinho em casa estudando o Sura do Trovão, um dos mais difíceis, e ela passou por mim, tocou muito levemente minhas costas e disse:

“Escolha uma pedra, coloque-a na mão e dê a volta no quarteirão”.

Fechei o Livro sagrado e obedeci imediatamente.

Só Alá é Deus e Maomé, o seu Profeta.

SOBRE O AUTOR

JUSTINO VIEIRA – Engenheiro de Estruturas, Professor de
Engenharia na UFF e Arquitetura na PUC-RJ, leitor obsessivo,
e que passou a vida inteira às voltas com números e contas,
mas aprendeu com Drummond que “a luta com palavras é a luta mais vã”

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Marcas desumanas em paredes brancas

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Os arbustos pareciam distantes. As colinas, de um verde jovial, reluziam ondulantes no horizonte. Algumas folhas regiam a sinfonia do vento com clássica doçura, enquanto outras sacolejavam e insistiam na segurança da raiz. O riacho conversava com as pedras em tom ameno, recitando versos de ternura. O céu, mesclado de azul e cinza-claro, se modelava e se deformava, adaptando a manhã aos desejos da natureza.

A janela de vidro ainda tinha sinais embaçados da madrugada. Gotas solitárias escorriam de uma madeira a outra. A temperatura interior estalava na lenha contorcida da lareira. O clima parecia aconchegante, apesar de gélido. O sol, ainda parcialmente desperto, e sabendo de seu poder, evitava lançar seu charme de forma abrupta sobre o gramado. As árvores respiravam pausadamente, trabalhando sem pressa.

Ao lado da lareira, as estantes enfileiravam e organizavam o repertório de uma Era. Os livros, sem lar vertical, se amontoavam pelos cantos em lógicas definidas. Dois deles, por motivos distintos, repousavam na mesinha de centro, juntos a riscados e rabiscos. A gaveta emperrada guardava segredos de décadas. No criado-mudo, fotografias e recortes de jornais antigos contavam mentiras de povos perdidos.

Os lençóis, trocados recentemente, ostentavam uma brancura quase transparente. Nas cortinas de seda cara imperava um branco fosco, duro e intransponível. As paredes eram sujas, manchadas com marcas humanas e desumanas. Pouco era possível recordar do tempo em que elas também eram brancas. Do tempo em que a janela permanecia aberta e o coração permanecia vívido. Do tempo em que o infinito aparentava estar mais distante que os arbustos das colinas. Do tempo em que o infinito estava do lado de lá, das gotas solitárias.

Suspirei.

Tudo estava branco novamente.

 

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Bombando!