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Xaveco de Buteco: Conto #9 Vó Raissa

 

Desde a liberação de novas áreas de assentamento na Cisjordânia, a Intifada voltara furiosa. Os confrontos eram diários e a violência crescente.

Meus irmãos, Ahmed e Khaled, já não iam à aula há três dias, o tempo inteiro nas ruas do bairro, se escondendo atrás dos carros e arremessando pedras nas patrulhas israelenses. No início eles respondiam com gás lacrimogênio, mas depois que alguns soldados israelenses se feriram, balas de verdade passaram a ser utilizadas provocando mortes. Sem choro; seria bobagem mesmo.

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Morávamos com nossa avó Raissa desde que nossos pais se foram, nem vou detalhar como. Seria bobagem mesmo.

Vó Raissa passava o dia todo na cozinha fazendo nossas refeições. Fazia comida e milagres com a precariedade de recursos e mantimentos que tínhamos, alheia a tudo além de suas panelas. Parecia uma sombra. Eu nunca percebera, o mais minimamente, o que se passava em sua cabeça. Nem tentava, seria bobagem mesmo.

E eu, estudava o Alcorão. Há três anos entrara para a Escola Corânica e o Sufi que me orientava, um verdadeiro homem santo, à medida que se entusiasmava com meus progressos, ficava cada vez mais exigente. Tinha três Suras para estudar por semana e, acredite, isso é muita coisa se você quer mesmo penetrar no seio de Alá.

Minha avó via meus irmãos saírem toda manhã com a cabeça coberta pelo Keffiyeh e só voltarem, já tarde da noite, sempre com alguns ferimentos. Ela não dizia nada, seria bobagem mesmo.

Também me via lendo o Livro horas a fio e igualmente não dizia nada. Sua cabeça era um mistério.

Certo dia, tão similar aos anteriores, eu estava sozinho em casa estudando o Sura do Trovão, um dos mais difíceis, e ela passou por mim, tocou muito levemente minhas costas e disse:

“Escolha uma pedra, coloque-a na mão e dê a volta no quarteirão”.

Fechei o Livro sagrado e obedeci imediatamente.

Só Alá é Deus e Maomé, o seu Profeta.

SOBRE O AUTOR

JUSTINO VIEIRA – Engenheiro de Estruturas, Professor de
Engenharia na UFF e Arquitetura na PUC-RJ, leitor obsessivo,
e que passou a vida inteira às voltas com números e contas,
mas aprendeu com Drummond que “a luta com palavras é a luta mais vã”