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Xaveco de Buteco: Poema #1 Calabouços e cala-bocas

Quando percebi, tudo era horizonte.

Tudo era estrada, caminho.

Tudo era ida. Nada era volta.

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As árvores e as cercas passavam indiferentes.

Os sonhos apontavam para o sul. O coração apontava para o norte.

Os filhos e os pais apontavam para a morte.

 

Quando percebi, tudo era saudade.

Tudo era solidão, maldade.

As velhas fotografias amarelavam com o passar das horas.

Com o passar das árvores, das cercas, dos amores.

Com o passar dos sonhos.

A pele também amarelava com o passar das dores.

 

Quando percebi, tudo era lembrança.

Todos eram adultos. Eu era criança.

Tudo era desprezo. Nada era esperança.

A paisagem era só vidro e gota d’água.

Paisagem sem som, só fúria.

Paisagem de silêncio, de censura.

O desejo de liberdade era marcado a ferro fervente.

À navalha na carne, a ouro no dente.

Quando percebi, já era tarde.

Tudo era arame, pele sangrando.

Os suores e os odores anestesiavam os prisioneiros.

Minha poesia ecoava pelas tabernas, também anestesiando.

Meus olhos eram de fera, algo de besta, de canino.

Devorava o cordeiro, engolia seu destino.

 

Quando percebi, a jaula estava aberta.

Tudo era corredor, escuridão. Tudo era revolta, podridão.

As bocas e os cadáveres passavam indiferentes.

As fotografias amareladas passavam indiferentes.

As cercas, a solidão, o ferro fervente.

O desprezo, a paisagem, a navalha na carne de toda gente.

Tudo era areia, nada era mar.

Nada pra amar.

 

Quando a vida me percebeu, eu já havia tentado voar.