Assimilando criticamente o algoritmo do Netflix

EM TEMPOS NOS QUAIS O SERVIÇO DE STREAMING DO NETFLIX é cultuado por milhões de fãs do entretenimento – ou não-filisteus, como diria o personagem de Jeff Daniels no excelente “A Lula e a Baleia” – por todo o globo terrestre, propor-se a contestar uma de suas vertentes ganha ares de boicote, um panfletário “deixe de assinar”. É interessante, porém, como esta percepção exagerada é idêntica àquela que considerável parte do público possui a respeito das críticas cinematográficas, justamente o principal conteúdo do Cinema de Buteco: embora a proposta de tal gênero textual seja analisar criticamente uma obra artística, em seus aspectos técnicos bem como subjetivos, levantando pontos positivos e negativos, e realizando uma interpretação conjuntiva, insiste-se em criar um consenso equivocado de que o papel do crítico é dizer “assista” ou “não assista”, sendo assim um dos principais responsáveis pelo sucesso ou fracasso de uma produção; pois esta – a correta, evidentemente – é precisamente a proposta deste texto, analisar criticamente – reconhecendo os âmbitos positivos e negativos, reafirmo – o funcionamento do conhecido “algoritmo Netflix” e questionar as consequências de sua ação sobre o público que utiliza o serviço, sem qualquer intenção de incentivar o cancelamento – ou mesmo a assinatura – do mesmo, demonstrando que fazemos crítica cinematográfica até mesmo involuntariamente.

 

Tal necessidade de questionamento e compreensão passou a existir apenas diante da conclusão de que o Netflix revolucionou legitimamente a indústria audiovisual por, num período relativamente curto, tornar-se o principal meio pelo qual milhões de pessoas assistem a filmes e séries, implicando alterações efetivas não apenas na maneira de se produzir e distribuir entretenimento, como também no “comportamento cultural” do público que o consome – e este é um objeto merecedor de estudo. O serviço de streaming mais popular do mundo provavelmente não teria alcançado este título caso contasse com um funcionamento tão simples quanto apenas adquirir produtos de entretenimento junto às suas produtoras e inseri-los numa plataforma de exibição para os seus assinantes, portanto, utiliza-se de ferramentas adicionais, com destaque para o tal “algoritmo”.

 

A lógica deste recurso não possui grande complexidade, tratando-se apenas de um instrumento que analisa dados de utilização da conta Netflix de cada um de seus usuários para transformá-los em informações que construam um “perfil” dos mesmos e, a partir disto, possam oferecer indicações específicas para cada indivíduo, assim que ele abre sua interface no programa. Ou seja: a barra de recomendações presente em sua tela inicial do Netflix não é composta por um acaso, e se você assistir e gostar de algum dos títulos nela presentes, temos um bingo! do algoritmo. Reed Hastings, CEO da plataforma, declarou que “as estrelas são baseadas no seu perfil e indicam quão compatível com o seu gosto é aquele título ou não”, portanto, não apenas as listas iniciais, como também as estrelas de avaliação anexadas a cada item do acervo, não refletem uma “opinião geral” dos usuários sobre o mesmo, mas sim uma direcionada especificamente a você, caro assinante. O Netflix te conhece, e provavelmente sabe o quanto você gostará de um filme ou série disponibilizado por ele.

 

O tempo passou. “Ao coletar dados de todo o mundo e de países de diversos tamanhos, nossos algoritmos globais são capazes de acessar essas informações para fazer recomendações apropriadas e consistentes para essa comunidade específica.”, afirma comunicado oficial, evidenciando que a ferramenta acompanhou a expansão do serviço e seu redimensionamento global. No mesmo ritmo, a apropriação dos dados através dela obtidos ganhou uma nova amplitude, tornando-se influente naquele que foi mais um marco para o Netflix: House of Cards. Série que tornou-se um sucesso absoluto de público e crítica, a saga de Frank Underwood jamais existiria sem o algoritmo, que utilizou as constatações de que a maioria dos usuários do serviço já havia assistido a “A Rede Social”, de David Fincher, avaliavam bem trabalhos com Kevin Spacey e eram admiradores da versão britânica e homônima da série; bastou combinar estes elementos e, bem, mãos à obra. O resto desta história nós já conhecemos, e sem o sucesso de House of Cards, hoje não teríamos Orange is The New Black e Stranger Things, por exemplo.

 

É pertinente afirmar, então, que não haja nada a ser questionado a respeito do algoritmo Netflix, uma vez que o mesmo nos recomenda filmes dos quais gostaremos e possibilita a produção de excelentes seriados. Bem, isso é inegável – mas analisar mais profundamente é algo que quase nunca deve ser dispensado. Pensaremos em outro fato sobre este instrumento: estatísticas comprovaram que 75% dos vídeos acessados através da plataforma só o foram pelo fato de o software tê-los exposto na tela inicial do assinante; de maneira mais objetiva, isto equivale a dizer que três a cada quatro usuários do Netflix assistem apenas às obras que o algoritmo os recomenda – e num cenário em que este passa a ser o principal (talvez o único) meio de tantas pessoas assistirem a filmes e séries, isto indubitavelmente passa a apresentar consequências.

 

Partindo para um conhecimento mais profundo do método operacional do algoritmo, passamos a entender que o Netflix seleciona um grupo de pessoas – a digitalização não é absoluta – para caracterizar cada título disponibilizado pelo serviço sob uma perspectiva bastante criteriosa, dividida em múltiplos pontos: além do gênero, são especificados grau de exigência intelectual, reviravoltas na trama, dificuldade de acompanhar (atenção necessária), comicidade, comoção, romantismo, armas, caráter moral do protagonista, entre outros quesitos. Logo, a cada vez que terminamos de assistir a algo através do streaming, a presença destes pontos na obra passa a ser atrelada à construção de seu perfil e sua “linha de preferências”; não menos importante, deve ser lembrado que o algoritmo considera mais relevante aquilo que tenha sido assistido mais recentemente – portanto, caso você esteja vivendo um momento melancólico e tenha assistido a alguns “dramas indie” no último final de semana, não se espante caso sua tela inicial do Netflix passe a ser recheada por mais “dramas indie”.

 

Para esta abordagem, vivi recentemente um exemplo bastante efetivo: durante as férias, houve um período no qual estive preferencialmente apreciando comédias, tendo assistido a três ou quatro títulos do gênero através do serviço num espaço de uma semana; quando acessei-o novamente, contei, rolando pela tela inicial, nada menos do que sete (!) categorias que, embora com nomes distintos, eram dedicadas exclusivamente a filmes cômicos – eram elas: comédias, filmes besteirol, filmes de fim de noite, balada forever (!), comédias românticas, comédias obscuras, comédias pastelão -, enquanto haviam sumido da interface os filmes dramáticos – oposição à comicidade – e os clássicos – notei que todas as produções às quais havia assistido naquela semana eram do século XXI, o que me afastaria naquele momento de um usuário com “perfil” apreciador de longas mais “antigos” -, levando-me à necessidade de procurá-los com maior especificidade. Seria ingênuo demais considerar aquilo uma mera coincidência.

 

O Netflix sempre te oferecerá produções semelhantes àquelas que você já gosta – e suas intenções são absolutamente positivas. No entanto, é necessário assimilar a possibilidade de uma das consequências desta ação ser a criação de uma massa cujo campo cultural será cada vez mais restrito – afinal, quando o sujeito passa a assistir apenas ao mesmo tipo de filmes ou séries, seu repertório será redundante, curto, superficial. O comportamento cultural proporciona a fuga completa de um conformismo preocupante, por meio do enfrentamento das preferências vigentes, oferecendo ao indivíduo novas visões de mundo, distintas experiências artísticas e, é claro, entretenimento variado – portanto, manter-se sempre preso às mesmas “programações” é o desperdício destas possibilidades.
A possível criação de uma espiral do silêncio a partir desta nova lógica de acesso ao entretenimento pode ser mais facilmente evitada na era da disseminação da informação, a qual nos possibilita conhecer e acessar múltiplas outras maneiras de consumir cultura; assim, embora este que vos escreva esteja constantemente repudiando a renovação das mídias como esta se deu, sua responsabilidade em ampliar as alternativas para assistir a obras audiovisuais é inegável, portanto nada mais justo do que explorá-las ao máximo – além do Netflix, devemos nos manter comprando e alugando (sim, ainda o faço) Blu-rays e DVDs, aproveitando a programação televisiva, utilizando serviços variados de streaming (conhece o Oldflix? E o Crackle?), e, claro, indo ao cinema com a maior frequência possível (desde que hajam sessões legendadas disponíveis, claro). Por fim, deve ser lembrado que o assinante pode escapar da lógica do algoritmo viajando ao máximo pelo catálogo ao qual tem acesso, através das sessões de gênero, das 210 subcategorias escondidas (neste link) e de programas que permitem uma visualização distinta do acervo (como o What is on Netflix ?, neste link).

Só há uma ação necessariamente exigida para afugentar-se de um círculo vicioso, e esta atende pelo nome de fuga do conformismo.

Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.