Black Mirror: O desvelamento do óbvio

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O DESVELAMENTO CONFIGURA UM PROCESSO que, “Na metafísica de Heidegger, significa a ideia segundo a qual o ser da coisa se desvela, manifesta-se nas condições mesmas de seu aparecer, de seu “fenômeno”, a verdade nada mais sendo que a manifestação do ente, enquanto ele deixa de ser ocultado pelas preocupações da vida cotidiana, e do caráter aberto do ser.”, segundo a definição do Dicionário de Filosofia Sérgio Biagi Gregório, num significado que atende fundamentalmente à reflexão aqui proposta sobre a terceira temporada de Black Mirror. Afinal, somente a existência de processos muito competentes de ocultamento e alienação pôde incumbir à tecnologia a criação de uma massa que se posiciona de maneira tão satisfeita e condescendente com tudo o que foi e é concebido pela “era tecnológica”, sem qualquer rastro de contestação – e desvelar a natureza de tais processos é missão não apenas da série abordada, mas também de outros meios de questionamento cuja realização deveria ser proposta com sinal de urgência.

Justifica-se a necessidade inicial de afirmar, portanto, que recomendar esta terceira temporada de Black Mirror é reconhecer, apesar de suas falhas, a inevitabilidade de sua contra-narrativa. Agora sob a tutela do Netflix, a série enfrentou em seu ano de número três uma dificuldade consideravelmente maior para arquitetar uma narrativa fielmente dedicada à discussão supracitada, comparando aos seus dois capítulos anteriores. Provavelmente soará como um pasteurizado discurso panfletário “anti-indústria cultural”, porém, há de se levantar a possibilidade de que sua absorção por um setor de entretenimento “industrial” e globalizado tenha sido o agente causal de seu máximo defeito: a ferrenha, metálica e despudorada crítica às correntes do contemporâneo, ainda que persista, cedeu parcela significativa de seu espaço para o evidente crescimento de preocupação com a exposição dos dramas pessoais de suas personagens. Aparenta-se uma ideia respaldada pela adoção da lógica do “pensamento universal”, ou seja, a crença de que apenas por meio de conflitos pessoais se gera identificação geral com o público – uma decisão que não se efetiva por algumas razões: a proposição de denúncias firmes a respeito dos rumos que estamos tomando enquanto espécie já atribuía à trama grandes doses de humanidade, como também o faziam os eventos catastróficos agindo sobre os seres humanos ali envolvidos; e, especialmente, esta representou perceptível redução na complexidade com a qual a série desenvolve suas metáforas críticas.

Sucumbem a tal lógica, por exemplo, os episódios San Junipero, ao centralizar um trajeto romântico em detrimento de uma surpreendente e interrompida observação da construção da personalidade como fruto de mera reprodução, e – parcialmente – Nosedive, desequilibrado entre a intensidade no desenvolvimento dos anseios psicológicos de sua protagonista e uma proposição distópica estranhamente próxima. Playtest – que enfrenta o desafio de crescer sob a sombra de The White Bear – e Men Against Fire – depois da tentativa óbvia de uma alegoria à imigração e xenofobia -, firmam-se ao mapearem o caminho da acusação à desenfreada linha prática de poder das corporações privadas e instituições públicas coercitivas, respectivamente.

Aliás, é este último mencionado que contorna algumas das ressalvas à estrutura deste então quinteto fragmentado, levantando o princípio de algumas das reflexões mais pertinentes suscitadas por esta temporada de Black Mirror – e que serão factualmente aprofundadas e efetivadas no memorável Hated in The Nation. O season finale retoma a excelência da série na formulação de um cenário profético sem grandes esforços de roteiro no sentido de uma mitologia ficcional ou mesmo de conflitos interpessoais valorizados; basta-lhe, afinal, compreender as alterações e atritos nas relações humanas como um inevitável reflexo das constantes transições de seu tempo – abdicando, destarte, da prolixidade. A negação da busca por um afastamento tão notável de nossa realidade, diga-se, constitui a sintetização asseguradora de uma trama dotada de abordagem complexa e confrontante das questões que se propõe a tratar.

A proximidade com a qual encaramos o despejo popular de ódio em Hated in The Nation é assustadora no sentido de carência – podemos encarar muito facilmente a coletividade na qual habitamos enquanto carente apenas de um instrumento que os possibilitasse realizar tais atrocidades. Em cheque, múltiplas questões referentes à atualidade: a esfera virtual nas vezes de máscara, concebendo um anonimato convidativo à revelação de pensamentos violentos antes reprimidos; o caráter agregador da internet, coletivizando os mesmos pensamentos para formar uma “rede de intolerância”; e especialmente, a perigosíssima insensibilização que recai sobre uma humanidade submissa aos excessos da apropriação tecnológica.

A decorrer, inicialmente, acerca de sua origem, principiada do desenvolvimento mercadológico e suas necessidades – intitular “necessária” toda e qualquer inovação técnica é requisitada para impulsionar o progresso desenvolvimentista tecnológico. Tal noção desenvolve, conforme passam-se os anos, uma problemática destrinchada por Vilém Flusser no final da década de 1970, aqui nomeada “inversão de extensão”: tendo sido as máquinas criadas à imagem das partes do corpo, imitando-as para a ampliação do cumprimento de suas funções e semelhantes, tornam-se estas extensões daquelas – lógica perigosamente invertida, porém, na medida em que avançamos com as criações maquinarias a ponto de que nosso contato com as mesmas gera dependência; então, nos vemos fadados a repeti-las, tornando-nos irreversíveis extensões.

A priori, o conceito expõe um sentido de origem que teria nos encaminhado ao ponto desde já perceptível – e evidentemente intensificado em Black Mirror. A consequência deste, desenvolvendo-se a plenos pulmões no contemporâneo, é igualmente evidente: considerando as características da era tecnológica do nosso milênio, é óbvio notá-la como propícia não ao desenvolvimento humano e coletivo, mas à perpetuação das lógicas de mercado, à individualização crescente dos meios e à mecanização das relações pessoais. Resultante destes procedimentos serão o consumo desenfreado de aparelhos eletrônicos crescentemente descartáveis, os inflamados discursos de ódio distribuídos pelas redes sociais – resta dúvida de que algum admirador de figuras saudosas das torturas ditatoriais seria capaz de endossar uma corrente assassina como a do episódio que encerra a temporada? -, a preocupante dissolução da empatia e a digitalização congelante das experiências de contato emocional – traçando conexões, há algo mais Nosedive do que o Tinder?. A esfera de dependência técnica interfere, pois, seriamente nas configurações social e mesmo psicológica; vejo-me obrigado a retomar, então, “Educação Após Auschwitz”, texto de Theodor W.Adorno, quando o mesmo observa ainda ao redor da percepção de um véu tecnológico – que Black Mirror parece conscientemente considerar:

“Não se sabe com precisão como a fetichização da tecnologia domina a psicologia individual das pessoas, onde se encontra o limiar de uma atitude racional para com ela e aquela supervalorização que finalmente faz aquele que cria um sistema de transporte para levar as pessoas o mais rapidamente possível a Auschwitz esquecer-se do que acontecerá com elas em Auschwitz. No tipo que tende para a fetichização da tecnologia trata-se, simplesmente, de pessoas incapazes de amar. Isso não tem uma conotação sentimental, nem tampouco moralizante, mas designa o insuficiente relacionamento libidinal com outras pessoas. São pessoas essencialmente frias, que devem negar no seu íntimo a possibilidade de amar e cortam o amor pela raiz, antes que possa desabrochar em outras pessoas. O que nelas ainda sobrevive da capacidade de amar, elas precisam usar em coisas materiais.”

Desta forma, é um exercício bastante complexo distinguir as atitudes dos nazistas observadas por Adorno, dos usuários das mídias sociais expostos por Hated in The Nation e, bem, dos indivíduos que compõem nossa realidade. Entre o criador do sistema de transporte nazista e os atos causados por sua criação, existe um véu; entre os apoiadores virtuais da morte de determinadas figuras e os cruéis assassinatos das mesmas, existe um véu; entre os que hoje ofendem um ser humano por meio das redes sociais e a depressão do mesmo, entre os que celebram e compartilham o vídeo do linchamento de um jovem e o sofrimento de sua família, entre os que criam digitalmente conteúdo ofensivo às minorias e a exclusão social sentida na pele pelas mesmas, em todos esses atritos, existe um véu – encobrindo a construção de um cenário devastador, cujos arquitetos conhecemos bem. Black Mirror propõe-se a retirá-lo, desvelando o real – e enquanto prosseguir empenhando-se em fazê-lo, será uma obra indispensável, ainda que imperfeita.

Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.