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Buteco Pelo Mundo #2 – Arábia Saudita

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NOSSA VIAGEM PELO PLANETA COMEÇOU NO SUDESTE ASIÁTICO, quando conhecemos o cinema do Laos na primeira edição da coluna Buteco Pelo Mundo. Agora damos um pulo no Oriente Médio para saber como anda a sétima arte em um país geralmente conhecido por ser tão fechado, conservador, rico em petróleo e mais ainda em controvérsias.

Para ler ouvindo: Saleh Faraj Al-Faraj – Musique de Unayzah

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ARÁBIA SAUDITA
Onde fica: Oriente Médio
População: 28 milhões
Capital: Riad
Língua oficial: árabe
Cerveja típica: nenhuma (bebidas alcóolicas são proibidas)

A Arábia Saudita é o berço do islamismo e abriga a cidade mais sagrada da religião, Meca, para onde todos os muçulmanos que tenham condições físicas e financeiras devem fazer uma peregrinação (conhecida como Hajj) pelo menos uma vez na vida. Mas para quem não é muçulmano, o acesso a Meca (assim como a Medina, outra cidade santa para os islâmicos) é estritamente proibido, e a única forma de saber como elas são é através de imagens gravadas por quem esteve lá. Nesse sentido, o documentário Inside Mecca, dirigido em 2003 pela iraquiana-canadense Anisa Mehdi para a National Geographic, é um documento valioso: o filme registra a viagem de três muçulmanos – um jornalista da África do Sul, um empresário da Indonésia e um professor dos EUA – para a peregrinação do Hajj até Meca. Outro filme onde é possível ver a cidade sagrada é Malcolm X, dirigido em 1992 por Spike Lee, que foi o primeiro longa de ficção a receber permissão para filmar em Meca – embora uma equipe de segunda unidade tenha registrado todas as imagens sem a presença do diretor do filme, já que Lee não é muçulmano.

Pilgrims near the Great Mosque.A Grande Mesquita no documentário Inside Mecca

IMG_1821A diretora Anisa Mehdi no meio da galera na cidade santa

Mas enquanto os sauditas têm acesso livre a Meca, muitos outros direitos tidos como óbvios e inalienáveis para grande parte do mundo são negados à população do país. E a proibição a bebidas alcoólicas, caros amigos butequeiros, está longe de ser a pior. Quem mais sofre, sem sombra de dúvida, são as mulheres: elas não podem dirigir, trabalhar em contato com o sexo masculino (a maioria acaba arranjando emprego apenas em escolas e hospitais totalmente femininos), ou mesmo fazer coisas triviais, como abrir uma conta no banco, sem estar acompanhadas de um homem. Além disso, o governo controla a imprensa, a internet e proíbe aglomerações – a exceção são os estádios de futebol, que, naturalmente, só admite torcedores com o cromossomo Y. Pra completar, as salas de cinema foram banidas do país no início dos anos 1980 e não voltaram mais.

Pois é, cinéfilos. O Reino da Arábia Saudita é o único país do mundo sem cinemas. É uma proibição meio inconcebível para a maior parte do planeta, quando até governos linha-dura como o da Coreia do Norte reconhecem o valor da sétima arte, nem que seja como arma de propaganda. Mas na Arábia Saudita, os cinemas – que já tinham uma reputação ruim entre a ala mais conservadora (porque exibiam filmes “que violavam os valores islâmicos” e levavam à temida mistura entre homens e mulheres – e no escuro, ainda por cima!) – sumiram de vez quando justamente essa turminha radical (e não no sentido sessão-tardino da palavra) ascendeu ao poder. Apesar do termo “proibição” ser geralmente associado ao desaparecimento dos cinemas por lá, parece que não existe exatamente uma lei que coloque essa ordem no papel; mas tampouco há muita gente disposta a abrir salas de cinema e levar pedradas, metafóricas ou literais, dos extremistas.

Já que pegar um cineminha com a namorada no fim-de-semana é um passatempo totalmente fora de cogitação, resta aos sauditas a mirrada telinha da TV, por onde podem assistir a dramas e novelas produzidas no país, canais de filmes de outras terras (captados – ilegalmente, claro – por antenas parabólicas) e recorrer ao mercado de home video. Há muitas lojas de vídeo no país com os últimos lançamentos internacionais, mas eles só são vendidos depois que cenas mais polêmicas – como beijos e outras indecências – tenham sido cortadas. Lembra do padre em Cinema Paradiso que ordenava tesouradas nas cenas que ele considerava picantes demais? Exato.

A única opção para os cinéfilos sauditas irem ao cinema envolve disposição e dinheiro no bolso: fazer uma viagem internacional. Parece loucura, mas muita gente faz exatamente isso, viajando aos Emirados Árabes Unidos ou ao Bahrein para conferir os novos lançamentos, sejam eles filmes árabes ou blockbusters ocidentais, e ter a experiência cinematográfica que só uma telona numa sala escura pode proporcionar. Foi justamente esse o tema do documentário Cinema 500 km, um média-metragem dirigido em 2006 pelo saudita Abdullah Al-Eyaf. O filme registra a jornada de um jovem de 21 anos chamado Tareq al-Hussein, que resolve encarar as cinco ou seis horas de estrada necessárias para se chegar a Manama, capital do Bahrein – a 500 quilômetros de sua casa na capital saudita – para ir ao cinema pela primeira vez na vida. Como era de se esperar, o rapaz ficou deslumbrado com a experiência: “As emoções eram mais intensas no cinema do que quando vejo um filme sozinho. Quando eu estava rindo, todo mundo ria junto. Quando eu levava um susto, todo mundo se assustava também”.

Abdullah Eyaf
Abdullah Al-Eyaf, diretor de Cinema 500 km

Em um país onde filmes não têm sequer lugar para serem exibidos, seria ingenuidade esperar que a produção cinematográfica fosse muito mais que inexistente. E até 2006, de fato, os cineastas sauditas que se aventuravam atrás das câmeras só haviam feito uns poucos curtas e documentários como Cinema 500 km. Mas o mesmo ano marcou o lançamento daquele que foi largamente propagandeado como o primeiro longa-metragem da Arábia Saudita. Keif al-Hal? (“Como Vai?”) é uma comédia dramática sobre uma família saudita dividida entre a modernidade e a tradição; Sahar, a personagem principal, sonha com uma carreira, mas seu irmão fundamentalista quer empurrar-lhe um marido goela abaixo e acha que seu lugar é como dona-de-casa; e nesse meio tempo, ainda rola um clima entre a moça e um primo da família chamado Sultan.

keifPassinho bizarro no pôster de “Keif al-Hal?”

Mas de saudita mesmo, Keif al-Hal? tem muito pouco. Embora a trama se passe na capital Riad, as filmagens aconteceram inteiramente em Dubai, nos Emirados Árabes. O diretor Izidore Musallam é um palestino que mora no Canadá, o roteirista é egípcio e a atriz principal, Mais Hamdan, é da Jordânia. Saudita da gema tem-se apenas a coadjuvante Hind Mohammed, considerada a primeira atriz de cinema do país (mas que não interpretou um só papel depois desse filme, coitada) e a produção e o investimento da Rotana, a maior empresa de entretenimento do mundo árabe. O acionista majoritário da Rotana é o príncipe saudita Al-Waleed bin Talal, que atualmente ocupa a 26a posição na lista dos homens mais ricos do mundo, donde se deduz que esse suposto primeiro longa talvez tenha sido motivado menos por amor à arte e mais por amor à grana. Não vi o filme para opinar, mas uma nota 3.8 no IMDb é meio embaraçoso.

Keif al-Hal? pode não ter sido nem muito bom nem muito saudita, mas ao menos abriu um precedente para a produção de longas no país. E três anos depois, em 2009, a Rotana não apenas lançou um novo filme, como ainda conseguiu a façanha inédita de exibi-lo no cinema ao público local. Menahi, dirigido por Ayman Makram, é uma comédia sobre um beduíno (um desses árabes nômades que vivem no deserto) que se muda para Dubai e precisa se adaptar à vida na cidade grande. Mais importante do que o filme em si foi mesmo seu lançamento, que marcou a primeira vez em trinta anos que os sauditas puderam ir ao cinema. A sessão especial aconteceu em Riad, e apesar dos pesares – meses penando para obter aprovação das autoridades, pouco tempo para divulgação e até protestos na entrada do teatro, com conservadores zangados tentando atrapalhar a sessão e impedir que os espectadores compactuassem com tamanha imoralidade – foi um sucesso. Mas não pra todo mundo: a maior parte das mulheres teve que ficar de fora, já que apenas meninas de até dez anos (e homens de todas as idades, claro) puderam entrar.

MenahiA rapaziada felizona com o ingresso de Menahi

É por essas e outras que O Sonho de Wadjda (Wadjda, no original), lançado em 2012, é provavelmente o filme mais relevante de toda a (ainda breve) história do cinema saudita. Primeiro porque, ao contrário de Keif al-Had? e Menahi, o longa foi 100% filmado no país, e com elenco local. E segundo, porque foi escrito e dirigido por uma mulher.

HaifaaAlMansourHaifaa Al Mansour, diretora de O Sonho de Wadjda

Haifaa Al Mansour iniciou sua carreira de cineasta com alguns curtas polêmicos que lidam justamente com o universo feminino. Who?, por exemplo, é sobre um homem que veste uma abaya (aqueles vestidões pretos que só revelam os olhos, semelhantes à burca, e que as mulheres são obrigadas a usar) para stalkear moçoilas e entrar em suas casas. Não surpreende saber que o curta de sete minutos, que não é exatamente um proselitista da tradicional indumentária, só ficou disponível na Arábia Saudita através de DVDs piratas. Al-Mansour também dirigiu o documentário Women Without Shadows, que entra mais fundo na questão da abaya e questiona se é mesmo necessário que as mulheres cubram seus rostos para obedecer aos preceitos islâmicos, abordando temas como o isolamento e a perda de identidade das mulheres no país. Também não é surpresa descobrir que a diretora recebeu mensagens hostis e ameaças de morte por causa do documentário.

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Mas Al-Mansour mostrou ter mais colhões do que muito homem em seu país, e se tornar a primeira mulher a realizar um longa de ficção na Arábia Saudita não é qualquer bobagem. Em O Sonho de Wadjda, ela aborda novamente a vontade de se libertar da opressão e da discriminação. A personagem-título é uma garotinha de 10 anos de idade (interpretada pela estreante Waad Mohammed) que sonha em andar de bicicleta e está determinada a lutar por esse direito. Ou você achava que as meninas poderiam pedalar uma bike sem problemas num país que proíbe mulheres adultas de dirigir automóveis? Já dirigir um longa não torna ninguém fora-da-lei, mas tampouco é moleza: muitas vezes a diretora precisava ficar escondida na van da produção e se comunicar com os atores e a equipe através de radinhos, já que não poderia ser vista “se misturando” com rapazes em público nas ruas de Riad.

Só a existência de um filme como O Sonho de Wadjda já é algo significativo para o cinema saudita e as mulheres do país, mas ajuda bastante quando a qualidade da obra acompanha sua importância. Wadjda tem 99% de aprovação no Rotten Tomatoes, ganhou prêmios em Dubai, Veneza, Rotterdam e Vancouver, ficou em 44o lugar numa recente lista dos 100 melhores filmes árabes de todos os tempos e, embora não tenha figurado entre os 5 finalistas, foi o candidato oficial da Arábia Saudita ao Oscar 2014 (a primeira vez que um país submeteu um representante à Academia). O Eduardo Monteiro, integrante do Cinema de Buteco, elogiou o filme em seu blog Cinema Sem Erros, destacando tanto o conteúdo transgressor da história quanto o estilo da cineasta: “O Sonho de Wadjda encanta pela divulgação da força e do empenho das mulheres (sauditas ou não) na busca por seu justo espaço na sociedade – e analisando a dimensão e a velocidade dos progressos, o Converse All Star surrado de Wadjda – símbolo máximo de sua inconformidade – ainda terá uma longa caminhada pela frente.

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Sim, será um caminho longo, lento e complicado, tanto para as mulheres conquistarem uma posição mais justa e digna na sociedade saudita, quanto para o cinema emplacar num país em que é visto com tanta desconfiança. Mas o trabalho de cineastas como Haifaa al-Mansour e Abdullah Al-Eyaf, o apoio de vozes como a do poeta Halima Muzaffar (que defendeu a sétima arte em um grande jornal saudita) e campanhas como a “We Want Cinema” (lançada por jovens cineastas e ativistas do país), quem sabe a Arábia Saudita não obtém progressos substanciais muito antes do que a gente imagina? Uma pesquisa divulgada em 2007 mostrou que 83,7% dos sauditas assistem a filmes e 63,9% apoiam o estabelecimento de salas de cinema. Resta esperar com otimismo que, no dia em que as portas do primeiro cinema saudita se abrirem, ninguém seja barrado na entrada.

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Série BUTECO PELO MUNDO:

#1- O cinema do LAOS
#3 – O cinema da POLÔNIA


Bibliografia/leitura adicional:

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O cinema do Suriname, nosso vizinho mais multicultural – Buteco Pelo Mundo #5

Descubra o cinema de um país fascinante e nosso vizinho: o Suriname!

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Tardamos, mas não falhamos. A volta ao mundo do Cinema de Buteco começou láááá em 2014, quando nos embrenhamos pelos filmes do Laos; atravessamos a Ásia até o Oriente Médio para conhecer um país que até então não tinha cinemas; pisamos no Leste Europeu para um panorama dos mais importantes cineastas poloneses; saltamos à África para conferir a conexão entre Brasil e Moçambique; e agora chegamos perto de casa numa viagem pelo cinema de um país fascinante e vizinho nosso: o Suriname. Bem-vindos à quinta edição do Buteco Pelo Mundo!

Para ler ouvindo: Damaru (2001)

SURINAME
Onde fica:
América do Sul
População: 558 mil
Capital: Paramaribo
Língua oficial: Holandês
Cerveja típica: Parbo Bier

O Suriname é tipo um primo diferentão entre os sul-americanos.

Enquanto a maior parte do continente fala espanhol ou português, o idioma oficial no Suriname não é sequer uma língua latina, mas o holandês. Dirigem na esquerda, como os ingleses. O cristianismo é forte, mas disputa espaço com o hinduísmo e o islamismo. E embora poucos filmes tenham sido produzidos até hoje no país, eles são um ótimo ponto de partida para conhecer o fascinante caldeirão cultural que é o nosso vizinho de cima.

Situado no norte da América do Sul, entre a Guiana e a Guiana Francesa, o Suriname faz fronteira com um pedação do Pará e um tiquinho do Amapá. Mas geo e demograficamente, o contraste com o Brasil não poderia ser maior. Enquanto somos de longe o maior e mais populoso país do continente, o Suriname é o menor e menos habitado: são apenas meio milhão de pessoas – o equivalente a Londrina ou Juiz de Fora –, sendo que metade mora na capital, Paramaribo. 

O território surinamês é 80% floresta e cheio de partes intocadas. Tanto é que vira e mexe rola uma expedição científica que encontra uma porção de novas espécies por lá. Em 2012, por exemplo, cientistas descobriram nada menos do que 60 animais em apenas três semanas, incluindo insetos, peixes e um sapo cor-de-chocolate que poderia ter saído do universo de Harry Potter.

Se na natureza a diversidade do Suriname impressiona, culturalmente ela é ainda mais interessante. O kaseko, gênero musical típico do país, mistura ritmos caribenhos, batidas africanas e jazz. A cozinha surinamesa é uma fusão de diversas culinárias, com ingredientes que incluem mandioca, banana, curry indiano e um molho de amendoim típico do Sudeste Asiático. Os feriados locais incluem celebrações muçulmanas, hindus, cristãs e o ano-novo chinês. 

Quando o assunto é o idioma, então, a coisa é ainda mais complexa. O holandês pode ser a língua oficial, aquela do governo e dos negócios – mas ao ligar a TV, você vai topar com mais canais em hindi e mandarim do que qualquer outro idioma. E a maioria dos habitantes, não importa a etnia ou religião, é versada no Sranan Tongo – literalmente, “língua surinamesa”. Originalmente falada pela população negra (creole) do país e hoje amplamente usada por todas as etnias, é uma mistura curiosa de vários idiomas europeus, com forte influência do inglês. Quer um exemplo? “Adoro isso” em Sranan Tongo é “mi lobi dati”, quase “me love that”.

Paramaribo, capital do Suriname

Essa mistura de povos e culturas remonta ao século 19. Quando a escravidão foi abolida no Suriname, em 1863 (sim, nada menos que 25 anos antes da Lei Áurea fazer o mesmo no Brasil), os holandeses trouxeram uma enxurrada de imigrantes para trabalhar nas plantações, vindos de partes distantes do mundo como Índia, China e a ilha de Java, na Indonésia. Junte a essa galera os descendentes de escravos africanos, holandeses e ameríndios locais (os habitantes originais do Suriname), e está explicado porque nosso vizinho do norte é tão plural.

Até hoje, no entanto, é um país dividido. Os vários grupos étnicos tendem a não se misturar; muitos não se bicam – há indianos discriminando negros e vice-versa, por exemplo –, e até os partidos políticos são baseados em etnias. 

Se essa complexa diversidade parece um prato cheio para dramas com um pé na realidade, é porque é mesmo: tanto é que o filme mais icônico já produzido no Suriname parte de uma premissa romântica – um surinamês negro se apaixonando por uma surinamesa hindu – para contar uma história que também tem muito de política.

One love, Wan Pipel

Até meados dos anos 70, pouquíssimos filmes haviam sido feitos no Suriname, incluindo um documentário que foi sucesso de crítica (Faja Lobbi, vencedor do Urso de Ouro em Berlim em 1960) e um longa de 1974 chamado Operation Makonaima (nada a ver com o romance de Mário de Andrade), mais tarde repaginado e lançado nos EUA como um “blaxploitation de terror” sob o nome The Obsessed One.

Foi em 1975, enquanto o Suriname passava pelo processo de independência da Holanda, que o diretor Pim de la Parra filmou sua obra mais famosa. Wan Pipel se destaca não só por ser o primeiro longa estrelado por atores surinameses, mas por realmente ter a cara do país.

A história começa na Holanda, quando Roy – um surinamês que estuda em Amsterdã – recebe um telegrama dizendo que sua mãe está nas últimas. Ele voa para Paramaribo a tempo de dar adeus à senhorinha, mas em vez de voltar pra Europa, terminar o doutorado e se casar com a namorada holandesa, se descobre totalmente seduzido pelo seu país natal, do estilo de vida sossegado às apetitosas carambolas do mercado da cidade. Numa festa de música caribenha, Roy fica a fim de uma moça hindu, a enfermeira Rubia, dando início ao triângulo amoroso salpicado com rixas familiares que move a trama.

Wan Pipel explora vários dos temas que fazem do Suriname único: a diversidade cultural, a mistura de idiomas no dia a dia (num mesmo diálogo, passam do holandês pro Sranan Tongo e de volta pro holandês), a relação próxima com o país que o colonizou – um personagem até mesmo abandona a família e se manda para a Holanda, o que de fato rolou em muitos lares surinameses na época –, os conflitos entre hindus e negros e diversos outros aspectos.

O diretor surinamês Pim de la Parra em 1972

O filme era um sonho antigo de Pim de la Parra, que nasceu no Suriname (então chamado de “Guiana Holandesa”) e levou quase 15 anos para tirar o projeto do papel. “Durante os anos 1970, cerca de 300 mil surinameses – quase metade da população do país – migraram para a Holanda pois achavam que lá teriam uma vida melhor. Com Wan Pipel a gente tentou mostrar que eles podiam, e deveriam, ser bem-sucedidos em seu país natal”, disse De la Parra numa entrevista de 2012.

Segundo o próprio diretor, os três protagonistas servem como metáforas: a holandesa Karina como os Países Baixos, o negro Roy e a hindu Rubia como o Suriname. “Embora Roy e Rubia não tenham as mesmas origens étnicas”, aponta ele, “eles compartilham a mesma nacionalidade e, juntos, são responsáveis pelo futuro de seu novo país, independente da Holanda. O final do filme, em que Roy e Rubia dizem adeus a Karina no aeroporto, é um adeus simbólico ao seu ex-colonizador. Ao mesmo tempo, o retorno permanente de Roy fala a todos os surinameses que moravam na Holanda, incitando-os a voltar ao Suriname para construir a nova nação independente.” 

No Suriname, Wan Pipel foi um sucesso estrondoso e a première contou até com o presidente do país na época. Os surinameses lotaram os cinemas, indo assistir duas, três, quatro vezes; pela primeira vez, se identificavam de verdade com um longa-metragem. 

Mas nem tudo foram flores. Para a atriz Diana Gangaram Panday, que interpretou a hindu Rubia, a popularidade do filme foi praticamente uma maldição. Por conta do relacionamento com um negro, sua personagem era vista quase como uma prostituta pelos mais conservadores da comunidade hindu no Suriname, e a atriz foi tão xingada e hostilizada nas ruas que decidiu deixar o seu país natal. Panday morreu em 2016, sem nunca mais ter atuado em outro filme.

Diana Gangaram Panday, a Rubia de Wan Pipel

Tempos difíceis

Wan Pipel traz um final cheio de otimismo e esperança quanto ao futuro da recém-fundada República do Suriname. A realidade, entretanto, foi mais dura. O país teve um período conturbado após a independência, com uma sucessão de golpes militares e escândalos políticos. Hoje em dia as coisas estão mais estáveis, mas isso é o melhor que dá pra dizer. Vejam o caso de Dési Bouterse, por exemplo: é um cara que já liderou golpe militar, foi condenado por tráfico de drogas e responsável por um infame massacre de oponentes políticos em 1982 (que, aliás, é o pano de fundo para um telefilme de 2002, Paramaribo Papers). E, já faz quase 10 anos, é o presidente do Suriname.

O controverso Dési Bouterse, atual presidente do Suriname

A popularidade de Wan Pipel no Suriname tampouco se traduziu numa era de ouro para o cinema surinamês. Longe disso: foram literalmente décadas até que novos filmes começassem a ser produzidos por lá. Nem salas de cinema o país tinha mais: com o advento do VHS e uma recessão econômica nos anos 1990, a maioria virou shopping ou cassino. 

Foi só em 2010 que um multiplex foi inaugurado em Paramaribo, exibindo principalmente grandes produções internacionais – tanto de Hollywood quanto de Bollywood. A concorrência maior, aliás, não é nem com a Netflix ou os torrents da vida, mas com a TV aberta. Isso porque o Suriname é um dos poucos países do mundo onde os canais de televisão transmitem, na maior cara de pau, todos os filmes do momento, incluindo os que ainda estão passando no cinema – sem pagar um tostão em direitos de distribuição. Uma “TV Pirata”, literalmente.

O longa Let Each One Go Where He May, de 2009

Ao contrário de muitos de seus vizinhos caribenhos, o Suriname não é lá uma locação muito comum para filmes estrangeiros e não figura em nenhuma produção de renome internacional – nem mesmo o viajado James Bond deu as caras por lá ainda. Mas de tempos em tempos, o país atrai a atenção de algum cineasta independente que se propõe a usar a rica cultura do país como matéria-prima para suas obras. 

Um bom exemplo é o americano Ben Russell, que dirigiu Let Each One Go Where He May (2009). O longa retrata a viagem de dois irmãos de Paramaribo ao interior do Suriname, como que refazendo a jornada percorrida por seus antepassados, ex-escravos que fugiram das mãos dos holandeses três séculos antes. Chamando a atenção por seus planos longuíssimos – em mais de duas horas de projeção, são apenas 13 planos-sequência quase sem diálogo –, o filme de Russell percorreu festivais pelo mundo afora e está disponível de graça no Vimeo

Por outro lado, outras produções (principalmente holandesas) usam o Suriname de forma bem mais duvidosa. Em 2017, por exemplo, foi lançado Tuintje in Mijn Hart – “Jardim no Meu Coração” é a singela tradução do título –, que tem aquele clima de comédia romântica em lugar exótico, com confusões no meio da floresta e até um bicho-preguiça como “parte do elenco”. O filme foi gravado em mais de 30 locações por todo o Suriname, empregou 700 figurantes locais e custou milhões de euros. Se para os padrões da Holanda já é uma superprodução, imagine quando comparado ao orçamento médio de um filme surinamês.

Loucos o bastante

Depois de se mudar para a Holanda e ver seus longas seguintes fracassando nas bilheterias europeias, Pim de la Parra, o diretor de Wan Pipel, se especializou em fazer o que chamava de minimal movies – filmes de baixíssimo orçamento, sem roteiro, rodados em poucos dias. Um bom exemplo é In the Meantime (2006) – produzido com os alunos da Academia de Cinema do Suriname que ele fundou em 2005 –, que foi gravado em apenas uma semana e custou 15 mil dólares. Isso para um longa com 2 horas e meia e duração! 

Pim de la Parra em 2012

Mesmo assim, quando perguntado se esse método ultraeconômico poderia levar a uma indústria de cinema no Suriname, o diretor foi categórico. “Acho que é simplesmente impossível”, disse, citando a pobreza e a baixa população do país como obstáculos incontornáveis. “Você precisaria, então, de alguém que viesse de uma família rica, ou recebesse subsídios, ou simplesmente fosse louco o bastante para produzir um filme. Acho que pertenço essencialmente a essa última categoria, o sonhador que fica tentando, tentando e tentando, porque quer aquilo de verdade.

O Segredo do Rio Saramacca, último filme de Pim de la Parra

Após dirigir o thriller psicológico O Segredo do Rio Saramacca (2007), também no Suriname, De la Parra anunciou sua intenção de filmar um último longa no país. Krin Skin seria um remake do clássico italiano A Aventura, de Michelangelo Antonioni, mas com um protagonista negro. Anos depois, sem conseguir levantar o orçamento necessário, o diretor jogou a toalha. “Fazer filmes é uma profissão para os jovens”, disse ele em 2017, “por isso eu pude tomar a fria decisão de abandonar esse sonho de tanto tempo antes de completar 78 anos. Falei pra mim mesmo: ‘chega’.

Felizmente, os jovens cineastas surinameses não têm medo desse desafio – e se mostram um tanto mais otimistas.

Pegue por exemplo o diretor Ivan Tai-Apin, que declarou numa entrevista recente que “o Suriname pode se tornar a nova Hollywood”. Seu filme de estreia, Wiren (2018), sobre um deficiente auditivo que enfrenta o governo e o sistema para conquistar direitos básicos, tem por trás um claro objetivo social – a integração e aceitação dos surdos no Suriname. A divulgação da obra foi bem marketing de guerrilha, incluindo um flash mob nas ruas de Paramaribo. E uma curiosidade: Borger Breeveld, o protagonista de Wan Pipel, interpreta um médico no filme.

Outro filme de 2018 foi o primeiro longa de terror produzido no Suriname. All Alone poderia muito bem figurar na categoria minimal movie, pois foi feito com o orçamento de meros 6 mil dólares – um décimo do que A Bruxa de Blair, pra ficar num caso famoso de filme de terror barataço, custou. 

All Alone e a “Samara” surinamesa

O Suriname provavelmente nunca virará uma nova Hollywood. Mas quem sabe a tenacidade da nova geração de cineastas, loucos o bastante para perseverar e fazer cinema mesmo onde as coisas não conspiram a favor, não faça com que, mais cedo ou mais tarde, um novo Wan Pipel ganhe o mundo e leve a riqueza cultural do nosso vizinho para as telas de todo o planeta?


Bibliografia/leitura adicional:

A Paradox in Caribbean Cinema? An Interview with Minimal Movie Filmmaker Pim de la Parra, Pragmatic Dreamer from Suriname (Emiel Martens/Imagination)

Thirteen Long Shots in Suriname (Ed M. Koziarski/Chicago Reader)

7 Question Interview with Ben Russell, Artist & Filmmaker (Andrew Rosinski/DINCA)

Suriname profile – Timeline (BBC)

Cocoa frog and lilliputian beetle among 60 new species found in Suriname (Adam Vaughan/The Guardian)

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Buteco Pelo Mundo #4 – Moçambique

O Buteco Pelo Mundo está de volta! Conheça os filmes de Moçambique e a conexão brasileira com esse país africano que também fala português.

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FORAM TRÊS ANOS DE HIATO — tá bom, pode chamar de enrolação —, mas a coluna Buteco Pelo Mundo finalmente está de volta. Nossa aventura cinematográfica começou na Ásia, conhecendo o incipiente cinema do Laos; passamos pelo Oriente Médio para descobrir os poucos filmes da Arábia Saudita; demos um rolé pelo Leste Europeu para um panorama do rico cinema polonês; e agora chegamos à África para conferir o cinema dos nossos irmãos lusófonos de Moçambique. Bem-vindos à quarta edição do Buteco Pelo Mundo!

Para ler ouvindo: Música de Moçambique – O Essencial

MOÇAMBIQUE
Onde fica: 
Sudeste da África
População: 25 milhões
Capital: Maputo
Língua oficial: Português
Cervejas típicas: Laurentina e 2M

Moçambique já chegou a ser o país mais pobre do mundo.

Após mais de 4 séculos de domínio português e uma guerra colonial que durou mais de uma década, Moçambique tornou-se finalmente independente em 1975 sob o comando da marxista Frente de Libertação de Moçambique, mais conhecida como FRELIMO. Mas um conflito deu lugar a outro: o país mergulhou em seguida numa arrastada guerra civil que terminou apenas em 1992. Um milhão de pessoas morreram e Moçambique só foi declarado livre de minas terrestres há pouco tempo, em 2015. Hoje é um país bem mais estável, mas seu índice de desenvolvimento humano infelizmente permanece lá embaixo, ocupando a 180a posição — de um total de 188 países.

Não é nenhuma surpresa, portanto, que a produção cinematográfica moçambicana seja minguada, com financiamento escasso e pouco incentivo. E os filmes que conseguem ser produzidos ainda sofrem com a falta de salas para exibição: os poucos cinemas da capital Maputo passam as mesmas produções hollywoodianas que estreiam no mundo inteiro, isso quando não pegam fogo, são demolidos ou — o caso mais comum — viram igreja (achou que isso só rolava no Brasil?). Como reclamou com razão um jornal local, “é normal que um filme moçambicano seja exibido, em estreia no estrangeiro, e passem anos sem que os moçambicanos o vejam“.

Uma pena, porque há muita coisa de qualidade sendo produzida por lá — e, como você vai ver, a conexão Brasil-Moçambique vai muito além do português como língua oficial.

O primeiro longa de ficção moçambicano foi Mueda, Memória e Massacre (1979). Reconstituindo um episódio sangrento de 1960, quando soldados portugueses abriram fogo contra uma manifestação, o filme tem uma pegada documental, incluindo entrevistas com sobreviventes e imagens da representação teatral que costumava ser feita no mesmo local — uma encenação surpreendentemente festiva, considerando que centenas de pessoas morreram no massacre.

Foi filmado no Norte de Moçambique em condições extremamente precárias, numa região que nem sequer tinha comida nem nós quase tínhamos para comer“, contou o diretor. Que, por acaso, é bem conhecido dos brasileiros: Ruy Guerra nasceu em Moçambique mas fez carreira no nosso país, onde dirigiu obras seminais do Cinema Novo (Os Cafajestes, Os Fuzis), escreveu letras com Chico, Milton e Edu Lobo e — momento Revista Caras — foi casado com Nara Leão, Leila Diniz e Cláudia Ohana. O retorno ao seu país natal foi breve e ele mora até hoje no Brasil. Continua ativo: seu filme mais recente, a ficção científica Quase Memória (com Tony Ramos, João Miguel e Mariana Ximenes), é de 2015.

Caminho inverso fez Licínio Azevedo, gaúcho que foi parar em Moçambique em 1975, logo após a independência, e continua até hoje por lá. Azevedo tem uma penca de filmes no currículo, entre ficções, documentários e obras que são meio que uma mistura dos dois. Em Desobediência (2002), por exemplo, ele pediu que os protagonistas de um drama familiar reencenassem para as câmeras sua insólita história — incluindo suicídio, fantasmas e julgamento num curandeiro. Já Hóspedes da Noite (2007) mostra o que o destino reservou ao Grande Hotel, o mais luxuoso de Moçambique: hoje é habitado por milhares de ex-desabrigados que encontraram um lar-doce-lar nas ruínas do estabelecimento.

Entre suas ficções, um destaque recente é Virgem Margarida (2012), centrado em prostitutas que foram levadas a um “campo de reeducação” nos cafundós da selva moçambicana durante o conturbado período pós-independência. A personagem-título é uma jovem camponesa virgem que vai à cidade comprar um enxoval e é levada por engano ao lugar.

Virgem Margarida custou 1 milhão de dólares, uma fortuna para os padrões locais — e isso, diz o diretor, “apenas porque o dinheiro demorou, e por estar tudo atrasado paga-se mais caro“. Ele acrescenta: “Em Moçambique não temos atores profissionais de cinema, pois quase não há produção de ficções. O casting, feito em Maputo, foi bastante demorado, várias fases, e procuramos as atrizes entre dançarinas, grupos de teatro de rua, amadores em geral“. Mas esse amadorismo nem se vê na tela: o elenco é bem consistente e a obra tem seus vários momentos de humor para se contrapor a um tema tão pesado (“Hoje eu comi muito bem, bacalhau com vinho verde!“, diz uma “reeducanda”, após mastigar o punhado de arroz disforme que tinha pra janta).

Recentemente Licínio Azevedo lançou Comboio de Sal e Açúcar (2016), que também se passa durante a guerra civil. Desta vez os personagens são militares e civis numa viagem perigosa a bordo de um trem que cruza o país bem no meio do conflito. Nosso crítico Leonardo Lopes, que conferiu o filme no Festival do Rio, apontou ressalvas quanto a alguns clichês típicos de filmes de exército, mas elogiou seus méritos técnicos e artísticos — incluindo as competentes sequências de ação e as discussões que a obra propõe.

Os livros do celebrado autor moçambicano Mia Couto também foram matéria-prima para alguns longas. Seu primeiro romance, Terra Sonâmbula, foi adaptado em 2007 por Teresa Prata (aliás, mais uma tupiniquim em Moçambique: ela é mineira). A obra é um “road movie a pé”, lembrando até um filme mais famoso do mesmo ano, Na Natureza Selvagem. Mas em vez de um jovem de classe média que escolhe ser emitão, aqui temos um menino e seu pai adotivo forçados a zanzar por aí por conta da guerra (sempre ela). Também há um ônibus abandonado que eles usam como abrigo, mas aqui cheio de cadáveres queimados, numa das muitas situações arrepiantes do longa (uma outra envolve um velhinho sinistro que quer enterrá-los vivos enquanto canta “Parabéns Pra Você”!).

Outra obra de Mia Couto que vai ganhar as telonas em breve é O Dia em que Explodiu Mabata Bata, com direção de Sol de Carvalho. E o título não é metafórico: Mabata Bata explode mesmo (é um boi que pisa numa mina, deixando em apuros o menino que cuidava do gado e que precisa fugir após o triste fim do bovino). Ao contrário da maioria dos filmes moçambicanos, este não será falado em português, mas em changana, uma língua local. Até porque o português, apesar de oficial, é falado por apenas 40% dos moçambicanos — mais de quarenta idiomas nativos competem com a língua de Camões.

E tem até animação em CGI sendo produzida em Moçambique. Dirigido por Nildo Essá, Os Pestinhas será o primeira longa animado do país, narrando as altas confusões em que se metem os “miúdos” Minhoca, Lili e Zé Gordo para encontrar uma planta rara e salvar a avó envenenada (!). O filme está captando recursos por financiamento coletivo, mais ainda falta muito para a meta e por enquanto não há previsão de estreia.

Fazer cinema não é fácil em lugar nenhum. E a gente sabe como é bem complicado no Brasil, agora imagine num país africano onde o PIB per capita não chega a 2 mil reais? Mas se faltam grana e incentivo, sobram força e determinação nos cineastas moçambicanos para continuar dando a cara a tapa e produzindo filmes apesar das intempéries. Que a conexão Brasil-Moçambique não termine atrás das câmeras: procure Virgem Margarida, Terra Sonâmbula e outras obras citadas (tem muita coisa no YouTube) e conheça um cinema que não se vê todo dia do lado de cá do Atlântico.

Na próxima edição do Buteco Pelo Mundo cruzaremos o Atlântico para falar dos filmes de um país vizinho do Brasil. Até lá — ou, como dizem em changana, hambanine!


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Buteco Pelo Mundo #3 – Polônia

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BEM-VINDOS À TERCEIRA EDIÇÃO do Buteco Pelo Mundo! Nosso rolé cinematográfico por esse mundão começou no Sudeste Asiático, onde conhecemos thrillers e comédias românticas produzidos no Laos. Depois partimos para a Arábia Saudita e descobrimos um país onde ir ao cinema é um passatempo que simplesmente não existe. Agora chegou a vez de darmos um pulo no Leste Europeu e visitarmos a terra de Andrzej Wajda, Krzysztof Kieślowski e Roman Polanski. Polônia, aí vamos nós!

Para ler ouvindo: Polska Rootz

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POLÔNIA
Onde fica: Leste Europeu
População: 38 milhões
Capital: Varsóvia
Língua oficial: polonês
Cerveja típica: Żywiec, Tyskie, Okocim e muitas outras

Ao contrário do Laos e da Arábia Saudita, cujas cinematografias ainda estão na primeira infância, a Polônia tem uma relação intensa com o cinema desde os primórdios da sétima arte, lá pelo final do século 19. O inventor Kazimierz Prószyński patenteou sua primeira câmera cinematográfica em 1894, antes mesmo dos irmãos Lumière. O Pleograf – vamos aportuguesar o polonês e chamá-lo de Pleógrafo – podia filmar e também projetar, assim como o cinematógrafo dos Lumière. Então por que os irmãos franceses são conhecidos até hoje como os pais do cinema enquanto o nome de Prószyński ficou praticamente esquecido?

Bom, parece que o Pleógrafo era trambolhoso demais para ser amplamente adotado, mas o principal motivo deve mesmo ser que os Lumière não apenas criaram um novo aparelho, mas tiveram uma outra ideia genial e ainda mais lucrativa: ao exibirem suas filmagens em público e cobrarem por isso, foram também os inventores da sessão (e do ingresso) de cinema.

kazimierz_proszynski_A_latem_1907_fragment_200Prószyński também devia ter patenteado o bigode

Em busca de mais informações sobre o inventor, acabei topando com o trailer de uma cinebiografia, mistura de documentário com cenas dramatizadas, chamada Kazimierz Prószyński – Gênio Número 129957. Mas embora o trailer tenha sido lançado em 2008, não há sinais da existência do filme completo nem sequer na página do diretor, um certo Bartosz Paduch, no IMDb.  Uma pena, porque parece bem legal:

A Polônia vivia um momento especialmente conturbado nas décadas que se seguiram ao surgimento do cinema. Depois de mais de um século passando de mão em mão e tendo suas fronteiras redesenhadas com frequência (dá pra sentir o drama nesta animação de 1 minuto: tem momentos em que o país literalmente some do mapa!), a Polônia conquistou a independência após a Primeira Guerra e tinha muita coisa pra colocar em ordem em casa. Vários talentos cinematográficos acabaram preferindo fazer carreira no exterior – a atriz Pola Negri, por exemplo, estrelou muitos filmes de Ernst Lubitsch na Alemanha e nos EUA.

pola negri e chaplinPola Negri e um de seus namorados famosos, um certo Charles Chaplin

Das produções locais, as que ficaram mais famosas foram filmes como o musical Yiddle With His Fiddle (Yidl mitn Fidl, 1936), de Joseph Green, sobre uma menina pobre que se disfarça como homem para ganhar uns trocados nas ruas tocando rabeca, e O Dybbuk (Der Dibuk, 1937), de Michał Waszyński, um drama sobrenatural sobre uma jovem possuída por um espírito maligno (o tal “dybukk” do título) na véspera de seu casamento. São filmes feitos na língua iídiche por cineastas de origem judaica, e representam um valioso retrato da vida dos judeus na Europa durante os anos 1930. Porque pouco tempo depois, em 1939, a Polônia foi invadida pelos alemães e a gente sabe bem o que aconteceu.

Dybbuk
A noiva possuída de O Dybbuk (1937)

Seis milhões de poloneses morreram durante a Segunda Guerra Mundial, sendo que três milhões eram judeus, incluindo nomes importantes do cinema polonês como o diretor e roteirista Henryk Szaro, morto a tiros no Gueto de Varsóvia durante a ocupação alemã, e Kazimierz Prószyński – ele mesmo, o inventor do Pleógrafo –, que foi preso pela Gestapo durante a guerra e morreu no campo de concentração alemão de Mauthausen. Sabe o “129957” no título do filme sobre Prószyński que ainda não saiu? Pois é: era justamente seu número como prisioneiro em Mauthausen.

porcos“Só os porcos vão ao cinema”

O genocídio não foi apenas literal, mas também cultural. Joseph Goebbels, chefe da propaganda nazista e braço-direito de Hitler, declarou que a Polônia não merecia “ser chamada de uma nação cultural” e fez de tudo para suprimir a cultura do país invadido: universidades, bibliotecas, museus, teatros e cinemas foram todos fechados ou tiveram a entrada permitida apenas aos germânicos. Os cinemas exibiam praticamente só filmes, notícias e materiais de propaganda nazistas, e todos os lucros das bilheterias iam direto para a produção bélica alemã. No meio underground polonês, um slogan ficou famoso na época: “Tylko świnie siedzą w kinie” – “Só os porcos vão ao cinema”. Os horrores que o país viveu durante a guerra acabaram se tornando um tema bastante recorrente na filmografia polonesa, frequente até hoje, setenta anos depois.

Com a derrota de Hitler em 1945, a Polônia se livrou dos nazistas, mas passou as décadas seguintes sob forte influência da outra potência que disputava o país, a União Soviética. E o cinema polonês, que tinha literalmente virado pó (vide a destruição de estúdios, negativos e cópias de filmes, sem falar na morte de cineastas), precisou se reerguer do zero numa Polônia comunista. Claro que grande parte das obras produzidas – principalmente nos primeiros anos de comunismo no país – tinha uma pauta claramente ditada pela nova ideologia do pedaço; mas logo começaram a surgir cineastas mais ousados e controversos, que inseriam críticas ao sistema vigente em suas obras e conseguiam escapar da fórmula socialista. Foi quase dez anos após o fim da guerra e um ano depois da morte de Stálin que surgiu aquele que talvez seja o mais importante cineasta polonês. Com vocês, o senhor Andrzej Wajda.

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Wajda fez sua estreia com Geração (Pokolenie, 1955), um drama sobre jovens que se juntam à resistência contra a Alemanha durante a ocupação da Polônia. Seu longa seguinte, Kanal (1957), tem como cenário o sistema de esgoto de Varsóvia, mostrando um grupo se lascando à medida que ficava óbvio que o Levante de Varsóvia – uma malfadada revolta polonesa contra os nazistas em 1944 – estava com os minutos contados. Cinzas e Diamantes (Popiól i Diament, 1958) completou essa chamada “Trilogia da Guerra” com uma trama que se passa em 8 de maio de 1945, o último dia da guerra na Europa, e um protagonista com jeitão de James Dean (Zbigniew Cybulski, que ficou famoso justamente como “o James Dean polonês”) tentando assassinar um figurão comunista – e isso num filme feito em plena Polônia comunista!

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Zbigniew Cybulski, o “James Dean polonês”

Wajda tem uma extensa filmografia com mais de quarenta longas, muitos deles tratando da Segunda Guerra e suas consequências, da vida sob o comunismo e de outros temas políticos e históricos. Ele ganhou um Oscar honorário em 2000 e tem hoje 88 anos, mas sua carreira continua firme e forte, e seu filme mais recente é de 2013: Walesa, conclusão de uma trilogia sobre o movimento social “Solidariedade” iniciada com O Homem de Mármore, de 1977, e O Homem de Ferro, de 1981 (calma, marvetes, não tem nada a ver com o Tony Stark), conta a história de Lech Walesa, o político polonês que levou o Nobel da Paz nos anos 1980 e foi presidente da Polônia na década seguinte. Se encontrar os filmes de Wajda em home video no Brasil pode não ser exatamente uma tarefa simples, o cinéfilo mais antenado vai acabar encontrando muita coisa em festivais de cinema por aí. Walesa, inclusive, passou no Festival do Rio ano passado.

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Andrzej Wajda ganhou o Oscar e um beijinho da Jane Fonda.

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A galerinha muito pirada de Geração (1955).

Agora observe bem essa foto de Geração, filme de estreia de Wajda (feito há quase 60 anos !). Reconheceu o moleque aí do meio? Na época com 22 anos e fazendo uns bicos como ator, ele logo começaria a dirigir seus primeiros curtas e se tornaria provavelmente o mais conhecido cineasta polonês em todo o mundo: Roman Polanski.

Polanski, na verdade, nasceu em Paris, mas sua família era polonesa e ele se mudou ainda pequeno para o país de seus pais. Falar que o timing não foi dos melhores é eufemismo: a época coincidiu justamente com o início da Segunda Guerra e por pouco o pequeno Roman não sobreviveu ao Holocausto. Seus pais sofreram em campos de concentração e sua mãe acabaria morrendo em Auschwitz, enquanto ele conseguiu fugir mudando de nome e fingindo ser de família católica.

Knife in the water 3Faca na Água, longa de estreia de Polanski.

Depois de estudar na tradicional Escola de Cinema de Łódź (onde Andrzej Wajda também foi aluno) e e assinar um punhado de curtas-metragens promissores (e alguns bem malucões), Polanski dirigiu em 1962 seu primeiro longa, Faca na Água (Nóz w Wodzie). É uma obra claustrofóbica, tensa e bem interessante que se passa quase que inteiramente dentro de um pequeno barco, com apenas três personagens: um homem, sua esposa e um sujeito misterioso a quem eles dão carona.

Mas este acabaria sendo o único filme polonês (e na língua polonesa) feito por Polanski em muito tempo. Depois disso ele filmaria Repulsa ao Sexo e A Dança dos Vampiros na Inglaterra, faria clássicos como O Bebê de Rosemary e Chinatown nos Estados Unidos, passaria por novos eventos traumáticos (o assassinato de sua esposa Sharon Tate pela gangue de Charles Manson, a acusação de estupro que o levou a fugir dos EUA) e continuaria sua carreira novamente na Europa até ganhar seu Oscar de Melhor Diretor em 2002 justamente por uma co-produção polonesa: o filmaço O Pianista, em que Polanski enfrenta os fantasmas de seu próprio passado ao narrar a história de um judeu polonês levado para um campo de concentração.

polanski 2014Polanski hoje, octogenário e ainda bastante produtivo.

Roman Polanski é um dos diretores favoritos do Cinema de Buteco e já recebeu bastante atenção aqui no site, como dá pra perceber pela quantidade de links para críticas no parágrafo anterior (e pela justa homenagem que lhe fizemos quando ele completou 80 anos).

Krzysztof KieślowskiKrzysztof Kieślowski

Outro cineasta polonês indispensável é o diretor da famosa Trilogia das Cores, Krzysztof Kieślowski. Kieślowski tem uma filmografia extensa, grande parte feita em sua Polônia natal, incluindo muitos curtas e documentários. Em sua obra de ficção, um dos filmes que acho mais interessantes é Sorte Cega (Przypadek), que parte de um mesmo incidente banal – um cara correndo pra pegar um trem – e cria, a partir de ínfimas variações na primeira cena, três versões bem diferentes do que acontece depois. Se o conceito parece muito semelhante ao alemão Corra, Lola Corra, que tem Franka Potente correndo desembestada por Berlim rumo a três finais totalmente distintos, foi Kieślowski o “homenageado” e não o contrário: Sorte Cega é de 1987, precedendo em mais de uma década o filme alemão, que é de 1999.

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Sem falar que os cartazes dos filmes de Kieślowski são sempre bem legais.

Pelo visto Kieślowski curtiu esse lance de variações sobre o mesmo tema, porque em 1989 dirigiu para a TV um projeto quase megalomaníaco chamado O Decálogo – nada menos do que dez filmes de uma hora cada (tá bom, tira o “quase”), inspirados pelos dez mandamentos, com histórias que se passam em um mesmo edifício e com os personagens geralmente aparecendo em mais de um episódio. A ambição de Kieślowski valeu a pena: embora seja tecnicamente uma mini-série televisiva, O Decálogo frequentemente aparece em listas de melhores filmes de todos os tempos.

Kieślowski nos deixou em 1996, com apenas 54 anos, não sem antes dar ao mundo outra de suas obras-primas. A Trilogia das Cores também é um projeto temático, desta vez relacionando os lemas da Revolução Francesa com as cores da bandeira da França. Enquanto o primeiro, A Liberdade É Azul (1993), e o terceiro, A Fraternidade É Vermelha (1994), são dramas falados em francês, A Igualdade É Branca (1994) é uma comédia com um protagonista polonês que é abandonado e humilhado pela esposa, acaba virando mendigo e tenta dar a volta por cima em Varsóvia em busca de vingança contra sua ex-mulher. Geralmente é o filme citado como o “menos ótimo” da trilogia, mas eu o considero um barato.

White_YouTube_Still_originalE ainda tem Julie Delpy como a sacana ex-esposa do protagonista!

Pois nem só de filmes “sérios” vive o cinema polonês: o país também produziu um punhado de comédias com conceitos bem interessantes e que acabaram virando cult. Como Eu Provoquei a Segunda Guerra Mundial (Jak Rozpętałem Drugą Wojnę Swiatową, 1970) conta a história de um azarado soldado polonês que acredita ter desencadeado, com um tiro acidental, o conflito mais sangrento da História. Já Missão Sexual (Seksmisja, 1984) é um sci-fi maluco onde dois cientistas são descongelados após a Terceira Guerra Mundial e descobrem que são os únicos homens em um mundo só de mulheres (com direito a piadas como uma arqueóloga dizendo: “Descobri o elo perdido entre as mulheres e os macacos!”).

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Ainda há muito o que falar do cinema polonês, muito cineasta que não citei aqui e muitos títulos que valem a recomendação. A Polônia lança uma média de 50 longas por ano e, embora a grande maioria não chegue ao circuito comercial brasileiro, sempre existe a boa-vontade dos curadores de mostras e festivais, e é só ficar de olho nos cinemas mais alternativos da sua cidade pra ver o que aparece.

Cito dois filmes recentes de que gostei bastante: In Darkness (W Ciemnosci, 2011), da diretora Agnieszka Holland, baseado na história real de um trabalhador polonês que enxergou na “boa ação” de esconder judeus no sistema de esgoto de sua cidade uma ótima oportunidade para ganhar uns trocados, e Aftermath (Poklosie, 2012), de Wladyslaw Pasikowski, que trata de um passado sórdido envolvendo poloneses e terras de judeus mortos na Segunda Guerra e é permeado por aquela atmosfera sinistra de que há algo de podre no ar.

aftermathA porrada come solta em Aftermath.

Mas para encerrar esta coluna, vamos voltar mais de um século no tempo e falar de outro pioneiro da sétima arte. Nascido na Rússia mas de origem polonesa, Władysław Starewicz (1882-1965) foi um dos pais do stop-motion, técnica tão antiga e ainda tão amada pelos entusiastas da animação, e produziu dezenas de curtas bem legais usando insetos como protagonistas. Você que já leu esta coluna até aqui, recomendo que separe mais 13 minutos do seu dia para conferir A Vingança do Cameraman, um stop-motion de 1912 (e lá se vão cento e dois anos!) estrelando besouros, gafanhotos e libélulas numa trama sobre… adultério.

Seja retratando tragédias reais, seja usando futuros imaginários e insetos infiéis, a Polônia é parte fundamental da história do cinema. Você já assistiu a alguns dos filmes citados aqui? Quais outros merecem a recomendação? Compartilhe com os leitores da coluna nos comentários, e a gente se vê em um novo continente no próximo Buteco Pelo Mundo!

Série BUTECO PELO MUNDO:

#1- O cinema do LAOS 
#2 – ARÁBIA SAUDITA, um país sem cinemas 


Bibliografia/leitura adicional:

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Filmes

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