Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Cinefilia: a maior herança que minha filha recebeu

grease
Danny Zuko e Sandy, o casal favorito da Malu.

É COMUM VER POSTAGENS NAS REDES SOCIAIS DIZENDO QUE “meu filho vai ser assim!” acompanhadas de fotos de pequenos vestidos como personagens célebres do cinema. É legal falar isso, mas já parou pra pensar que uma criança tem personalidade própria e cabe aos pais respeitarem isso? Seja o momento da escolha de um brinquedo, roupa ou até mesmo o que vai assistir ou ouvir, é ele quem tem que escolher o que quer ser. É quase um dever ao pais ajudar e gerar influência em seu pequeno, mas tem que ser algo a partir da vontade dele. Essa regra não vale pra tudo, até por que daqui a pouco é a criança quem irá mandar em você! Resumindo: a regra básica é o respeito pelas opiniões pessoais de seu filhote. Ele só irá seguir seus gostos para o resto da vida se quiser.

Desde pequena, a Malu sempre gostou de ir ao cinema, e eu adoro levá-la, mesmo que for pra acompanhá-la em um filme irritante como Alvin e os Esquilos. Por morar em uma região abençoada por tantas salas de cinema, este tipo de evento é algo fora do extraordinário, quase tão frequente quanto ir ao mercado. É só ter um filme interessante (pra ela, no caso), e lá vamos nós.

- Advertisement -

Ao contrário de mim, a Malu sempre foi habituada a frequentar salas de cinema. Ela sabe que, se não for ao banheiro antes da sessão começar, a vontade vai apertar e uma parte do filme será perdida. Ao contrário das outras crianças, ela sabe que precisa ficar caladinha no cinema pra não atrapalhar os outros que estão assistindo. Ela sai da sala empolgada, relembra os momentos engraçados e até critica as cenas mais fraquinhas.

Em casa, o tipo de filme muda um pouco. Desde que a apresentei ao E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg, ela descobriu que tenho algumas coisas bem legais na minha coleção de DVDs. Na época, Malu estava com seus 4 aninhos, via e revia o filme E.T., o que foi uma porta de entrada para que eu pudesse apresentar outras coisas. Entre os seus favoritos, Grease e De Volta para o Futuro (a trilogia todinha, tá?) viraram seus ‘filmes de cabeceira’. A maioria destas produções passava na TV quando eu era criança. É triste ver que a geração da minha filha não tem diretores que correspondem à altura de Spielberg e John Hughes. Em compensação, os filmes não envelhecem nunca.

et-the-extra-terrestrial-990476l
O Spielberg criou o E.T. Eu criei uma monstrinha.

A Malu não pode ver uma boa parte da minha coleção, mas é uma garotinha atenta a tudo quanto é referência. Ela sabe reconhecer os personagens de Pulp Fiction, Blues Brothers, O Senhor dos Anéis e uma série de outras coisas relacionadas ao cinema. Ela também já me pediu insistentemente pra levá-la ao cinema pra ver O Hobbit, mas estava difícil achar uma sala com o filme dublado. Ok, você pode até ser contra filmes dublados, mas quando se tem cinco ou seis anos, esta é uma condição importantíssima para ver certos títulos.

Minha filhinha entende de cultura pop e nerdices em geral. Ela joga vídeo game, lê livros e quadrinhos, está sempre informada sobre cinema e ouve música boa. Às vezes acho que ela é adulta demais, mas tenho que reconhecer que este foi o caminho que ela escolheu.Vejo minha filha como a minha miniatura, só que passada a limpo, com todas as características que eu sonhava ter quando era criança e um pouco mais. Demorei 26 anos pra me tornar o que sou hoje, enquanto a minha filha está anos-luz a minha frente se for comparar à época em que eu tinha a idade dela.

Posso afirmar com tranquilidade que, não apenas o cinema, mas todas as boas referências da cultura pop ajudam a Malu a crescer intelectualmente de forma surpreendente. Suas notas na escola são ótimas, ela aprendeu a ler cedo, sabe se expressar muito bem, aceitar as diferenças e tem curiosidade para explorar novos horizontes. Parte disso se deve à 7° arte, que sempre tem algo a nos ensinar, independente da idade. E a maior lição que o cinema lhe ensinou foi que, mesmo com os altos e baixos da vida, tudo pode ter seu final feliz.

O que me resta é incentivar e ter orgulho dela. Duvido muito que tenha algo melhor para uma mãe do que ter a honra de ser inspiração ao seu filhote. O amor ao cinema foi uma das melhores coisas que ela herdou de mim.

[cinco]