Sociologia de Buteco: Se “domesticando”

Pois é. A chefia pede e tu fica na labuta até mais tarde. Na volta ao lar, chega cansado e se depara com sua casa arrumadinha. Como num passe de mágica, tem roupa lavada e passada dentro do armário. A pia não está mais lotada de louça. Com sorte, rola uma comidinha caseira guardada na geladeira.

A invisibilidade desse trabalho mágico tem números bem expressivos no Brasil: 7,2 milhões de empregados domésticos, divididos em 6,7 milhões de mulheres e 504 mil homens. Segundo pesquisa da OIT, nós temos a maior população de trabalhadores domésticos do mundo.

O filme Doméstica (eleito pelo Cinema de Buteco como um dos melhores filmes nacionais de 2013) de Gabriel Mascaro, traz um pouco dessa realidade para as telas. Todo ele feito através das imagens captadas pelos próprios adolescentes moradores dessas residências. A sacada do diretor foi ótima: jogou a câmera nas mãos da garotada, disse “filma aí” e foi embora. O resultado é esse aqui:

O filme mostra um retrato mais intimista da relação patrões e empregados que vale ser visto. Em uma das sete histórias registradas, vemos como o Brasil é um país doido: o registro de uma doméstica que trabalha diariamente para outra empregada doméstica.

De forma geral, vários são os problemas que a galera desse tipo de trampo enfrenta, desde a precariedade de sua situação legal, ausência de conhecimento de seus direitos trabalhistas, falta de pagamento de salários, abuso sexual e psicológico e até violência física. Ou seja, como a imensa maioria não tem os mesmos direitos de qualquer outro trabalhador, a coisa fica feia.

Lembra que ano passado rolou todo aquele burburinho pela aprovação da PEC das Domésticas? Pois é, o projeto queria instituir direitos trabalhistas básicos (direitos básicos? – Que horror, camarada!!!) como seguro-desemprego, indenização em demissões sem justa causa, conta no FGTS, salário-família, adicional noturno, auxílio-creche e seguro contra acidente de trabalho.

-Cara, como assim? Eu não sou empresário pra pagar essa parada toda. 

Essa foi uma das mais comuns indignações. Outro discurso contrário se apegou à hipótese de que tais direitos poderia causar efeito inverso, levando à um grande desemprego dessas profissionais. Tendo a desconfiar que quem usou deste argumento provavelmente não aceitaria para si mesmo a perda de direitos trabalhistas fundamentais em troca da “possibilidade” de manter o nível de empregabilidade da categoria a qual pertence. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Nem nos áureos tempos de grande recessão que passamos décadas atrás isso foi cogitado. Um discurso que deixa claro que nem todos veem o trabalhador doméstico como um profissional.

A questão não é apenas econômica. É de direitos, de igualdade. Se não há cidadão de 2ª classe, deveria haver trabalhador de 2ª classe?

O negócio é que essa nova realidade na transformação dos direitos das domésticas traz pra gente um problema: se eu não tenho mais como pagar, devido aos novos custos que vem atrelados a esses direitos, como viver sem empregada doméstica, sem a babá ou a cuidadora? Nem Chapolin Colorado salva.

Isso tem impacto não só no seu orçamento, mas principalmente na sua relação na organização de tempo com a empresa que você trabalha. Quem é pobre sempre soube das dificuldades para criar os filhos, manter a casa em ordem, buscar a garotada na escola, tudo isso trabalhando. A classe média tinha uma carta na manga para aliviar esses problemas: delegava à empregada doméstica. Na hora que não puder mais pagar, esses problemas recairão em seu colo. E vai ter que resolver.

Vale lembrar que as empresas também se beneficiam deste trabalho barato, uma espécie de terceirização que muitos de seus funcionários financiam: o trabalhador doméstico ajuda a conciliar o emprego com a vida privada do seu funcionário, liberando tempo para que ele fique além de seu horário sempre que possível e que aceite jornadas e horários nem um pouco atrativos pra si. Afinal, sua casa estará como no primeiro parágrafo dessa coluna.

É justamente a classe média trabalhadora que possui a maior capacidade de pôr em pauta essa discussão na relação de tempo entre trabalhador e patrão. Para poder fazer as tarefas privadas anteriormente delegadas, quem empregava o trabalho doméstico terá que negociar e modificar sua relação com seu próprio empregador, pois na ausência do trabalhador doméstico, ou mesmo na diminuição da frequência deste, suas responsabilidades privadas não cessam. Seus filhos tem hora certa pra sair da escola, e terão que ir busca-los. Suas roupas precisam ser lavadas, suas pias tem uma capacidade limitada de acumular louça suja e a fome não passa abrindo a geladeira vazia.

-Chefe, não tá dando mais pra ficar além do combinado. Tem horário certo pra pegar os filhos na escola.

-Mas você não tem filhos.

-Mas você tem. E eu preciso de tempo para fazê-los.

As relações de trabalho possuem organicidade: mexeu numa variável, há um ciclo de alterações subsequente. E essa é uma variável pra lá de importante.

Obs.: OIT é a Organização Internacional do Trabalho. Os dados mundiais, que inclui o que citei referente ao Brasil, são de 2011. O número total de trabalhadores domésticos ultrapassa os 52 milhões de pessoas (sem contar a China, pois a OIT não teve acesso).

Dica: outro filme que vale a pena dar uma olhada é A Criada, do chileno Sebastián Silva. Trata-se de uma ficção que acaba por abordar essa relação “quase que familiar” que existe entre patrões e empregadas domésticas. Assunto delicado, usado para deslegitimar os mesmos direitos e garantias trabalhistas ao trabalhador doméstico.

Alexandre Marini

Alexandre Marini é casado como uma cinéfila que o obriga a assistir os filmes que quer e os filmes que não quer. Escreverá por aqui sobre estes temas enquanto permitirem.