Sociologia de Buteco: Dando um toque

 

O filme brasileiro indicado para concorrer ao Oscar de 2015, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, tem sua base no curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, também do mesmo diretor e com os mesmos atores. São 17 minutos que valem muito a pena conhecer, tendo visto ou não o longa. Dê uma olhada aí embaixo e voltamos a falar em seguida:

O que mais chama a atenção no curta, foi a sacada legal de ter como personagem principal um menino cego. Isso permitiu um contato incomum que, pelo menos entre meninos, é sumariamente proibido: o toque. Sem qualquer conotação sexual, tão somente para ajudá-lo a chegar em casa e mesmo antes de qualquer aprofundamento da amizade.

Dizem que debaixo da nossa pele há milhares de receptores que registram o toque, o qual é imediatamente transmitido por outras milhares de terminações nervosas através de correntes elétricas que passam pela medula espinhal, chegando até o cérebro. Daí vem a liberação da endorfina, aquele barato que todos nós queremos espalhado por nosso sistema límbico, área do nosso tico e teco responsável pelo prazer. Mas isso, é claro, é muita biologia e química.

Voltando às relações humanas…

Estudos mostram que somos sensíveis demais ao toque e que a falta deste pode afetar inclusive nosso desenvolvimento. A carícia e  o ninar nos braços, por exemplo, são tão importantes para nós, ainda bebês, como as vitaminas, proteínas e sais minerais. No entanto, apesar da positividade do toque, continuamos a evitar que ele aconteça. Por quê?

Mesmo sabendo que vários são os caminhos que podemos abordar para chegar à uma explicação, os estudos feministas e a sociologia da educação trazem contribuições bem legais a este respeito.

Meninos e meninas são educados diferentemente há séculos: meninos devem ser meninos (numa obviedade pra lá de careta!) e, para isso, devem distanciar-se do comportamento das “inimigas”, as meninas. A velha noção de que a biologia dos nossos corpos tem a capacidade de nos posicionar socialmente em campos opostos: o homem sendo o contrário da mulher. Nossa educação foi (e ainda é) sublinhada por distinções de papeis, um  determinismo sexual.

eu não quero voltar sozinho

Esclarecendo melhor: nossa infância, por exemplo, é marcada pelas relações primárias e secundárias. Nas primárias, as crianças são educadas como seres absolutamente distintos. Cada qual orientada a permanecer em seu canto, cultivando e reafirmando valores que as diferenciam. Posteriormente, lá pela adolescência, as meninas são incentivadas a abandonar suas relações primárias, aquela que tinha com suas amigas, para estabelecer suas as relações secundárias:  a aproximação aos meninos, através da valorização social dos conceitos e valores masculinos. Com o homem isso não acontece, pois nunca são incentivados a admirar os valores femininos. Reflexo da tal sociedade patriarcal. Isto talvez explique a noção comum de que os homens são tão mais unidos que as mulheres.

A mulher é apresentada como frágil e marcada pela futilidade. O homem, pela força e objetividade, num contexto em que não há espaço para o carinho ou a aproximação. Nada além de um aperto de mão ou um tapa nas costas. Esse é o papel que foi permitido às mulheres desde sua infância e, portanto, cabe tão somente à elas executar. E, claro, circunscrito à ideia de propriedade: só a mim e dentro de casa.

O medo da homossexualidade, a valorização da masculinidade e a imposição heteronormativa em nossa sociedade, ainda reforçados pelos mais diversos dogmas religiosos, transformou o toque em uma quase ofensa entre os indivíduos e que, portanto, deve ser evitado. Isso, em certo grau, nos desumaniza.

– Mas, enfim, isso ainda rola forte hoje?

Demais. Afinal, nem a cutucada no facebook foi bem vista.

Se existe algo que podemos dizer com pouca margem de erro é que todos somos deseducados sobre sexualidade. Qualquer tentativa ao contrário barra no conservadorismo religioso, no machismo, na fobia à diversidade ou na infeliz tentativa de imputar e preservar uma hipotética pureza à infância, o que nos tem remetido a uma vida adulta repleta de ignorância a respeito deste tema.

A educação sexual passa ao largo da insensatez ou da promiscuidade. Trata-se do aprendizado quanto ao respeito ao outro, do conhecer-se a si mesmo, de saúde, proteção e de limites.

Educar é libertar. Mas não é bem assim que acontece, não é? O toque, mero contato humano, foi substituído pelo medo e evitação.

Alexandre Marini

Alexandre Marini é casado como uma cinéfila que o obriga a assistir os filmes que quer e os filmes que não quer. Escreverá por aqui sobre estes temas enquanto permitirem.