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Boicote

Diz daí: um boicote que funcionou, foi pra frente, deu certo, emplacou, mobilizou a ponto de alguma coisa mudar. Pense, eu espero…

…Não vale procurar no Google…

Não lembrou, não achou ou teve dificuldades? Absolutamente normal. Não é falha de memória.

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Para poupar seu 3G: boicote era um nome próprio (Charles Boycott) que, posteriormente, virou substantivo e verbo. Eu boicoto, tu boicotas e, se muitos de nós boicotarmos, as coisas poderão mudar. É assim que funciona, ou deveria funcionar. Foi assim que fizeram com o Boycott, o Charles. Era século XIX , deu certo. Mas nem sempre deu e, como sempre, o problema está no “se”.

Já se tentou boicotar de tudo. Produtos fabricados em certos países, redes de televisão, indústrias de alimentos, marcas de automóveis, shopping centers, jornais, artistas (quem não se lembra do Rodrigo Constantino pedindo boicote contra Chico Buarque, Luis Fernando Veríssimo, Gilberto Gil…), jornalistas, intelectuais (pela compreensão de mundo do brasileiro médio, esse boicote aí parece estar dando certo), aplicativos de transporte urbano e o que mais você imaginar.

Gandhi já fez, Martin Luther King já fez e conseguiram resultados. Associações e movimentos organizados também. Mas eu, você e mais alguns amigos e conhecidos que partilham de uma mesma indignação por algo, alguém, uma marca, um lugar, um fato específico, dificilmente teremos sucesso.

O último chamamento é para o boicote ao Netflix. Em tempos de redes sociais, a tentativa de mobilização veio acompanhada da hashtag #CancelaNetflix. O motivo: a série O Mecanismo contém “manipulações narrativas desde o primeiro episódio para demonizar a esquerda”.

Qual o problema desse tipo de atitude? Nenhum.

Vai dar certo? Provavelmente não.

A história (quem se importa, não é?) dos boicotes ilustra isso: é muito difícil, mobilizar grande quantidade de pessoas sem uma pauta clara, específica, de fácil identificação, que afete diretamente e de sobremaneira parcela determinada e significativa da população envolvida. E um movimento que se dá de maneira horizontal, não estruturada, baseando-se puramente na empatia promovida por aplicativos em redes sociais, não facilita em nada sua efetividade.

A raiz do posicionamento daqueles que declararam a opção pelo cancelamento é ética. E isso é saudável, é salutar. Que bom seria se as pessoas pudessem se posicionar eticamente frente aos acontecimentos com energia e desprendimento. Que bom seria… Mas declarar que irá cancelar não significa cancelar de fato. Cancelar de fato não significa manter o cancelamento por muito tempo. E essas são algumas informações que não temos acesso e, provavelmente, nunca teremos, tornando difícil mensurar a efetividade do boicote. Sem tais mensurações, poucas chances de ações desse tipo mudarem alguma coisa de forma concreta.

São tempos difíceis, gente, em que não há hashtags suficientes para fazer frente aos grandes conglomerados, às enormes estruturas econômicas de poder, ao neoliberalismo. Mas, claro, não é por isso que não devemos fazer certas escolhas. O problema é achar que sua escolha pessoal é capaz de mudar, de incomodar de forma ampla: o nome disso é inocência.

Vivemos numa sociedade baseada no consumo. O posicionamento ético em questão (do boicote), suscita o consumo ético. Algo como “não compactuarei com quem ou aqueles que ferem a ética em que acredito”. Isso é importantíssimo. Mas o consumo ético, tão necessário hoje em dia, é incapaz de fazer frente à tanta coisa importante, como por exemplo:

ao sofrimento animal na produção de carne ;
ao trabalho infantil (lembre isso ao comer suas castanhas);
ao trabalho escravo (quantas pessoas resistem às pechinchas das lojas que vendem roupas baratinhas, não é mesmo?);
aos testes de produtos químicos em animais (quem se lembra de verificar se aquela marca de desodorante, de shampoo, antes de comprar…);
Então…Por que funcionaria com a Netflix?

O Mecanismo merece os questionamento e as críticas (e não só as fílmicas, as políticas também), pois são pertinentes e necessários. Mas será de fato coerente tentar mobilizar grande número de pessoas para cancelar o acesso a uma plataforma que fornece grande acervo cultural ( e acima da média da tv aberta e gratuita, claro) como filmes e documentários premiados, muitos deles críticos ao tal “sistema” ?

No mais, compartilho da indignação de quem quer o boicote, seus motivos, mas não participo do boicote em si. E aposto que poucos farão o tal cancelamento da plataforma de filmes e séries, por mais que compartilhem da mesma indignação, pois indignar-se não pressupõe normas de atuação política igual para todos.

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