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Demissão de James Gunn e o fim do direito de amadurecer

A demissão de James Gunn, diretor dos dois filmes dos Guardiões da Galáxia, aconteceu semanas atrás, mas até hoje está rendendo nas redes sociais. Entre atores manifestando apoio ao cineasta e listas reunindo assinatura de mais de 300 mil pessoas, parece que Disney não voltará atrás e o diretor está fora do terceiro filme da série.

Tudo começou quando usuários do Twitter começaram a desenterrar antigos tuítes de Gunn. Tuítes nada elegantes ou adequados. Na verdade, alguns deles podem ser até considerados criminosos, envolvendo pedofilia, machismo etc. Isso foi entre 2008 e 2011 e tempos depois, o diretor pediu desculpas publicamente pelo seu passado não tão distante. Você pode ler a matéria completa clicando aqui.

Acontece que esses mesmos tuítes voltaram a tona semanas atrás, quando um grupo digital que apoia o atual Presidente norte-americano Donald Trump começou a fazer postagens acusando Gunn. Uma informação importante para entender o que levaria os apoiadores digitais do Presidente a atacarem um cineasta é que James Gunn se manifestou diversas vezes contra o governo do país. Se quiser saber mais sobre isso, busque o nome Mike Cernovich no Google ou leia aqui.

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Aqui você acha alguns desses tuítes bizarros do diretor de Guardiões da Galáxia e reconhecerá que Gunn realmente exagerou, mas justificou seu erro e a Disney/Marvel mesmo sabendo da história (e dos trabalhos anteriores do diretor) o contratou mesmo assim. Agora que a história foi ressuscitada pelos minions de Cernovich, a empresa parece ter concluído que seria ruim para os negócios manter relações com o diretor e decidiu romper os contratos.

Mas teorias da conspiração a parte, não é sobre isso que eu quero falar (apesar de ser sobre isso a demissão do diretor). Pensei sobre a maneira menos arriscada de comentar o assunto aqui. Conclui que não há uma forma menos arriscada. Só existe uma forma de falar, e é sendo sincero ao que acredito que seja justo.

O James Gunn de 2008-2011 cagou no maiô. O James Gunn de 2012 se desculpou publicamente. O James Gunn de 2014 viu Guardiões da Galáxia vol.1 se tornar um sucesso enorme. O James Gunn de 2018 foi demitido pelo seu passado, independente das suas justificativas e do que quero falar nos próximos parágrafos.

Nós vivemos uma época implacável em que tudo é registrado e monitorado. Quando não é para vender informação é para fabricar conteúdo que abale nossa reputação. A ânsia de justiça cria situações delicadas e que podem ser injustas.

Prezo pela educação e respeito, e hoje temos muitos movimentos crescentes obrigando as pessoas a modificarem suas atitudes e ações preconceituosas. Com todos os benefícios que isso irá trazer para o futuro, existe a chance de sofrermos represálias pelo que costumávamos ser ou pensar. Acredito que viver é um processo de evolução constante, e de forma alguma consigo conceber a ideia de que alguém mereça ser penalizado por uma asneira escrita dez anos atrás e que já foi devidamente esclarecida, com a própria pessoa reconhecendo seu erro e se desculpando.

Gunn relatou que se achava engraçado com o tom agressivo que usava para tentar quebrar assuntos polêmicos ou tabus. Afirmou isso num pedido de desculpas em 2012, e tornou a repetir agora que a história retornou como um fantasma. A atitude dele é de quem sabe que fez algo errado e precisou evoluir para se tornar uma pessoa melhor.

O nosso passado, por mais doloroso ou babaca que seja, é parte do que nós somos hoje. Não é um tuíte em rede social que vai definir nosso caráter. Nós somos o conjunto de todas essas experiências, inclusive as erradas. Precisamos aprender que são erradas e não continuar repetindo, como é o caso do diretor antes de virar alvo dos cães de guarda da direita norte-americana.

Sem ter esse direito de errar publicamente, automaticamente perdemos a chance de evoluir de verdade. O pensamento continuará lá dentro e se não existir essa jornada de aprendizado para evoluir seu pensamento, nunca será permitido que essas pessoas mudem genuinamente. Para descobrir quando você foi longe demais nas ideias, ou “piadas”, é preciso ter consciência. Muitas vezes, isso só acontece quando alguém dá aquele puxão de orelhas e a pessoa demonstra humildade para reconhecer seu erro e disposição para evoluir consertando seus erros. Ou tentando diariamente.

Algumas piadas não são engraçadas e James Gunn está sentindo isso na pele – até porque seus comentários irresponsáveis tiveram um nível criminoso. Eu levo em consideração que aquela pessoa que escreveu as mensagens não existe mais. Como tantos de nós, ele teve consciência que certas coisas não são para brincar e parou de postar comentários agressivos. Pelo menos, é o que prefiro acreditar.

Acredito que caso Gunn não tivesse se manifestado no passado sobre o assunto, o ressurgimento dos tuítes seria justo e necessário. Afinal, se ele plantou preconceitos, nada mais correto que colher as consequências negativas disso tudo. Mas me deixa abismado saber que o cara se pronunciou, deu a cara a tapa para pedir perdão e agora é como não pudesse ser perdoado ou buscar uma redenção, como se fosse algo que ninguém soubesse.

Podemos dizer que os tempos eram outros, né? Naquela época, os escândalos eram jogados pra debaixo do tapete e Harvey Weinstein’s da vida agiam sem medo acreditando que nunca seriam punidos. Tudo mudou… Inclusive o comportamento do diretor – que ao contrário de outros colegas, não se intimidou simplesmente selecionando e apagando seus tuítes, como se isso fosse anular quem ele era e como precisou passar por isso para ser quem é hoje.

É importante culpar os verdadeiros culpados sem que isso signifique fingir que todos sempre fomos perfeitos em nossas atitudes e opiniões ou que não temos direito de reconhecer nossos erros do passado para aprender a construir uma pessoa melhor no futuro. Um cara que se desculpou anos atrás por falar besteira não merece ser considerado culpado.

Nós todos somos passíveis de erros. Especialmente quem não vive atrás da segurança e anonimato das redes sociais. Evoluir é uma condição para a humanidade em geral e torço para que todos queiram seguir esse caminho para suas vidas.

Abaixo está o comunicado de James Gunn após a demissão. Detalhe que ele está no mesmo Twitter que causou toda essa confusão e revela a maturidade de quem precisou amadurecer muito para superar seus próprios traumas pessoais e se tornar o profissional querido que é hoje:

“Muitas pessoas que seguiram minha carreira sabem como eu comecei. Eu me via como um provocador, fazendo filmes e contando piadas que eram escandalosas e tabu. Como eu disse publicamente muitas vezes, na medida em que eu desenvolvi como pessoa, meu trabalho e meu humor também desenvolveram.

Não posso dizer que sou melhor, mas sou muito diferente do que eu era há alguns anos. Hoje eu tento enraizar meu trabalho mais no amor e na conexão do que em raiva. A época em que eu falava coisas só para chocar e ver as reações acabou.

No passado, eu me desculpei pelo meu humor que ofendeu pessoas. Eu me sinto arrependido e realmente quis dizer tudo que disse nas minhas desculpas.

Para deixar registrado, quando eu fiz estas piadas, eu não estava fazendo isso. Eu sei que é uma declaração estranha e que pode parecer óbvia, mas estou aqui dizendo isso.

Esta é a verdade completa: eu costumava fazer piadas ofensivas. Eu não faço mais. Eu não culpo meu passado por isso, mas me sinto mais humano e mais criativo hoje. Amo vocês todos.” – [via Aficionados]

PS: Esse texto não tem intenção de defender o indefensável: machismo, pedofilia e qualquer forma de racismo são crimes e devem ser punidos. Aqui entra um ponto de vista em que se questiona os motivos da Disney ter ignorado isso antes da contratação do diretor… E se é realmente justo ignorar toda a mudança de um profissional querido no mercado por conta de algo que o mesmo se declarou arrependido anos atrás.

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