Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Papo de Abstêmico I – (D)Efeitos (Pt. 2)

Theo Collin explica um pouco sobre como são feitos os efeitos especiais no cinema e o papel do espectador nisso tudo.

 Identificação e contrato

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“[A] mágica, devemos lembrar, é uma arte que requer colaboração entre o artista e seu público.”

E. M. Butler, The myth of the magus (1948)

Chegamos à segunda “Papo de Abstêmico”. Para quem está no primeiro gole, saiba que a coluna original pode ser lida aqui. Embora cada texto seja pensado e estruturado para ser entendido individualmente, as primeiros quatro edições (essa e mais duas) surgiram de uma mesma elucubração abstêmica. Sendo assim, você pode optar por ler só essa, mas se quiser entender o gatilho da conversa, dê uma checada na original. Hoje em especifico espero que possamos refletir sobre a colaboração entre o artista e o público para criar essa mágica chamada Cinema.

Então você tem um empreguinho de merda, não come ninguém há mais de 6 meses, está sem dinheiro para comprar aquele novo brinquedo eletrônico que tanto deseja e, mesmo assim, chora ao saber da morte da Gwen Stacy ou se emociona ao ver dois atores lindos e milionários fingindo se apaixonar um pelo outro. Isso faz sentido? Faz. A apreensão de uma obra artística tem mecanismos próprios. O fato dos personagens das obras não serem reais, apenas palavras ou desenhos em papel, atores em um palco ou projeções em tela, não diminui o nosso interesse. A arte tem essa característica. Não vou refletir nesse momento sobre a função de escapismo da arte (então Rosa Púrpura do Cairo, outro dia volto a você) nem questões de estética (nada de Kant hoje, meninos). Me interessa, agora, a imersão provocada pela arte narrativa.

  • Espectador

Toda vez que lemos um livro ou HQ, assistimos a uma peça ou a um filme, estamos firmando um contrato implícito de aceitação; sabemos claramente que o que narrado não é verdade, mas aceitamos como tal durante o tempo de exposição à obra. Isso é chamado, muitas vezes, de pacto ficcional. Funciona assim, você vai ao cinema e pensa “olha só, eu sei que tudo aí é mentira, mas vou fingir que não para que possa me divertir”. Esse processo não é completo, é óbvio; você nunca vai se desligar totalmente da realidade (só se você for Kaspar Hauser, vai saber). Por isso, ao mesmo tempo em que se emociona com o destino dos personagens, percebe nuances de interpretação e a técnica do filme, como a fotografia e a montagem. A imersão e a apreciação não são, de maneira nenhuma, excludentes. É como a criança quando escuta uma história bem contada; ela se assusta ao ouvir o “buuu” do monstro, mas ri logo em seguida, pois entende que tudo é faz de conta.

Pois bem, como todo contrato, existem obrigações e benefícios para ambas as partes. Do lado do espectador o benefício é evidente; ele vai se divertir (considero diversão em um sentido amplo, de prazer pessoal, que pode ocorrer ao se assistir filmes mais leves, como De Volta Para o Futuro, ou pesados, como Ladrões de Bicicleta). A obrigação é a chamada suspensão da descrença, literalmente parar de não crer. Para que qualquer narrativa funcione, isto é, para que possa provocar emoções diversas em quem a consome, é preciso que este voluntariamente aceite deixar de lado sua incredulidade, sua descrença, a começar pela irrealidade da ficção (nada daquilo realmente aconteceu), até as regras próprias, e muitas vezes absurdas, daquele universo. E o cinema adora destruir leis da física, química e, principalmente, da lógica. Por isso explosões nos espaços são bem barulhentas, as balas dos revólveres são muitas vezes infinitas e os heróis soltam piadinhas mesmo em momentos de extrema tensão.

O cara chato que, ao ver um filme, reclama o tempo todo que aquilo é impossível, não está cumprindo bem a sua parte do trato. Lidar com um destes quando há o desprazer de dividir uma sala de cinema (ou de casa) com um é simples; é só, ao ouvir o questionamento imbecil, responder: “tanto isso é possível que está acontecendo agora, só que em uma realidade diferente da sua. Foi exatamente para isso que viemos aqui, aliás. Se quiser ficar com sua realidade volte para casa, abra a janela e espere acontecer alguma coisa. Todos ficaremos felizes”.


  • Realizador

Isso não significa, em absoluto, que todos os problemas com a apreensão de um filme devem ser creditados aos espectadores. Muito pelo contrário. Os realizadores também têm suas obrigações, e elas residem, principalmente, na verossimilhança. Quanto mais verossímil for uma obra, mais perfeita será a imersão. Narrativamente, isso é conseguido com regras bem claras do universo criado e respeito a elas. Por exemplo, é esperado que as ações dos personagens sejam naturais ao seu desenvolvimento. Quando isso não ocorre, imediatamente questionamos a capacidade do criador, e, sendo assim, nos desconectamos da história.

No cinema, por se tratar de obra audiovisual, o processo é mais complexo, pois, além da coesão narrativa, existem outros fatores que dizem respeito à verossimilhança, como a escolha (e as escolhas) do elenco, a coerência visual e a relação entre os elementos diegéticos e não diegéticos. Considerando a escolha de elenco: se você vai fazer um filme sobre a guerra de Troia, não vai escolher para o papel de Helena, cuja beleza é um dos principais motivos do conflito, a Sarah Jessica Parker. Não é possível comprar essa mentira, toda suspensão da descrença tem limite. Da mesma maneira, as decisões dos atores influenciam no final; um sotaque mal feito, uma voz exagerada, tiques que não combinam com o papel interpretado jogam o espectador para fora da narrativa. Além disso, existem os famosos cameos, as participações especiais. Em ambos os casos, se percebe o ator e não o personagem.

É improvável, também, que o acordo funcione perfeitamente caso a trilha sonora não combine com a cena, ou que existam contradições e absurdos visuais, como um personagem pobre morar em uma bela mansão e explosões que não produzem efeitos devastadores. Obviamente, os filmes são diferentes entre si, mas cada um cria uma lógica visual, e a fuga a ela, sem o desejo claro da busca de um efeito (ironia, choque, humor), mais uma vez, faz o espectador se desconectar da obra. Exemplificando, embora filmes como, digamos, Dogville e Marionetes visualmente sejam muito diferentes de grande parte das produções lançadas, conseguem emocionar e manter a imersão do espectador devido a sua coerência. Se, do nada, mudassem as regras estabelecidas, haveria dificuldades para manter o contrato.


  • Primeiras Complicações

Justamente aí surgem os problemas com os efeitos visuais. Em boa parte dos filmes hollywoodianos, mas não só, busca-se um naturalismo absoluto, isso é, uma ilusão perfeita de realidade, que seria conseguida escondendo-se os artifícios. Como vimos, nem todas as produções têm esse intento; você percebe o jogo proposto por Lars Von Trier, mas entra nele de qualquer maneira. Muitas vezes esses filmes, que pretendem a todo custo camuflar a irrealidade, são bem sucedidos, considerando os inúmeros recursos visuais criados na pós-produção que passam despercebidos por nós (e são muitos, acreditem). Porém, da forma como são criados, qualquer efeito um pouco mais evidente ou menos crível nos atira para fora da narrativa.

Sendo assim, existe uma confiança implícita e tácita entre ambas as partes, realizadores e espectadores, de que cada um cumprirá o seu papel, esperando que o outro faça o mesmo. A apreciação da obra depende disso. No entanto, algumas complicações se impõem. Em primeiro lugar; esse é um modelo clássico de arte, e, embora imperante, não é o único. Além disso, o modo como entendemos a realidade na tela é muito diferente do que fazemos no nosso cotidiano. E isso é uma complicação maior para os participantes do contrato específico do cinema.

Algumas dessas complicações, o outro lado dessa análise e uma reflexão sobre os efeitos especiais em geral vão vir em seguida, na(s) próxima(s) Papo de Abstêmico. Aguardo a todos, esperando mais comentários abaixo. Ainda está cedo, peçam mais uma, não é ainda o momento da saideira…

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