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Conversas no Buteco: A novela morreu. Ou não.

“Inaceitável o simples retorno aos elementos da combinação fadada à ação e ao prazer. Balouçante pau de sucupira leve nas águas do espírito, água-viva mais água que viva. A astúcia contra a essência dissipadora do mundo quente lacrado em torno da árvore de osso. Quase-alma, bem mais alma do que quase.”

É provável que a frase de Antônio Callado tenha servido, em seu romance Quarup, como um paralelo entre a derrocada do restolho da democracia brasileira, no ano de 1967, à véspera do AI-5, e a porrada que levou seu protagonista, o padre Nando, em uma praia, logo antes de ser socorrido por um pescador que o levaria para a guerrilha – deixando o personagem entre a vida e a morte por algumas páginas; Mas, se vivo fosse, talvez Callado concordaria que a mesma frase poderia ter sido usada para descrever o momento atual da indústria da telenovela brasileira. Uma instituição, no Brasil, mais consolidada do que a da Democracia.

A novela brasileira não está acabando. Longe disso. Bem pior. Ela vive uma fase de uma morte arrastada, longa, pouco dolorosa, silenciosa, pouco vistosa, pouco vislumbrada, e pouco vivente. E cheia de barriga.

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A nossa novela veio do rádio e dos teleteatros. Profissionais como Ivani Ribeiro e Janete Clair, que escreviam e tinham o total comando sobre a voz que ia ao ar, e Cassiano Gabus Mendes, um executivo – em uma época em que os executivos de televisão eram, de fato, artistas – que atuava, dirigia e adaptava textos que iam ao ar ao vivo, se tornaram criadores de tramas cuja produção era chefiada por eles: da escalação do elenco à montagem feita pelo diretor, passando pela begônia no cenário ou pela cor da gravata do galã, tudo passava pelo roteirista ou eventualmente por necessários tratamentos de roteiro (na época em que não havia Word e e-mail, eles colavam com Pritt um papel recortado sobre a cena anterior!). Não era demonstração de poder movida a excesso de ego. Era aplicação por total falta de tempo. E não só ajudava como funcionava corretamente, no sentido amplo.

Enquanto isso, os seriados americanos, confeccionados (a maioria, não todos) por produtores que não ousavam, por redatores amontoados nesses enlatados, e por atores que ainda pretendiam chegar ao cinema, eram exibidos como no lugar da toalha estancada para secar uma água de um chope que um garçom deixou derramar em uma mesa… no horário da tarde ou das tardinhas. Os melhores, raras exceções, eram mostrados depois do horário nobre – quando não tinha filme.

A situação se inverteu. As séries americanas se profissionalizaram pela mesma razão com que as novelas brasileiras se firmaram: os roteiristas eram os autores. Os chefes. Em parceria com os diretores. Mas os donos do produto eram os escritores.

A diferença é que as séries industrializaram este modelo.

O seriado ou o sitcom americano se fez confeccionado por um pool de produtores-executivos – os supervisores do projeto. Estes profissionais incluem o tradicional produtor-executivo, responsável pela supervisão-macro da logística e da produção-em-linha e pelo controle e planejamento de orçamento e verba, mas também pelo diretor – o que na televisão brasileira (especialmente na Globo – que adora inventar nomes de departamentos e cargos, como se fosse uma mega-distribuídora de Hollywood cheia de bifurcações e estúdios independentes) já se chamou, improvisadamente, de “diretor-geral”, “supervisor”, “diretor-executivo”, “diretor de Núcleo” (ou simplesmente “Núcleo”, como se “Núcleo Fulano de Tal” significasse uma produtora dentro da própria empresa) – e agora voltou-se a se chamar “diretor-artístico”; mas – principalmente – desse corpo de produtores-executivo passou a fazer parte o criador da série, o principal roteirista, o “showrunner”. É ele, quase sempre, o produtor-executivo com o maior “pau na mesa”.

Assim, os roteiristas viram nas séries a possibilidade de concretizar o que jamais puderam fazer nos filmes: ter o poder de não só criar mas de mandar no produto, escolher os atores, fazer o corte-final. Foi um golpe inteligente da TV contra o cinemão; O autor, no cinema, é o diretor – como todos sabem. E o cara que escreve tudo e que tem as idéias mais importantes acaba funcionando como “empregado”. O que é justo: o roteirista entrega com antecedência nesses casos, deixando só o diretor no dia-a-dia da produção. Mas ainda assim sempre gerou cisões.

Billy Wilder dizia que se tornou cineasta para impedir que os diretores continuassem a estragar os seus roteiros. Woody Allen, mesma coisa.

Tal sorte não teve o roteirista Allan Ball, premiado por Beleza Americana. Ele propôs um projeto de direção – e o estúdio o queria apenas como roteirista. E o que ele fez? Uma série. Ele criou e chefiou True Blood. Um dos principais sucessos da HBO. E há vários exemplos similares – de sitcoms como Seinfeld (onde Larry David precisou brigar com cada diretor que encontrava pela frente durante o processo de um piloto e uma temporada, até se tornar o produtor-executivo da série que, a partir dali, revolucionaria a televisão pela linguagem inovadora do senhor David e de Jerry Seinfeld) até projetos que superaram a indústria cinematográfica em crítica e números – de Sopranos a Breaking Bad.

O cinema americano passou por uma séria crise e as séries prosperaram.

No Brasil, independentemente das dificuldades de nossa indústria cinematográfica, é indubitável que a novela sempre fez mais sucesso que os filmes. Só agora, que a Globo co-produz, os filmes brasileiros mais popularescos fazem sucesso de fato. Mas, antes disto, a telenovela já era o principal produto de entretenimento no Brasil. Internamente e internacionalmente; porque, parafraseando o estrategista de campanha de Bill Clinton ao falar sobre economia: O SEGREDO É O ROTEIRISTA, ESTÚPIDO.

Não se trata de questão de política ou de vaidades, ou de sindicalismo grosso. É estratégico. O roteirista, autor da novela, é quem escreve os roteiros diariamente e vai adaptando-os ao gosto do público, e ao próprio gosto, enquanto a novela já está no ar. Ele passa o dia reescrevendo coisas à medida em que a produção tem problemas com o ator que teve overdose ou a protagonista que disse não poder ir à gravação porque a cachorrinha teve uma crise de choro à noite, o que deixou a atriz em grave depressão (sim, já ouvi de um caso assim). Logo, é o dono do roteiro que, desde que o momento que criou a sinopse pensando não só na trama mas na tônica, compreendendo o acabamento e a escalação de equipe, músicas e locações, tem a capacidade de flexibilizar o produto sem que ele perca, com isto, qualidade artística ou de texto. Em suma, os autores sempre mandaram mais que os diretores.

Sempre mas está acabando. As últimas gestões da Globo, maior produtora de telenovela brasileira em disparado, optaram por um modelo em que o poder decisório ficou nas mãos dos diretores, muito mais que dos autores. E isto mudou muita coisa. Os executivos-chefe passaram a ceder aos executivos nouveau-riche, que não só dirigiam câmeras e atores mas que, cada vez mais, opinavam nas histórias, nas cenas – e até nas decisões criativas dos autores, chegando a chantagear sobre o que gravariam, o que cortariam, etc..

As novelas foram se fragmentando em qualidade, as audiências caem vertiginosamente a cada “novidade” (?) e a renovação dos principais nomes do mercado, hoje quase todos septuagenários, não se dá com eficácia, uma vez que os neófitos já nascem e crescem subordinados e miméticos.
Hoje, é muito mais comum que o telespectador médio, no Brasil, opte por uma série americana na Netflix enquanto a Globo exibe sua tradicional novela das nove.

Paralelamente, as séries brasileiras começaram a ser produzidas em quantidade razoável – mas nenhuma estourou bastante, ainda. Porque são confeccionadas e executadas por produtoras cujos sócios são… cineastas. Os grandes escritores brasileiros continuam, por enquanto, atrelados às maiores pagadoras, as empresas de TV. Por enquanto.

Resta saber se o novo mercado de televisão brasileiro vai continuar optando pelo fracasso, ou se irão aprender com as lições estadunidenses. Como as emissoras brasileiras sempre tiveram uma síndrome de messianismo e um vício antropofágico pela mimese em Hollywood, é provável que, com décadas de atraso, eles se corrijam finalmente agora. ______________________________________________________________________
RICARDO MONTALBAN foi ator na Ilha da Fantasia, surfista, capoeirista e também roteirista de TV. Hoje encontra-se reabilitado do mercado de novelas, minisséries e outros vícios, mas pode sofrer uma recaída a qualquer momento.

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