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Malévola, Frozen e a Jornada da Bruxa

No livro O Herói de Mil Faces, publicado em 1949, Joseph Campbell realizou uma análise comparada de mitos de diferentes culturas, com o objetivo de encontrar uma estrutura comum que unisse as diversas histórias. O mitólogo deu a essa estrutura o nome de “monomito” (também chamado de A Jornada do Herói).

O que é

Monomito é uma jornada cíclica em que o herói parte do seu mundo normal, recebe um chamado para a aventura, encontra mestres que o guiam e obstáculos a ultrapassar, e finalmente, na última parte, o herói retorna ao seu mundo. No entanto, agora ele está diferente; conseguiu aprender, melhorar ou foi capaz de conquistar algo.

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Na maneira como foi adaptada pela cultura pop moderna, a jornada tem início apresentando o herói como alguém comum, sem poderes ou características especiais (Luke Skywalker, Harry Potter, Neo). A seguir, o herói encontra um mentor que o guiará e ensinará (Obi-wan, Dumbledore, Morpheus), tornando-se um aprendiz. No fim, no desenlace da história, ele usará os poderes que conseguiu, através de ensinamentos e treino, para derrotar um inimigo externo (Darth Vader, Voldermort, Agente Smith).

Nos filmes de vilões

Alguns filmes atuais, como Malévola e Frozen, subvertem essa jornada padrão ao contar a história pela perspectiva da antagonista: a bruxa. Malévola é a vilã da história da Bela Adormecida, do francês Charles Perrault, enquanto a Elsa de Frozen é inspirada na bruxa do conto A Rainha das Neves, do dinamarquês Hans Christian Andersen.

Usar a perspectiva do vilão pode ser uma operação simples de inversão dos sinais de bem e mal. Como ocorre, por exemplo, em Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith, que mostra que, na perspectiva do vilão Darth Vader, os Jedis são do mal. Mas não é isso que é feito nos filmes que apresentam a perspectiva da bruxa. Na verdade, a jornada da personagem difere bastante da jornada do herói.

Na jornada do herói, em geral, o herói sai de um ambiente familiar e seguro para um contexto social maior (Aliança Rebelde, Hogwarts, Mundo Real), ou seja, do seio da família para a sociedade. A figura do mestre auxilia o herói na assimilação das novas regras, condutas e modos de agir desse novo ambiente, no qual suas interações sociais têm mais relevância.

Frozen e Malévola

Não há figuras de mestre em Frozen e Malévola. Na verdade, ambas já nascem com plenos poderes e capacidades.

Em Frozen, Elsa inicia sua história inserida num contexto social bem definido como uma princesa. Elsa nasce com poderes, mas para que possa explorar inteiramente extensão deles, ela precisa romper com a sociedade e se isolar. Malévola também está de posse de seus poderes no início do filme. A bruxa da Bela Adormecida sai de seu ambiente familiar no Vale das Fadas para uma sociedade mais complexa: um reino humano.

Entretanto, diferentemente do que acontece na jornada do herói, a relação com a sociedade não a ajuda a explorar e desenvolver seu poderes, mas, ao contrário, ela tem seus poderes tolhidos (perde suas asas). Enquanto o herói vai para a sociedade para ampliar seus poderes, a bruxa inicia sua jornada com seus poderes e possui uma relação mais complexa com o meio social. Ela precisa aprender a utilizar seus poderes em um âmbito social, sem que seja temida por isso.

O ápice da Jornada da Bruxa não é o enfrentamento de um inimigo externo, mas a possibilidade de conciliação da verdadeira natureza da bruxa com o seu papel social. No caso de Frozen, isso ocorre quando Elsa faz as pazes com sua irmã. No caso de Malévola, quando Aurora, sua “afilhada”, torna-se rainha.

Um aprendizado diferente

Em ambos os longas, o aprendizado não ocorre da destruição de um inimigo, mas da possibilidade de reconciliação. E será essa força que transformará não só a bruxa, mas toda a sociedade ao redor dela.

Monomito é uma estrutura que permeia as mais diversas histórias humanas, mas isso não quer dizer que essa estrutura se mantenha sempre igual e imutável. Pelo contrário, ela é bastante maleável, aberta à adaptações e reinterpretações. Assim como existem diferentes pessoas, existem diferentes jornadas. Quanto mais interpretações tivermos, mais compreenderemos outras maneiras de estar no mundo e outros tipos de jornadas de vida.