O Buteco entrevista Marcelo Seabra, crítico do blog O Pipoqueiro

No Mesa de Bar desta semana, o Cinema de Buteco se reuniu para conversar com Marcelo Seabra, crítico de cinema do blog O Pipoqueiro. Confira o nosso papo sobre crítica, filmes, música, podcasts e as famigeradas cotações:

Lucas Paio: Beeeem, amigos do Cinema de Buteco! Estamos aqui de volta para mais um Mesa de Bar coletivo, fazendo jus ao espírito do site ao reunir uma pá de gente para conversar virtualmente como se estivéssemos tomando cerveja juntos.

Desta vez vamos papear com Marcelo Seabra, vulgo O Pipoqueiro, sobre sua prolífica produção de críticas de cinema. Boa tarde, Marcelo!

Marcelo Seabra: Boa tarde, Lucas, pessoal!

Lucas Paio: Cara, uma das frases mais lidas aqui no grupo, sempre que alguém menciona algum filme dos últimos 10 anos, é “Tem crítica no Pipoqueiro!”. Diga aí, quantas críticas você escreve por ano?

Marcelo Seabra: Nos últimos 10 anos?? hehehe Criei O Pipoqueiro na virada de 2010 para 2011 com medo de não dar conta de escrever com frequência. Já variei essa frequência de três a duas vezes por semana, atualmente estou em quatro vezes.

Tenho um grande amigo, o Rodrigo Monteiro, vulgo Piolho, que contribui esporadicamente.

Hoje, são 802 post publicados. Daí, dá para ter uma ideia da quantidade de postagens por ano.

Carvalho de Mendonça: Você disse 2010 e 2011… Foi alguma obra que você assistiu nesse período que te deu o start: “Preciso escrever sobre isso”?

Lucas Paio: Certeza que foi Shrek Para Sempre. Ou seria A Saga Crepúsculo: Eclipse?

Marcelo Seabra: Eu tinha a vontade de escrever já há algum tempo, mas esse medo de não conseguir manter me segurava. Eu acredito que, para manter visitações regulares, você deve manter o compromisso. E acaba surgindo esse compromisso com os leitores. Um belo dia, conversando com um outro grande amigo, ele topou entrar, e começamos de dupla. Só assim pra eu vencer aquele receio inicial.

Só que, na época, ele mudou de emprego, acabou abandonando o barco sem escrever nada. E eu toquei.

E esses dois filmes não têm crítica lá… hehehe

Lucas Paio: A maioria das críticas são de lançamentos, né? Ou de vez em quando você revisita obras do passado?

Marcelo Seabra: Como o volume de lançamentos é grande, acaba sendo a maioria. De vez em quando, eu indico alguns de anos passados. Agora, por exemplo, estou pensando em escrever sobre a série Peaky Blinders, que já completou três temporadas, indo pra quarta, e começou em 2013.

Com o advento da Netflix, ficou fácil encontrar, então é legal dar umas indicações.

Lucas Paio: Com certeza. Quando eu crescer quero ser assim, conseguir escrever tanta coisa numa semana e ainda conciliar tudo com vida profissional, social e etílica. Sem falar no tempo pra ver tanto filme! Esse ano tá foda, acho que não cheguei nem a 50…

Marcelo Seabra: Eu acabo não assistindo a tantos filmes exatamente para tentar conciliar as coisas. Chego a uns 200 por ano. Conheço gente que já viu 500 até agora.

Tiago Tigre: Teve um ano que eu queria ver dois filmes por dia. Aguentei uns 2 meses.

Lucas Paio: Eu já li um blog de uma garota que conseguiu ver 1001 filmes em um ano. Detalhe: eram 1001 que ela nunca tinha visto antes! Isso sem contar os repetidos! [Nota do Editor: na verdade foram 1117!]

Marcelo Seabra: Pra ver 1001 filmes em um ano, você precisa viver disso, ou estar na escola ainda. Ou não ter nada pra fazer, dia nenhum. Prefiro manter uma vida mais saudável.

Tiago Tigre: São praticamente três filmes por dia.

Marcelo Seabra: Outro “problema”: o volume de séries que tem sido lançado. Ocupa muito tempo ver uma temporada, o número de filmes acaba caindo.

Lucas Paio: Acho que ela trabalhava como projetora num cinema de arte. Aí é mais fácil…

Marcelo, quanto tempo você costuma levar entre ver o filme numa cabine, por exemplo, e publicar a crítica? Você já sai do cinema cheio de anotações ou deixa o longa cozinhar na cabeça por um tempo antes de escrever?

Marcelo Seabra: Prefiro deixar cozinhar. Algumas observações são imediatas, óbvias. Outras, vão chegando à medida em que se pensa no filme. Não gosto de escrever imediatamente exatamente para assimilar as coisas. Principalmente, filmes que causam uma impressão forte, como franquias clássicas. Sair de um Batman vs Superman e escrever logo pode dar errado, deixar o fã falar e não pensar direito.

No momento, estou “cozinhando” dois filmes. Como dou um espaço entre as publicações e publiquei uma crítica hoje, tenho tempo pra desenvolver bem essas duas.

Carvalho de Mendonça: Marcelo, a internet democratizou a crítica em diversos setores. Como você enxerga o preconceito de críticos acadêmicos em relação às novas vertentes mais focadas em opiniões pessoais?

Marcelo Seabra: Eu acho que nunca se deve generalizar – olha eu generalizando. A partir do momento que você tem contato com um crítico, procure perceber os argumentos. Se é “eu gostei porque eu gostei e é legal”, pare de seguir, não vai acrescentar nada. Acho muito bacana que muitos tenham a oportunidade de opinar e se expressar. Com esses muitos, entra no meio gente boa, picaretas etc. Basta filtrar.

É o mesmo com a produção de filmes: fazer e distribuir ficou mais fácil, então aumenta o nosso trabalho de filtrar. É cada porcaria que chega que um trabalho de escolher é muito necessário.

Quando eu era mais novo (há poucos anos…), era só chegar na locadora e pegar o que tivesse. Hoje, temos mais opções do que damos conta.

Lucas Paio: Pois é, que nem minha lista da Netflix. Pra cada filme que eu vejo, adiciono uns 10…

Marcelo Seabra: A lista está grande… E cheia de séries também.

Maristela Bretas: Você ja teve algum problema ou retaliação de distribuidora ou “artista” por fazer uma crítica que desagradou?

Marcelo Seabra: Retaliação, não. Tenho uma boa relação com as distribuidoras e ninguém espera favores, de nenhum dos lados. Se eles esperam que eu faça o meu trabalho da forma correta, já esperam algumas críticas negativas. Todos têm se mostrado bem profissionais.

Leonardo Carnelos: Seu estilo é mais imparcial e menos impressionista. E aqui destaco sua habilidade em aprofundar as discussões sem dar spoilers. Você escreve o tipo de crítica que gostava de consumir? Quem são os críticos em que você se espelha e inspira?

Marcelo Seabra: Eu cresci assinando a Revista SET. Devia ser o único moleque de 13 anos assinante. Nunca gostei que me entregassem o que eu considero que estragaria o filme. Esse conceito pode variar entre as pessoas. Tenho um amigo que nem assiste a trailers. Eu escrevo a crítica que eu gostaria de ler.

Lia muito a Isabela Boscov, Roberto Sadovski, Rubens Ewald, o pessoal da SET. Na faculdade, conheci o Pablo Villaça e comecei a seguir. Às vezes, achava que alguma informação era spoiler, mesmo que de leve. Por isso, sempre tive essa preocupação em mente. Não quero estragar a experiência de ninguém.

Às vezes, o dedo coça. Entregar uma informação importante seria necessário para fazer um comentário que está pulando na minha cabeça. Prefiro não fazer o tal comentário a dar spoiler.

Acho críticas que só ficam na história do filme vazias. Meu papel não é narrar a história.

Maristela Bretas: Você tambem é músico nas horas vagas. O cinema inspirou a música ou foi o contrário?

Marcelo Seabra: São dois interesses que sempre correram em paralelo. Acaba que a paixão por Cinema fica mais evidente e sou mais lembrado por isso. Mas, em casa, sempre tive acesso e incentivo a ambos, pelos meus pais e irmãos, que são bem mais velhos.

Nunca aprendi a tocar nada, talvez por ter me dedicado mais ao Cinema e à crítica, mas gosto muito de cantar.

E o Programa do Pipoqueiro é uma tentativa de extravasar essa outra paixão.

Lucas Paio: Aí ó, entrevistado bão é esse que já dá a deixa para a próxima pergunta! Conte-nos mais sobre esse seu recém-lançado podcast. Depois de participar de tantas edições do finado e saudoso Podcast Cinema em Cena, como está sendo ter o seu próprio programa?

Marcelo Seabra: Eu sempre participei como convidado do podcast do Cinema em Cena, onde trabalhei anos antes. Depois, entrei para a equipe fixa, mas só dando opiniões e palpites. Hoje, vejo que é bem trabalhoso cuidar do programa todo, desde a ideia para um tema, passando pela elaboração de um roteiro, até a mixagem fina do áudio. E, apesar do trabalho, é bem prazeroso. Ouvir alguém depois comentar que gostou, que descobriu uma curiosidade ou conheceu uma música bacana paga qualquer esforço.

Desde a faculdade, queria fazer algo assim. Mas imaginava que seria uma trabalheira danada e eu teria que arrumar alguém pra parte técnica. O fato do meu irmão ter o programa dele, o Rock Master, me mostrou que não era assim tão difícil. Mas ele grava num estúdio profissional, o Gênesis. Eu faço tudo em casa, no computador. Que nem é nenhuma maravilha… hehehe

Lucas Paio: Pois é, é uma trabalheira mesmo. Eu cuidava do também finado e saudoso Shot, podcast do Cinema de Buteco, e eram horas e mais horas por semana pra fazer um programinha de meia hora…

Carvalho de Mendonça: Já disse uma vez aqui e repito: o seu projeto e o projeto da Priscila Armani são inspirações para mim. Sou entusiasta da mídia podcast e tenho procrastinado a minha ideia por medo da trabalheira.

Marcelo Seabra: Pois é… E eu empolgo, já teve programa que passou de uma hora e vinte. Tento manter em uma hora.

Nada que não dê para fazer. Qualquer coisa, estou às ordens.

Acho bacana o formato de podcast de discussão, como no Cinema em Cena, mas sempre quis misturar música nessa fórmula. Daí, nasceu o Programa do Pipoqueiro.

(O safado do Tullio joga lenha na fogueira e some)

Tullio Dias: Você já se deu bem por causa do seu trabalho como escritor? 😉

Marcelo Seabra: Me dar bem… Vindo do Tullio…

Tullio Dias: Quer lenha? Eu venho com o fogo todo. E sumo outra vez.

Marcelo Seabra: No máximo, já ouvi algumas vezes “Você é o Pipoqueiro? Que bacana, já te leio há algum tempo”.

Tullio Dias: Existe uma ideia de que geralmente pessoas que escrevem de cinema estão dentro de um estereótipo. Você e o Márcio Sallem podem ser considerados como os galãs da crítica digital no Brasil.

Como você interpreta essa colocação que cada vez menos cai por terra de que Nerd é um cara feio que nunca se dá bem?

Marcelo Seabra: Primeiramente, Tullio, se isso foi um elogio, obrigado. O meu amigo Piolho costuma brincar que não acha justo ser taxado de nerd e eu fico como cinéfilo, quando são todos nerds, do mesmo jeito. E hoje acabou se tornando cool ser nerd, com Big Bang Theory e tal. Não acho que me encaixo em estereótipos, como deve acontecer com muita gente por aqui. Tenho gostos variados e não costumo me ater a uma coisa, ou outra. E as preferências não são excludentes. Não é porque sou crítico de Cinema que não posso ir a eventos de rock, tomar uma cerveja etc.

Tullio Dias: Sim, você é gatinho. Se eu não tivesse uma queda pela Dani, investiria em você.

Marcelo Seabra: Palhaço… hehehe

Tullio Dias: Mas sorry. Ela chegou primeiro e só aguento uma rejeição por vez. Beijos, Dani.

Carvalho de Mendonça: Essa é para os viciados em listas: consegue elencar as 3 críticas que você mais sentiu orgulho de ter escrito?

Marcelo Seabra: Não me lembro de cabeça das três, mas as que me orgulham são aquelas em que acredito ter passado tudo que percebi de forma a acrescentar algo na experiência do leitor. É comum inserir algo de visão de mundo, de política, referência histórica… A do American Sniper, por exemplo, rendeu, porque levantei a questão da psicopatia do protagonista, algo que fica de fora do filme, mas é muito clara do lado de cá.

Geralmente, as que me orgulham são as de sete ou oito parágrafos…. hehehe

Marcelo Palermo: Passando só pra dizer que eu adoro quando o crítico consegue ter uma visão diferente, e abre uma reflexão que nem passou pela cabeça do diretor, como foi o caso da sua percepção de American Sniper.

Marcelo Seabra: É sempre bom ter esse tipo de insight, xará, fico feliz quando acontece.

Tullio Dias: Mudando de assunto, você segue um roteiro ou uma receita para produzir os seus artigos? Quais são os pontos mais importantes que nunca podem faltar na sua Crítica? O famigerado parágrafo da sinopse é um mal necessário?

Marcelo Seabra: Não tenho roteiro. Vejo o que mais me chamou a atenção e começo por ali. O parágrafo introdutório, ou lead, é bem comum, mas não é uma máxima. Colocar a sinopse também não. Tem filmes sobre os quais eu coloquei uma linha de sinopse e o resto é análise, entregando o mínimo possível. Veja a crítica de mãe!, por exemplo. O melhor que pude pensar foi numa metáfora gastronômica.

Às vezes, aproveito um pouco da sinopse para falar de algo que chama a atenção, como uma atuação, a fotografia…

Carvalho de Mendonça: Um grande filme, geralmente, exibe um casamento saudável entre som e imagem. Marcelo, você se lembra de algum filme que você gostou, mas, por alguma razão, sentiu que aquela trilha não deveria estar ali?

Tullio Dias: Nada vence Ghost – Do outro lado da Vida. Hahahhaha

Marcelo Seabra: Tem filmes em que a trilha te conduz, até te indica o que sentir, o que é bem canalha. Não lembro de nenhum caso específico, mas um recente é a de Tempestade. E, nesse caso, combina, porque o filme é horroroso e a trilha é tão ruim quanto.

Uma excelente, que me vem à cabeça, é a de A Chegada, que se mistura à imagem de tal forma que fica até difícil dissociá-las. Isso é fantástico!

A trilha de O Filme da Minha Vida é bem superior ao filme.

Em Transformers, a trilha, somada aos defeitos de som, tornam o filme ainda mais irritante.

Lucas Paio: Eu adoro a trilha de As Tartarugas Ninja II – O Segredo de Ooze. Tenho o CD até hoje.

Marcelo Seabra: Vanilla Ice? Meu Deus… Go ninja go… Uma das minhas primeiras lembranças decentes de ter ido ao cinema.

Lucas Paio: Minha primeira lembrança de ir ao cinema foi Lua de Cristal, que também tem um tema memorável. Mas divago.

Marcelo Seabra: Acho que, geralmente, quando a trilha é ruim, combina com o filme. Não me lembro de nenhuma que tenha trabalhado contra.

A trilha de Vida atrapalha alguns momentos de tensão. O filme não é nenhuma beleza, mas a trilha trabalha contra. Lembrei um exemplo.

Marcelo Palermo: Você lembra de algum filme que tenha feito você repensar sua vida?

Marcelo Seabra: Puxa… profundo…

Marcelo Palermo: Peguei pesado.

Lucas Paio: “Acordei cedo pra esta cabine e perdi 2 horas de sono e da minha vida, onde é que fui parar?”

Marcelo Seabra: Repensar a minha vida… Acho que não, é mais comum me dar uma luz sobre alguma coisa.

O mais comum é fazer pensar sobre assuntos nos quais eu não costumo pensar. Como A Chegada, que me fez pensar no conceito de tempo. Outro bom nesse sentido é Matadouro 5, tanto o livro quanto o filme.

Lucas Paio: Marcelo, tenho uma “última” pergunta que pode dar pano pra manga e gerar ainda mais discussões, mas vamos lá. No Pipoqueiro você não usa nenhum tipo de cotação (1 a 5 estrelas, nota de 1 a 10, 1 a 5 caipirinhas etc). Por que não temos de 1 a 5 pipocas nos seus textos?

Marcelo Seabra: Já me questionaram isso, “que facilitaria a vida dos leitores” e coisa e tal. Acho que isso é simplificar demais o filme, reduzir arte a uma cotação. Entendo que vários veículos vejam como necessário, ou diferencial. Sei que já teve gente tentando tirar e os leitores reclamaram, é um caminho sem volta. Prefiro postar textos não muito longos, que a pessoa anime ler, do que entregar na cara uma nota e a pessoa nem se animar a ler o texto. Acaba colocando filmes completamente diferentes em pé de igualdade. Ao menos, aos olhos do leitor. Surgem aquelas reclamações, do tipo “esse filme é muito melhor do que aquele, como você deu três estrelas pros dois?”.

Lucas Paio: Sim, comparar alhos com bugalhos é sempre bem complicado.

Mas estou vendo aqui que alguns títulos de críticas já dão um “spoiler” sobre a sua opinião, tipo essa aqui: “Uma Razão para Recomeçar já cansa no título“, hehe.

Marcelo Seabra: Hehehe

Esse, especificamente, me cansou bem. Normalmente, quando o título entrega opinião, é porque é algo gritante. O filme está em um extremo.

E as distribuidoras ficam tentam acertar um título que seja chamativo e acabam criando uma bobagem genérica como essa.

O que nos leva a outra questão: títulos…

Lucas Paio: Exato! O que será certamente um papo longo para outro Mesa de Bar 😀

Marcelo Seabra: Isso!

Lucas Paio: Marcelo e todo mundo que participou, brigadão e grande abraço!

Carvalho de Mendonça: Abraços, galera!

Marcelo Seabra: Valeu, pessoal!

Redação do Buteco

Cinema por quem entende mais de mesa de bar.