O que Capitão América: Guerra Civil ensina para o jornalismo

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PODE PARECER INADEQUADA – no mínimo, inusitada – a afirmação de que um blockbuster, estrelado por super-heróis, obviamente fantasioso, possua algo a ensinar para uma ocupação séria e socialmente fundamental como a do jornalismo – e é sintomático a respeito da atualidade deste deparar-se com o fato de que ela faz bastante sentido.

Ainda que trate-se de uma trama inteiramente alheia à nossa realidade, o conflito que justifica e move Capitão América: Guerra Civil não está muito distante estruturalmente de um aspecto marcante em nossa realidade atual: a oposição ideológica e seus desencadeamentos. Vivenciamos um contexto de bipolarização política geradora de envolvimento intenso por parte tanto das autoridades quanto da população de maneira geral, desde o debate de ideias propriamente dito até situações mais extremas, reveladoras de um preocupante sentimento de ódio disseminado em considerável parcela dos cidadãos.

O confronto que leva aos limites físicos Steve Rogers, o Capitão América, e Tony Stark, o Homem de Ferro, representa justamente o ápice, a extremidade de um impasse moral-ideológico cujas duas faces divergentes são encabeçadas pelas duas figuras heroicas: tendo em vista os eventos de caráter internacional nos quais o grupo d’Os Vingadores se envolveu nos tempos recentes, com finalidades protecionistas, e suas consequências, teria chegado a hora de cogitar a possibilidade de tratar as entidades super-poderosas como qualquer outra instituição de ação em benefício global, responsabilizando-as pelos danos e sequelas que seus conflitos eventualmente causarem ao “mundo civil”?

Evidentemente, trata-se de uma questão que transcende o “universo super-heroico” na narrativa, uma vez englobando uma discussão de interesse civil; e é justamente isto o que a potencializa para servir como alegoria social, enquadrando-se numa reflexão bastante específica sobre nossa atualidade – bem como em muitas outras.

Embora sempre partindo de uma análise realista na qual conclui-se que, definitivamente, não há mais íntegra neutralidade, permanece como fundamental ao jornalismo a adoção de uma postura: todo contexto dotado de notável presença de oposição ideológica e envolvimento popular na mesma requer da imprensa a busca constante pela abordagem mais ponderada e equilibrada possível; do contrário, este órgão influenciador social inflamará perigosamente a atmosfera de ódio potencialmente instaurada.

Partindo da perspectiva de duelo ideológico construída em Capitão América: Guerra Civil e adequada à realidade da obra, Anthony e Joe Russo realizam algo que funciona, afinal, de maneira inspiradamente jornalística, oferecendo especialmente à mídia brasileira uma orientação inestimável – e de exemplos assustadoramente cada vez mais raros. Observe como, mesmo contando com o nome de um dos dois elos opositórios em seu título, o longa-metragem jamais impõe uma preferência a este por meio do silenciamento de seu oponente: ambos os heróis têm o respaldo, a verbalização e o tempo necessário para exporem os seus pontos de vista contundentemente, oferecendo ao público o acesso absoluto às duas argumentações de maneira equilibrada – nem mesmo a construção da linguagem visual, recurso natural do Cinema e descaradamente utilizado sobretudo pelo jornalismo impresso, atribui caráter antagônico ou depreciativo a alguma das figuras – e ponderada, assim nos conduzindo a uma reflexão mais profunda – leia-se: muito além de um Fla x Flu – a respeito da questão levantada.

Uma abordagem jornalística de fato, porém, não parte do princípio da isenção completa, tendo como uma de suas obrigações sociais a problematização, o levantamento de dúvidas e a realização de indagações a respeito daquilo que torna-se um dogma dotado de ambiguidade em sua época; neste sentido, Guerra Civil volta a dialogar com nossa perspectiva ao problematizar e questionar dois fenômenos sociais de nosso contexto: a figura do herói e a fronteira entre a justiça e a vingança.

Diante deste mesmo cenário de revolta sociopolítica, mesmo as figuras mais duvidosas ganharam ares de heroísmo ao darem andamento público – jurídico ou parlamentar – aos anseios de parte da população; paralelamente e com motivações bastante semelhantes, a “ânsia de justiçamento” popularizou-se entre a sociedade, ainda que suas definições de justiça sejam no mínimo problemáticas. Cabe ao jornalismo, então, investigar – mesmo que não no sentido mais prático e comum do termo -, indagar obstinadamente e destrinchar objetivamente estas constatações, fenômenos sociais de nosso tempo – quem a fez, no entanto, partindo de outros conceitos mas com discussões semelhantes, foi um filme baseado em quadrinhos da Marvel. Está mais do que na hora de repensarmos firmemente os caminhos que estamos traçando para o nosso jornalismo.

Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.