Precisamos falar sobre as mulheres no cinema

Kathryn Bigelow mulheres no cinema
10% da composição de executivos no Vale Silício e 20% de representantes no Congresso nos EUA são mulheres. Absurdo, né? Mas, por mais machista que os mundos da tecnologia e política sejam, o do cinema consegue ser pior.

– Em 2013 e 2014, 1,9% dos 100 filmes mais lucrativos foram dirigidos por mulheres;
– Em 2014, apenas 3 filmes dos 6 grandes estúdios de Hollywood foram dirigidos por mulheres. No mesmo ano, 95% dos cinegrafistas, 89% dos roteiristas, 82% dos editores, 81% dos montadores e 77% dos produtores eram homens;
– Apenas duas mulheres receberam orçamento acima de US$ 100 milhões para dirigir filmes live-actions até hoje (Kathryn Bigelow com K-19 – cujo protagonista é um homem – e Patty Jenkins com Mulher Maravilha – que estreia em 2017);
– 16% dos episódios das 277 séries de TV existentes foram dirigidos por mulheres;
– De 2007 a 2014, mulheres tiveram 30% das personagens com fala ou nome nos 100 filmes mais lucrativos;

Esses números foram retirados desta essencial investigação do NY Times (que precisa ser traduzida para o português, mas eu, infelizmente, não tenho a competência de fazê-lo).

Embora os números choquem, os depoimentos das corajosas mulheres, que conseguem sobreviver numa indústria que as sabota, são ainda mais importantes para perceber que a meritocracia nesse ramo só funciona por gênero e cor.

Com algumas exceções, temos um século de uma indústria de homens brancos fazendo filmes sobre homens brancos para um público de homens brancos. Parece não haver gente percebendo que público é cada vez mais diverso, mas a representatividade na frente e por trás das câmeras só retrocede.

Retrocesso. Os números de mulheres nas indústrias da tecnologia e política ainda são alarmantes, mas estão em crescimento. De maneira subjetiva, a matéria do NY Times mostra que as coisas têm ficado piores em Hollywood.

Também tenho a impressão que na minha infância eu assistia mais filmes com mulheres fortes do que assisto hoje. Pode ser pelo fato de que os filmes que me marcaram foram justamente os das mulheres fortes e o restante sumiu da memória. Já a memória recente guarda um pouco de tudo.

Pode ser. Mas resolvi pesquisar outros números.

Dos últimos 10 vencedores do Oscar de Melhor Filme, NENHUM tem uma mulher como protagonista. NENHUM teve nem ao menos uma atriz indicada ao prêmio de atuação principal, porque todos eles colocaram todas mulheres em funções coadjuvantes. Vale dizer que apenas um foi dirigido por uma mulher (Guerra ao Terror), que talvez, e não por coincidência, seja o de tema mais masculino.

A década anterior foi um pouco mais representativa, mas ainda não igualitária. Dois deles têm uma mulher como protagonista (Menina de Ouro e Chicago). Seis contaram com personagens femininas significativas o suficiente para serem indicados na principal categoria de atuação: Renée Zellweger (Chicago), Annette Bening, (Beleza Americana), Kate Winslet (Titanic), Kristin Scott Thomas (O Paciente Inglês), Gwyneth Paltrow (Shakespeare Apaixonado) e Hilary Swank (Menina de Ouro).

Sabe quantos filmes dirigidos por mulheres encontrei no ranking de 250 melhores do IMDB? Isso mesmo: NENHUM! E olhando as 63 fotos das mulheres nesta matéria do NY Times, percebi que não conhecia o nome de metade delas.

Qual a importância disso?

Acredito que a classe média ocidental tem boa parte seu imaginário construído por Hollywood, como eu tive. Os filmes ajudaram, e ainda ajudam, a ditar meus valores morais e sonhos. Minha principal socialização na adolescência foi com personagens de Hollywood.

Claro que, para mim, o que eles pensam, o que fazem e suas ambições são mais importantes do que seus gêneros. Não foi dramático para mim ter homens como figura de identificação. Mas quão mais diverso, justo, igualitário seria meu pensamento se meu imaginário tivesse mais mulheres? Vilãs, boazinhas, astronautas, donas de casa, super-heroínas, losers, humanas.

Quando eu era criança, eu queria ganhar um Oscar (ok, eu usei “quando era criança” só para evitar julgamentos). Mas eu sabia que eu não tinha muitas chances. Afinal, só atriz ganha Oscar e eu não queria ser atriz.

Que falta me fez não ter referências?

Não tenho essa resposta. Nem sei com certeza se aumentar o número de mulheres produzindo vai efetivamente mudar a representação. Para mim, não é muito significativo entregar a direção e papel de protagonista de um filme para mulheres se ainda assim teremos um filme machista. Mas para cada Crepúsculo e 50 Tons de Cinza por aí, temos uma dezena de outros filmes machistas dirigidos e protagonizados por homens.

Mulheres são violentadas de todas as formas, sentimos medo, ganhamos menos do que homens para fazer as mesmas funções, ainda sofremos o estigma de que a busca essencial da mulher é a maternidade.

O meu repertório de referências não mostra muitas possibilidades de mudança. E vejo que no sistema elitista e machista de produção atual, as mulheres que querem trabalhar com audiovisual e mudar esse sistema sabem que as chances de sucesso parecem muito distantes.

Estou convencida de que precisamos, com urgência, conversar sobre as mulheres no cinema.

Larissa Padron

Larissa Padron é jornalista pela UFMG e apaixonada por cinema desde pequenininha (o que ela ainda é). Nas horas vagas dança sem música na cozinha, treina o discurso para o Oscar com o shampoo e coloca uns vídeo no Youtube.