Ser mulher em um mundo de Harveys Weinsteins | Cinema de Buteco
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Ser mulher em um mundo de Harveys Weinsteins

Ser mulher em um mundo de Harvey Weinsteins

Ser mulher é um desafio. Quem é sabe porque já sofreu na pele o preconceito, o machismo, o abuso físico ou emocional. Sofremos isso desde o dia em que nascemos, quando somos moldadas a ter um comportamento “feminino”, a usar roupas “femininas”, a se comportar como uma “lady”. Não se encaixar nesse padrão é sinal de muita luta pela frente; luta por uma aceitação.

O escândalo que repercutiu globalmente na mídia sobre Harvey Weinstein (65) é prova de que ainda temos um longo caminho até chegar à igualdade. Por quê? A resposta é simples: vivemos em um mundo machista que dá carta branca a homens poderosos. Sim, é claro que alguns deles ganham a justiça que merecem, mas, ao mesmo tempo, muitos saem ilesos.

Segundo o NY Times, Weinstein – produtor de filmes vencedores do Oscar como Shakespeare Apaixonado, O Lado Bom da Vida, O Artista e Django Livre – chegou a fazer acordos de $ 80 mil a $ 150 mil com as mulheres que assediou e ficou por isso; acabou aí, elas retiraram as queixas. Não estou aqui para julgar essas mulheres, pois, graças a Deus, nunca sofri assédio ou abuso de um homem mais velho e influente. Só consigo imaginar o quão perturbador isso deva ser. Não falo apenas da vergonha, impotência e de como essas vítimas devem ter se sentido um lixo. Elas foram vítimas de uma pessoa que, para o mundo, é um produtor que já ganhou vários prêmios renomados do cinema, que trabalha com as principais estrelas do showbiz e que é extremamente respeitado. Agora me diz: é fácil processar alguém assim, sem ter medo do que ele possa fazer?

Eu já sabia dos rumores sobre Weinstein, então não fiquei nem um pouco surpresa. Antes dessa matéria, Ashley Judd já havia aberto a boca pra denunciá-lo implicitamente em 2015, sem dar nome aos bois (quem conhece a história dele sabe muito bem que a atriz se referiu ao “mogul”). Só que detalhe: o produtor está na indústria há praticamente três décadas. São 30 anos e sabe-se lá quantas mulheres ele assediou e abusou nesse tempo todo. Eu sei que é muito tempo e que nada aconteceu com ele. Sei que o NY Times conseguiu fontes para falar sobre o comportamento deplorável de Weinstein, mas que o número total de vítimas em silêncio deve ser gigantesco.

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E as mulheres que cederam aos “encantos” e promessas de fama, prêmios e uma carreira sólida em Hollywood? Não sei as motivações delas e o porquê de terem feito isso. Não quero saber e não vou julgá-las. No entanto, faço uma reflexão: quando nós, mulheres, aceitamos tal imposição, estamos cuspindo nas conquistas que tivemos nos últimos séculos; estamos permitindo que o machismo siga forte no mundo; estamos aumentando cada vez mais a distância da igualdade entre nós e os homens. Nossas atitudes impactam nas vidas das pessoas que estão próximas de nós e é um efeito dominó, um ciclo que não acaba nunca.

Para mudar a sociedade leva-se tempo e gerações mais gerações de mulheres. Por mais que eu viva num mundo bem melhor do que aquele em que minha mãe e avó cresceram, ainda vejo mulheres sofrendo preconceito e assédio no ambiente de trabalho, sofrendo abuso físico e emocional de homens machistas e abaixando a cabeça porque “a sociedade é assim, vamos engolir sapo mesmo”. Virou algo normal, é o nosso cotidiano. Isso tudo está enraizado e já condiciona cada um de nós no momento em que nascemos, dentro de casa, na escola, no trabalho, nos relacionamentos e por aí vai. É foda.

Os comentários são automáticos: “Bate na bola que nem um homem sô!”, “Nossa, que atitude de mulherzinha”, “Mulher de verdade é delicada, não fala palavrão”, “Tira já esse short porque está curto demais”, “Que piranha, já ficou com um tanto de cara”, “Piriguete não sente frio”, “O cara passou a mão nela porque ela pediu, estava com roupa curta e provocante”, “Filha minha vai usar roupa rosa e vestido e brincar de boneca”, “Mulher minha não paga nada, eu que pago”, “Dorme comigo que eu te dou o papel principal na novela”. São frases desse tipo que mostram o quão machista nossa sociedade é e como ela nos amedronta e desencoraja a tomar uma atitude neste mundo de homens. Com o passar dos anos, muitos de nós nos acostumamos e passamos a fazer o mesmo com filhos, sobrinhos, netos e amigos; inconscientemente.

É difícil ser mulher. Na verdade, é uma bosta ser mulher e não ter a coragem de ser quem realmente somos ou denunciar um homem porque sentimos vergonha e medo do que possa acontecer. Ou porque ele é tão rico e poderoso que pensamos “Qual a chance de ter justiça com um cara desses, num mundo machista e movido a dinheiro?”.

Após publicação da matéria, Weinstein enviou um depoimento ao jornal pedindo desculpas por seu comportamento e que estava tentando mudar. Tadinho, ele sente por ter causado dor a tantas pessoas nas últimas décadas. Pobre coitado! Ele ainda disse que está organizando uma fundação de $ 5 milhões na Universidade do Sul da Califórnia, a qual dará bolsas de estudo a diretoras mulheres. Uau, que homem bom e feminista!

Deixa eu te dizer uma coisa Harvey Weinstein ou qualquer hipócrita que humilha as mulheres nos bastidores e paga de santo no palco: não há dinheiro ou palavras que sejam suficientes para tanto mal causado. O estrago já foi feito nas vidas das vítimas – as quais se sentem culpadas pelo que aconteceu – das pessoas próximas a elas e na sociedade como um todo.

Hollywood vai seguir em frente. Weinstein vai continuar trabalhando e assediando, mesmo que se afastando da mídia por um tempo. As mulheres vítimas vão continuar sendo tachadas de piranhas, loucas e mentirosas e fazendo acordos para ficarem caladas. É a triste realidade: as pessoas esquecem e a justiça se cala porque ser um homem rico te dá privilégios, que o digam Mel Gibson, Sean Penn, Roman Polanski, Woody Allen, Casey Affleck e Bill Crosby.

A única coisa que podemos fazer é seguir lutando pela igualdade e sermos fortes, juntas, para não deixarmos outros Harveys Weinsteins contaminarem o mundo com o seu desrespeito e ignorância. Uma hora eles vão aprender que somos todos seres humanos e iguais.

 

 

Daniela Pacheco

Fascinada por cinema desde pequena. Ídolos? River Phoenix, Audrey Hepburn, Wagner Moura e Marion Cotillard.