Um olhar distante para o Oscar 2017 | Cinema de Buteco
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Um olhar distante para o Oscar 2017

Vivemos numa era de polarizações tão exageradas que tornou-se possível fragmentar em dois grupos até mesmo a comunidade cinéfila: aqueles que, em sua paixão pela sétima Arte, adoram viver intensamente o clima do Oscar, buscando antecipadamente as produções cotadas, experimentando os títulos interessantes que a premiação nos permite conhecer, iniciando as apostas meses antes, torcendo por seus indicados prediletos etc.; e, por outro lado, há os colegas desta paixão que, extremamente críticos à configuração da premiação ou não, optam pessoalmente por não atribuírem tanta – ou nenhuma – relevância a esta.

É necessário, no entanto, esclarecer: não há antagonismo, oposição absoluta, entre estes dois grupos – é possível e recomendável ser crítico à Academia, seu conservadorismo nas indicações e todas as outras questões que já conhecemos bem e, ainda assim, aguardar e repercutir significativamente a cerimônia por ela realizada – fazendo-o no grau de intensidade que preferir. Embora o hype possa parecer prematuro, o primeiro grupo citado certamente se sentirá representado por esta publicação – sem perder a criticidade.

Preparem suas canetas e blocos de notas, pois mais um ciclo de Oscar está começando, e reunimos antecipadamente alguns dos títulos que poderão estar encabeçando as listas de indicados em alguns meses – ou representarem um grande equívoco de nossa parte. De qualquer forma, confira:

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Silence

Exceção feita a Ilha do Medo, todos os filmes de ficção dirigidos por Martin Scorsese neste milênio foram indicados à principal categoria do Oscar, e um deles – Os Infiltrados – faturou a estatueta. Mais: sempre figuraram entre os apontados como favoritos ao prêmio e, ainda, foram agraciados com mais algumas indicações na conta. Basta o nome do diretor ítalo-americano estar no pôster para fazer uma produção tornar-se cotada para o Oscar – sempre de maneira merecida, diga-se.

Silence ganha ainda mais pontos por tratar-se de uma produção de época com notável peso histórico – os votantes da Academia as adoram – e ter exigido um grande esforço de realização – Scorsese, junto do roteirista Jay Cocks, trabalhava no roteiro do projeto desde a década de 1990, e sua ideia inicial era tê-lo filmado no início dos anos 2000, mas dificuldades orçamentárias adiaram as filmagens em mais de uma década. De quebra, pode render ao ator Liam Neeson uma segunda indicação ao Oscar, mais de 20 anos após a primeira, conquistada por seu trabalho em A Lista de Schindler.

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The Birth of a Nation

Sensação impressionante do último Sundance Festival, a ponto de tornar-se a aquisição mais cara realizada por um estúdio na história do festival – foram US$17,5 milhões -, The Birth of a Nation ganha ainda mais respaldo por este investimento ter sido realizado pela Fox Searchlight, vencedora de dois dos últimos três Oscars de melhor filme – Spotlight e 12 Anos de Escravidão.

Não devemos nos esquecer, ainda de que existe um fator com o qual a Academia se importa notavelmente: a preservação de sua imagem. Portanto, considerando a – legítima – campanha antirracismo que ganhou proporções maiores do que a instituição gostaria em sua última premiação, o momento pode ser perfeito para premiar um filme que retrata a luta anti-escravidão e, assim, “amenizar as coisas”.

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The Founder

Os votantes da Academia compõem um perfil que pode muito bem ser novamente encantado por mais uma história de um americano comum ascendendo na vida graças à própria força de vontade – “marca de seu povo” – e ao próspero cenário capitalista estadunidense, terra “abundante de oportunidades”. Embora o diretor John Lee Hancock não desperte tanta confiança – seu último projeto, Walt nos Bastidores de Mary Poppins, passou de um dos favoritos a praticamente ignorado no Oscar 2014 -, o nome de Michael Keaton como protagonista – o ator esteve nos últimos dois grandes consagrados pelo prêmio – pode servir como o impulso adicional que esta história precisa para engrenar na corrida.

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Ave, César!

O problema é que alguns fatores fazem o vento soprar contra a candidatura de Hail, Caesar! ao Oscar 2017: seu lançamento, ocorrido em fevereiro nos EUA, se deu cedo demais para mantê-lo com fôlego até o final do ano; e o caráter tragicômico de sua abordagem torna-o menos digerível para o perfil eleitor da premiação.

Contudo, o excepcional – e merecido – prestígio que os diretores, produtores, montadores e roteiristas Joel e Ethan Coen cultivam junto à Academia – os irmãos possuem 14 indicações divididas, com quatro estatuetas para cada – pode ser suficiente para que, munidos apenas com um texto cultuado e um belo elenco em mãos, a dupla carimbe sua vaga nesta disputa.

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Nocturnal Animals

Este projeto parece se enquadrar perfeitamente na lacuna do “drama sem grandiosidades, mas deveras cultuado e com grande(s) atuação(ões)” que a Academia vêm buscando preencher nas principais listas de indicados em suas últimas cerimônias de premiação.

Uma vez conhecida esta informação, vale ficar de olho em Amy Adams: além de normalmente entregar ótimas interpretações que valem-na nomeações para o prêmio, a atriz costuma “carregar consigo seus pares” às noites de gala – que o digam Christian Bale, Philip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix, lembrados mais de uma vez pela Academia nas vezes em que dividiram a tela com a ruiva -, o que pode representar a grande chance de Jake Gyllenhaal.

Estes títulos formam o panorama inicial de possíveis candidatos às principais estatuetas do Oscar 2017, mas não se precipite: daqui até a última volta desta corrida, muito mudará – e esperamos poder conduzi-los com prudência até o pódio.

Leonardo Lopes

Estudante de Jornalismo, cinéfilo, marxista e um aspirante à admiração da Sociologia. Ou nada disso.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.