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Warren Beatty, o produtor e o desrespeito nosso de cada dia

Enquanto muita gente comenta brincando sobre o que aconteceu no Oscar na noite de domingo passado, uma coisa não recebeu a devida atenção.

Vivemos numa época em que estamos todos divididos. Lutamos pelos nossos direitos de combater machismo, LGBTfobia, racismo, desigualdade social etc com unhas e dentes sempre defendendo apenas o nosso lado.

O que aconteceu no Oscar foi marcante porque um filme sobre um negro gay venceu na categoria principal. A sua equipe de produção, formada basicamente por negros, tomou o palco dos brancos que foram equivocadamente nomeados vencedores por Faye Dunaway e Warren Beatty, dupla que viveu o casal de assaltantes Bonnie & Clyde. Involuntariamente, foi uma bela mensagem de igualdade e força, mas o que chamou a atenção é um detalhe que poucos veículos falaram.

O produtor Jordan Horowitz (La La Land) recebeu elogios por sua atitude profissional e de assumir o controle da galhofa histórica da produção, mas fez isso cometendo uma tremenda grosseria com o veterano Beatty, de 79 anos. O produtor arrancou o envelope da mão do ator (que estava aguardando que o diretor Barry Jenkins subisse ao palco para que pudesse entregar o envelope) e anunciou ele mesmo que Moonlight era o grande vencedor da noite, para a surpresa do público que assistia ao evento no teatro e ao redor do mundo. Entendo o lado dele ter perdido o prêmio que reconhecia o seu trabalho e estar num momento embaraçoso, mas justifica mesmo deixar o nervosismo agir por cima do que é correto?

Beatty virou piada. Por conta da sua idade, críticos comentaram que ele estava com dificuldade em ler o nome no envelope. Outros disseram que Hollywood tinha que parar de colocar velhotes para apresentar prêmios. Ou seja, é mais fácil culpar um idoso do que imaginar que algo muito maior aconteceu. O constrangimento no rosto de Beatty era visível e foi a verdadeira injustiça da noite, já que o cara estava assumindo o erro de outra pessoa, provavelmente com metade da sua idade.

O que acontece é que as pessoas, nós todos em geral, somos egoístas. Lutamos por nosso direito de expressar quem somos ou queremos ser. Pela liberdade de não ter medo de nossos caminhos e escolhas. Negro, branco, hétero, gay, homem ou mulher, a única certeza que todos temos é que nosso corpo irá envelhecer com o passar dos anos, se a morte não bater em nossa porta antes.

Foram poucas as manifestações contra a atitude do produtor em tomar o envelope de Beatty, o que revela a grande falta de empatia pelos idosos.A nossa geração vai esperar ficar velha para lutar pelo respeito com os idosos, pois no momento isso não é uma preocupação. Isso reduz cada um de nós e nossas respectivas ideias de mundo melhor. Sem perceber o quanto foi deselegante e grosseira a ação do produtor e injustos os comentários na internet, nós demonstramos a nossa miopia para nosso próprio futuro.

Lutar por um mundo melhor e mais respeitoso não é olhar apenas para o próprio umbigo. É saber que a tendência natural da coisa é ficarmos velhos e que eles sofrem preconceitos diários de TODOS. O que aconteceu ontem foi uma vitória para negros e gays, mas uma demonstração da derrota social que nossa geração sofreu. Zelar pelos idosos é a única luta em que todos nós somos iguais e não estamos nem aí para isso no momento porque não é a nossa vez. Além disso, parece que somos incapazes de compreender que podemos lutar várias lutas ao mesmo tempo sem que isso determine que uma anule a outra. Todos merecemos ser respeitados.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.