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Wasp Network é uma grande mentira?

Petição pede que lançamento seja retirado da Netflix por suposta infidelidade histórica.

NO DIA 19 DE JUNHO DE 2020, a Netflix disponibilizou Wasp Network: Rede de Espiões em seu catálogo mundial. Dirigido por Olivier Assayas (Acima das Nuvens e Personal Shopper) e estrelado por Wagner Moura e Penélope Cruz, o filme reúne grande potencial de repercussão. Não à toa, esteve entre as principais atrações da última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Bastante divulgado pelo serviço de streaming, o longa-metragem ecoou com o barulho previsto – mas não pelos motivos esperados.

Uma sexta-feira mais tarde, em 26 de Junho, a revista Veja deu a notícia de que um abaixo-assinado, redigido por cubanos exilados em Miami, nos Estados Unidos, pedia que a produção fosse retirada do catálogo norte-americano da Netflix. De acordo com a petição, até então assinada por cerca de 15.000 pessoas, o filme “defende espiões de Castro, assassinos condenados nos Estados Unidos”. A briga dos cubanos, ofendidos pela retratação ficcional de um episódio histórico, foi comprada por outras figuras engajadas no debate político. Houve até quem sugerisse se tratar de um instrumento progressista da Netflix na “guerra cultural”, caso do comentarista do programa Morning Show, Adrilles Jorge – uma estupidez que não merece nem ser refutada. Certa ou errada, a acusação serviu para colocar o título no centro de muitas pautas e discussões. De fato, Wasp Network fala de espiões cubanos e episódios reais. A reação à sua versão da história, no entanto, não tem (quase) nada a ver com isso.

Precedentes

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Para compreender um pouco melhor a indignação que esta obra artística desperta, é preciso resgatar alguns casos anteriores. Há dois anos, a mesma Netflix lançava O Mecanismo, série nacional assinada por José Padilha (Tropa de Elite). A trama, que percorre episódios da Operação Lava-Jato, colocou-se no fogo cruzado da polarização política brasileira ao defender, notadamente, o ex-juiz Sérgio Moro, a condenação do ex-presidente Lula, e o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. O lançamento gerou movimentos de boicote e uma hashtag (#CancelaNetflix) contra a plataforma que a produziu. Além de políticos (incluindo a ex-presidente impedida), figuras do próprio meio do entretenimento, a exemplo do crítico Pablo Villaça, diretor do Cinema em Cena, aderiram à campanha. O roteiro da produção alterou fatos, como, no mais célebre exemplo, atribuir a frase “Estancar a sangria”, de autoria do senador Romero Jucá, ao personagem de Lula. Tal qual Wasp Network, a obra se baseia em um livro (“Lava Jato: o Juiz Sérgio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil”, de Vladimir Netto) e é mais fiel à visão ali inscrita do que, necessariamente, à verdade.

Em 2019, as páginas recentes da política brasileira ganharam outra narrativa: “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa. Mais uma vez, a obra assume um posicionamento e narra os episódios ocorridos a partir dessa perspectiva. No outro lado do espectro, o documentário trata o impeachment de Rousseff por golpe e responsabiliza os seus articuladores pela decadência moral do país. Indicada ao Oscar e repercutindo internacionalmente, a produção também foi alvo de campanhas contrárias. A diretora chegou a ser atacada pela Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência), por meio do Twitter oficial do órgão. A obra também alterou fatos, como uma imagem de arquivo da Ditadura Militar, da qual armas foram apagadas, assim como entorpeceu observações sobre a situação brasileira. Eu mesmo, neste Cinema de Buteco, classifiquei o documentário como uma versão “conspiratória” e “torpe” da realidade.

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Os exemplos não param por aí. Há dezenas de outras obras que, pelas mais diversas razões, estiveram na mira de campanhas de boicote ou tentativas de censura. Nos casos mais recentes, nota-se que elas partem de quem se opõe ideologicamente às visões apresentadas. As tentações, geralmente, não passam de mais divulgação para as obras, que capitalizam com a polêmica. E qual é o problema, então?

A falta de educação midiática

É esse. Casos como o abaixo-assinado, que tenta apagar Wasp Network do alcance da audiência, são sintomáticos de uma carência da população. Algo que afeta, também e diretamente, a indústria do entretenimento.

Durante as eleições de 2018, muito se falou sobre a “educação midiática”. Sua ausência foi notada quando as pessoas recebiam conteúdos pelo WhatsApp e os admitiam como verdade, sem qualquer prova disso. A mesma coisa acontece, há bem mais tempo, quando falamos de cinema (ou TV). Quantos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, você já tomou como registros factíveis do conflito, simplesmente por vê-lo encenado na tela? 

Tomar filmes como verdades absolutas é se esquecer, na prática, o que eles são. Uma narrativa audiovisual não precisa assinar compromisso com os fatos. Entre a “história real” dos créditos iniciais, e aquilo a que assistimos, existe a visão de um estúdio, produtores, diretores, roteiristas, e até mesmo influências da origem geográfica da obra. Portanto, não é, necessariamente (raras vezes, inclusive), por razões políticas. Se for melhor para a trama, uma personagem inexistente pode ser criada, ou uma morte importante pode ser completamente alterada. Lembra-se de Era uma vez em… Hollywood, de Quentin Tarantino? Em qualquer caso, a experiência do espectador se sobrepõe à veracidade do que é encenado.

Para que isso seja melhor entendido, um esforço educativo deve partir do próprio trabalho de divulgação das produções, bem como da mídia especializada – da qual o Cinema de Buteco faz parte. Tais atores devem se encarregar de deixar as mensagens mais visíveis para o público. Ao assistir a um produto audiovisual inspirado por episódios reais, o espectador deve ter ciência de que se trata de uma visão artística, uma interpretação dramatizada dos eventos ocorridos. Não são os fatos.

Quando esse entendimento estiver claro, a audiência terá melhor dimensão do que significa aquilo a que ela assiste e, consequentemente, reações exacerbadas e campanhas de boicote serão, no mínimo, mais raras. Sempre haverá liberdade para contestar toda e qualquer informação apresentada por uma narrativa, seja com um tweet, um artigo crítico ou, até mesmo, a realização de outra obra sobre o mesmo assunto. Essa liberdade, porém, parte do pressuposto de que todas as narrativas, desde que respeitando limites legais e humanitários, possam existir e alcançar espaços de exibição livremente. Nesse caso, as tentativas de censura, injustificáveis, partem de uma incompreensão corrigível.

Wasp Network é uma grande mentira?

Se você quer a resposta para a pergunta do título, vamos a ela: o longa é classificado como uma ficção, portanto, “sim”. Seria a mesma resposta, caso estivéssemos falando de A Lista de Schindler, Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro ou Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança.