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100 Escovadas Antes de Dormir

 

 
TODO HUMANO COSTUMA TER FANTASIAS SEXUAIS DETURPADAS, enquanto alguns tem a coragem de admitir, a maioria finge que não e resolvem esconder seus pensamentos mais pervertidos. O tema de 100 Escovadas Antes de Dormir é bem polêmico. Baseado em um best-seller italiano, o filme narra principalmente as descobertas sexuais de uma adolescente, mas abre espaço para discussões sobre pedofilia e o impacto que um lar problemático pode ter na cabeça de um jovem adulto. 
 
Tudo bem que o filme dirigido por Luca Guadagnino é uma grande besteira adolescente e com uma psicologia infantil que poderia muito bem aparecer em programas de educação sexual no ensino médio (onde seria alvo de piadas, com certeza). A própria autora do livro declarou que o filme não tem nada a ver com as histórias que ela narrou (e protagonizou na vida real) em seu livro. Todo o polêmico conceito de mostrar a descoberta sexual de uma jovem e transpor para as telas as descrições de transas pouco convencionais, vira apenas um lampejo de provocação nas mãos de Guadagnino. 100 Escovadas Antes de Dormir é um erótico soft, apenas com peitinhos e gemidos sem graça. 
 
Apesar da qualidade duvidosa (e da frustração para aqueles que pretendiam conferir o que não assistiram em Lolitagente, isso é crime, ok? Quer dizer, exceto se a pessoa já tiver mais de 18 anos…) da produção, não apenas no roteiro e na direção incompetente, como também na atuação dos atores, existem pontos para se considerar.  Geraldine Chaplin (sim, ela é filha do Charles Chaplin) dá um show como a avó da personagem principal e consegue até mesmo injetar qualidade na atuação da esforçada María Valverde, intérprete da protagonista. Mas os outros atores são pavorosos. Primo Reggiani é absolutamente assustador, por exemplo. 
 
Fugindo daquilo que apenas assistimos e entrando na mensagem real da adaptação, seria um crime não incluir aqui uma ligação com o sensacional (em todos os aspectos: atuação, direção, roteiro, sensualidade, provocação, reflexão, polêmica etc) Diário Proibido, produção francesa de 2008. 
 
Na ocasião em que publiquei a crítica de Diário Proibido, escrevi o seguinte: 
O filme aborda a discussão sobre os valores morais da sociedade. “Se um homem come várias, é garanhão. Se a mulher faz o mesmo, é puta”. Quem nunca ouviu isso antes? Comparações poderiam ser feitas com o clássico Crime e Castigo de Dostoievski, pois a avó materna de Val a aconselha a fazer o que realmente tiver vontade, pois do contrário, ela iria se arrepender depois. Val leva a vida da forma que quer, com a patologia do sexo, decidida a realizar todas as suas fantasias e ser sempre uma amante insaciável. E quando digo insaciável, não exagero. Ela libera geral e ainda se amarra em provocar o coitado do vizinho adolescente.”
 
Em 100 Escovadas Antes de Dormir é exatamente a repetição dessa ideia. A personagem sofre uma desilusão e no meio de todas as crises familiares e do inevitável conflito de passar da fase adolescente para adulta, acaba optando por se entregar na busca do prazer e criar a sua própria realidade. Em determinado momento, ela diz algo como: “Agora eu vou agir como um homem.” e é sobre isso que a história deveria tratar, mas acaba sendo superficial e com um distanciamento prejudicial para sustentar o potencial dramático dessa personagem. 
 
A liberdade sexual igual para ambos os sexos é um desejo que até hoje as mulheres lutam para conseguir e deveria ter ganhado uma produção um pouco mais inteligente e que não tivesse medo de se aprofundar naquilo que é a realidade de tantas garotas do mundo inteiro. Faltou coragem para os produtores e diretor e infelizmente, 100 Escovadas Antes de Dormir é só uma história de ninar para crianças que cresceram ouvindo e presenciando contos de fadas da vida real. Vale assistir só parar saciar a curiosidade, pois de resto… 
 
3 Caipirinhas